Celeste – Capítulo 1: Os Gêmeos

A casa parecia minúscula quando os dois resolviam começar a brincar. Podia-se ouvir vidraças quebrando e outros objetos caindo, mas nunca ninguém se importava o suficiente para proferir uma bronca à eles. Eram somente eles na maioria dos dias, e eles conseguiam achar uma maneira de se divertirem mesmo sentindo uma vasta solidão por parte das afeições parentais.

Uma bola de beisebol fora arremessada e mais uma vez a menina não conseguira rebatê-la. Seu irmão armou um bico e fechou a cara, completamente irritado que a irmã não conseguia acertar a bola. “Meninas são estúpidas”, ele pensava. Mas nunca chegaria a dizer isso para ela.

— Vamos, Liz, é somente uma bola. – Ele vociferou, voltando a pegar a minúscula circunferência com suas luvas.

— Eu não sou boa com bolas, você sabe disso. – A menina reclamou, jogando o taco de qualquer jeito no chão e cruzando os braços.

— Não há nada demais nisso. – Ele disse, jogando a bola para cima e a pegando ainda no ar. – É só rebater. – Ele continuou dizendo.

— Não quero continuar brincando disso. – Ela ajeitou o casaco pesado no corpo e colocou o capuz. – Vamos correr. Para a floresta.

— Eu não quero correr. – Ele rebateu, também ajeitando o casaco e deixando as luvas de lado.

— Só porque eu sou mais rápida do que você. – Ela provocou, com um sorriso de canto.

— Você é uma garota. Garotas não são mais rápidas que garotos. – Ele explicou calmamente, parecendo saber exatamente do que estava falando.

— Então não será um problema para você me alcançar. – Ela disse, sorrindo de canto e então impulsionando o corpo para frente, começando a correr em uma alta velocidade.

— Ei, espere! Assim não vale. – O menino a seguiu. Ambos abriram a porta da casa e seguiram campo à fora, correndo entre risadas e divertindo-se enquanto afastavam-se ainda mais da casa.

A senhora Jackson apenas observou enquanto os dois entravam na floresta. Não costumava ser uma mãe tão ausente, mas sabia que não estava passando muito tempo com os filhos nos últimos meses. Por isso, pediu as contas no trabalho e entrou de férias prolongadas. Ela iria dar essa notícia no jantar. Sabendo que as crianças estavam acostumadas a brincar na floresta existente no final do campo, ela apenas esperou que eles voltassem.

Elizabeth e Alexander Jackson cresceram com espíritos livres. Sem serem muito limitados por seus pais, costumavam fazer o que quisessem e, apesar disso, ainda eram boas crianças. Não eram maus ou faziam maldades e algo do tipo. Só queriam se divertir e ficarem juntos. A companhia um do outro era suficiente para passar o tempo. Eles também costumavam ter sonhos e ambições, mas nunca comentaram em voz alta sobre eles. Conversavam entre si somente suas futilidades e coisas que gostavam. Alex era obcecado por esculturas de anjos e Eliza por livros. Eles gostavam de coisas materiais mais do que sonoras devido ao pequeno problema de audição que possuíam. Sentiam-se mais seguros quando conseguiam tocar ou ver as coisas. Por isso não tinham medo da floresta escura que ficava perto de sua casa e que quase ninguém frequentava. Lá era um bom lugar para brincar e se esconder do mundo real.

Como dissera antes, Elizabeth era muito mais rápida que o irmão. Ela correu por minutos sem olhar para trás, somente sentindo o vento bater em seu rosto e desviando dos galhos ardilosos que encontrava pelo caminho. Ela nunca havia corrido tão adentro daquela floresta, então parou de movimentar-se quando observou uma brecha entre as árvores e uma luz intensa vindo de lá. Era como se ela tivesse alcançado um outro campo. A menina espremeu os olhos e tentou ver alguma coisa, mas sabia que não iria conseguir se não fosse mais perto.

— Alex, você está vendo? – Ela perguntou para o irmão.

Mas ele não respondeu.

Eliza olhou para trás de si e percebeu que havia corrido demais. Seu irmão não estava em qualquer lugar que sua visão pudesse enxergar. Ela encolheu-se dentro das vestes pesadas e andou calmamente para aquela luz, mas foi surpreendida quando um corpo ainda menor que o dela simplesmente pulou à sua frente, fazendo com que ela pulasse em susto.

— Buuu! – Alex riu quando viu sua cara apavorada.

— Isso não tem graça. – Ela disse, segurando o choro e afastando-se do irmão.

— Sou somente eu, bobinha. – Ele disse. – O que estava vendo? – Alex caminhou um pouco a frente e parou quando também observou a luz. Alguma coisa lhe dizia que ele não deveria ultrapassar o lugar que estava, então ele apenas deu de ombros e voltou-se para a irmã. – Vamos para casa, já está escurecendo. – Ele alertou. Eliza concordou e ambos começaram a voltar de onde vieram, com Alex sempre olhando para trás para certificar-se de que ninguém os estava seguindo. As árvores perto do lugar onde estava a luz possuíam folhas mais escuras e galhos assustadores. Alex era esperto o suficiente para não se arriscar por lá.

Naquele momento.

 

Eles sentaram-se à mesa de jantar logo após tomarem um banho rápido. O clima era de nevasca nos últimos dias, então passar muito tempo embaixo d’água poderia significar um problema. Apesar disso, as roupas pesadas os ajudavam a manter-se aquecidos.

A senhora Jackson havia preparado um jantar delicioso, digno daqueles comercias que Alex costumava ver na televisão, onde uma família feliz jantava tranquilamente contando histórias e fatos sobre o seu dia, rindo a cada palava vociferada. Alex sabia que sua família estava longe de ser assim, mas também sabia reconhecer os esforços que, pelo menos, sua mãe vinha fazendo nos últimos dias.

— Acharam algo interessante na floresta hoje? – Ela perguntou aos filhos. Eliza encarou o irmão nos olhos e conseguiu entender que ele pedia para que ela não falasse sobre a luz.

— Não, tudo a mesma coisa. – Ele respondeu.

— Vocês não deveriam ir para aquela floresta. – O pai dos gêmeos, David, deixou o jornal de lado e encarou os filhos pela primeira vez. – É perigoso, escuro e longe. Vocês podem acabar se perdendo ou sendo sequestrados. – Ele alertou, observando enquanto sua