Romântica Anônima: Capítulo 1 – R.A

Ensino médio

A hora do intervalo era seu momento favorito de todo o horário letivo. Enquanto todos conversavam sobre assuntos aleatórios, combinavam a balada sem autorização dos pais que dariam no fim de semana, falavam mal de colegas de classe ou destratavam quem eles consideravam “não popular”, ela desenhava.

Desde que se entendia por gente um pedaço de papel e uma caneta sempre foram os seus melhores amigos – depois de Julie, sua melhor amiga. Ela se perdia em todos os traços que formavam o interior de uma sala de estar. As colunas do refeitório eram responsáveis pelo esboço de prédios futuristas. Por algumas vezes até o rosto de quem transitava entre as mesas dava a ideia de alguma casa – às vezes um chalé.

Por todos aqueles minutos ela se desligava do mundo, esquecia-se de todas as boas notas que precisava tirar para conseguir a bolsa integral na faculdade dos sonhos e focava somente em seu desenho. Aquilo a relaxava. Era tão parte de sua rotina – e até mesmo do seu eu – que às vezes se pegava desenhando em um pedaço de guardanapo ao mesmo tempo em que conversava com suas amigas.

— Parece que alguém tem um admirador secreto.

A voz de Julie a trouxe de volta para o mundo barulhento que era o refeitório da escola. Ela sacudia um embrulho de sanduíche com um sorrisinho no rosto. Fitou-a por alguns segundos tentando entender o que o almoço tinha a ver com um admirador secreto.

— “Espero que esteja do seu agrado”. – leu o cartão que veio junto com o sanduíche. – Quem é R.A, Rebecca? – sentou-se ao lado dela na mesa. – Eu tentei puxar na memória alguém da classe com essas iniciais, mas não encontrei ninguém.

— R.A? – com o cenho franzido, sem fazer a mínima ideia do que a amiga dizia, Rebecca pegou o cartão da mão dela. – Eu não conheço nenhum R.A. – passou os olhos pelo cartão com a esperança de talvez reconhecer a letra. – E por que você está perguntando para mim? O sanduíche não é para você?

— Eu até pensei que fosse por estar no meu armário, mas… – empurrou o sanduíche até parar na frente de Rebecca. – Atum, queijo, cream cheese, alface, tomate e cebola não são os ingredientes do meu lanche favorito.

— Do que… – ela desembrulhou o lanche rapidamente e ficou mais confusa do que estava com tudo aquilo assim que abriu uma banda do pão e encontrou todos os seus ingredientes favoritos ali. – Bizarro. – afastou o lanche para longe, assustada.

— Ou romântico. – colocou o cartão ao lado do rosto, abrindo um sorrisinho. – Você não vai comer? Passou a semana inteira reclamando que sua mãe não fez um único dia o lanche que você gosta…

— Sua mãe nunca te ensinou que é errado aceitar comida de estranhos? Porque é isso que esse R.A é, um estranho.

Na verdade, uma estranha.

Atualidade

— Merda!

Claro que ela estava atrasada para a entrevista de emprego que passou a semana inteira se preparando. O universo nunca perdia a oportunidade de tirar com a sua cara. Dessa vez, ele fez com que seus despertadores não tocassem. Quais as chances do despertador do seu celular e o digital que ficava ao lado de sua cama em cima do criado-mudo – que a única função que tinha era despertar – não despertarem? Se isso não era o universo dizendo que não ia com a cara dela, ela não fazia ideia do que ele estava querendo dizer.

Quase deixou o dedinho mindinho no pé da cama na hora de correr atrás de uma roupa para vestir. Proferiu alguns palavrões por causa da dor e foi pulando em um único pé até o guarda-roupa.

Por que, mesmo depois de todos esses anos, não ouvia o que a mãe dizia sobre sempre separar a roupa que vai usar na noite anterior para caso venha ocorrer algum imprevisto? Esse seria um ótimo momento para economizar alguns minutos que já não tinha.

Pegou a primeira calça social preta e blusa branca de manga longa que encontrou no guarda-roupa e vestiu. Não queria vestir algo tão normal para uma entrevista importante, mas não tinha tempo para fazer uma combinação melhor e suas experiências deveriam contar mais do que sua roupa.

Quem ela estava querendo enganar? Tinha quase certeza que só conseguiu o seu último emprego por causa do decote que usou. Ainda não fazia ideia de como aguentou trabalhar tanto tempo naquela empresa.

O bom era que se um decote fosse algo decisivo para conseguir um emprego poderia incluir mais uma empresa para a lista de empresas que nunca ia trabalhar na vida. Estava cansada de homens, cis, brancos, heteros e machistas reduzindo o seu talento a suas vestimentas sendo que ela era um milhão de vezes mais talentosa do que todos juntos – além de fazer um trabalho imensamente melhor até mesmo sozinha.

— Caralho, Sam! – sem entender o motivo de um palavrão ter antecedido o seu nome, Samantha ficou olhando a amiga com indiferença, enquanto ela revirava o sofá atrás de algo. – Por que você não me acordou? – Karina jogou a última almofada para longe e começou a passar a mão pelo estofado. Assim que chegou na ponta do sofá em que Samantha estava sentada, encontrou na mão da amiga o que procurava. – Obrigada! – disse cinicamente pegando a caixinha com suas lentes de contato.

Karina caminhou até a cozinha que era praticamente anexada a sala e parou de frente a geladeira de inox. Pelo espelho do painel viu seu reflexo. Rapidamente colocou as lentes de contato em seus olhos e arrumou alguns fios bagunçados de seu cabelo solto e soltou um suspiro. Poderia ter se maquiado melhor, mas aquilo era melhor do que nada.

— Faz quanto tempo que você está acordada? – ainda estava indignada pela amiga não ter lhe acordado. – Custava me chamar? – intercalava seu olhar na bolsa em sua frente e na amiga que continuava sentada no sofá com uma expressão totalmente indiferente as suas reclamações. – Ou você não quer que eu consiga o emprego que você me arrumou a entrevista?

— Além de te arrumar a entrevista eu ainda tinha que te acordar? – Samantha voltou a atenção para o celular em sua mão. – Se você dormiu mais que a cama o problema não é meu não.

Assim que os olhos de Karina fixaram em Samantha, prestando atenção de verdade na amiga pela primeira vez naquela manhã, ela resolveu guardar para si mesma a resposta que tinha na ponta da língua.

Samantha estava sentada na ponta do sofá com as pernas cruzadas em cima do mesmo, os cabelos loiros estavam bagunçados, as olheiras estavam profundas, denunciando que ela tinha passado a madrugada inteira em claro. Isso até poderia ser algo positivo, caso ela não estivesse trajando seu pijama azul dos Ursinhos Carinhosos.

— Você não vai trabalhar hoje? – ela sabia muito bem a resposta para aquela pergunta e o motivo da resposta, mas tinha sempre que ouvir por achar inacreditável a amiga não ter dado um basta nisso ainda. – Como você ainda consegue manter um escritório sendo que pelo menos duas vezes na semana você não vai trabalhar?

— O escritório não se chama Adams & Garcia à toa. – grunhiu, jogando o celular no sofá. – Eu pedi para a Paula remarcar minhas reuniões para mais tarde. Ninguém vai morrer se esperar mais algumas horas para dar entrada ao processo de divórcio. Já esperaram anos em um casamento infeliz mesmo.

— O que aconteceu dessa vez? – Karina estava atrasada, mas depois de tudo que Samantha fez por ela – e isso não tinha nada a ver com a entrevista de emprego que ela arrumou – não importava o horário ou o momento, sempre procurava estar lá por ela também. – Por que você ainda insiste nesse relacionamento? Essa sua namorada invisível é louca e não te merece.

— Ela não é minha namorada. – levantou-se do sofá, a cara estava mais emburrada do que o normal. – Nunca foi e nunca será. – parou atrás do balcão da cozinha e serviu duas xícaras de café. – Ela terminou tudo comigo, de novo, – revirou os olhos – porque ficou noiva daquele namorado chifrudo dela. – o tom era indiferente, como se ela não estivesse se definhando por dentro. Estendeu uma xícara de café para a Karina. – Espero ansiosamente ela casar para meses depois ser a advogada de divórcio do chifrudo, não dela. Ela eu quero mais que se foda.

— Ou continue te fodendo, – tomou um gole do seu café. – de todas as formas que ela conhece. – abriu um sorrisinho debochado e em resposta a amiga lhe mostrou o dedo. – Você está melhor sem ela, Sam.

— Aquela desgraça é a mulher da minha vida, Karina. – soltou demoradamente o ar que guardava em seus pulmões. – Eu amo e odeio tanto aquela filha da puta, mas… Você não está atrasada?

No mesmo instante Karina olhou a hora em seu relógio de pulso, como se tivesse sido trazida de volta para a realidade, colocou a xícara de café em cima do balcão sem nem ao menos terminar de tomá-la e pegou a bolsa.

— Me deseje sorte.

— Eu tenho que desejar sorte a empresa, pois eles correm o risco de ouviram um não da sua boca. – disse com um sorriso sincero. – Me mande mensagem dizendo quantas pessoas foram necessárias para implorar que você aceitasse o emprego.

Karina mandou um sorriso de agradecimento pelas palavras da amiga e deixou o apartamento rumo ao metrô.

E, mais uma vez o universo fez questão de mostrar que não importava o quanto ela era uma boa amiga – ou uma boa pessoa – ele sempre iria a sacanear.

Sentiu-se a protagonista do filme De Caso com o Acaso ao ver a porta do metrô fechando em sua cara no mesmo instante que ela chegou a plataforma. Procurou não pensar no que aconteceria caso ela tivesse conseguido pegar o metrô, pois ela sabia muito bem como a história terminava.

Não demorou muito tempo até que o outro metrô chegasse, mas mesmo assim isso não diminuía os minutos que ela chegaria atrasada. Em toda estação ela consultava seu relógio de pulso. Suas pernas sacudiam – e aparentemente estava incomodando a mulher que estava sentada no banco de frente para suas pernas – e daqui a pouco não teria mais bochecha para morder por causa de todo seu nervosismo e impaciência.

Queria torcer para que a pessoa que fizesse a sua entrevista não fosse tão carrasca. Não era de se atrasar, nunca foi. Mas tinha medo do universo usar a sua torcida para continuar tirando com a sua cara.

Em 50 minutos estava na frente de um dos prédios mais lindos que já tinha visto em sua vida. O prédio era todo de vidro, de um azul claro que podia fazer as pessoas perderem o lugar de onde realmente se localizava o céu por causa das nuvens que refletiam nele dando a aparência que ele foi feito com o intuito de imitar toda aquela imensidão azul que ficava em cima dele. Por causa dos outros prédios e árvores o edifício parecia uma cidade feita de vidro.

Por alguns segundos Karina esqueceu que estava atrasada e permitiu-se observar toda aquela obra de arte. Queria ter tido a oportunidade de trabalhar naquele projeto, com toda certeza seria um dos que ela mais teria orgulho de ter seu nome assinado.

Despertou dos seus devaneios graças a alguém que esbarrou sem querer nela. Não era para menos, estava parada no meio da calçada de uma das ruas mais movimentadas da Midtown, mas não doía nenhum pouco as pessoas balbuciarem um pedido de desculpas.

Com esse pensamento, Karina chegou a conclusão que passou tempo demais morando em Los Angeles. Desde quando as pessoas em Manhattan pediam desculpas por esbarrar em alguém? Se ela tivesse começado sua carreira em Nova York, provavelmente também não pediria.

Entrou no edifício em passos largos, consultando mais uma vez a hora em seu relógio de pulso. Estava mais atrasada do que os desejos de feliz aniversário de seu pai. E, quando Karina pensou que o universo já havia pegado o suficiente em seu pé, ela acabou trombando em alguém que não fazia a mínima ideia da onde saiu.

A primeira coisa que prestou atenção foi nas pastas que caíram no chão espalhando todos os documentos que estavam dentro dela e em seguida sendo sujas por alguns pingos do café.

— Merda!

Karina se agachou para recolher os documentos no mesmo instante que a pessoa dona dos documentos também agachou.

— Merda!

Então, da mesma forma que acontece nos filmes adolescentes, as mãos se tocaram e os olhos cor de mel se encontraram com os azuis.

Karina esqueceu como se respirava por alguns segundos. Não era possível que mesmo depois de todos os anos que se passaram seu coração batia como se estivesse prestes a pular de sua caixa torácica. Tinha esquecido como a sensação era angustiantemente boa. Como aquela batida descompensada fazia com que ela quisesse passar o dia inteiro sorrindo. Igual ao passado, seus membros não a obedeciam, ela não conseguia fazer nenhum movimento a não ser fitar aqueles olhos azuis. Eles continuavam tão vivos, trazendo a mesma doçura da primeira vez que se esbarraram daquela mesma forma.

De tantos lugares para reencontrá-la tinha que ser logo ali? O universo havia mesmo tirado o dia para arrasá-la de todas as formas possíveis.

Bruna Cezario

Aquela que dorme demais, come demais, fala demais, é fangirl demais, assiste séries demais, shippa demais, faz as pessoas sofrerem com suas histórias demais, farofa demais e tem dinheiro de menos. Prazer!

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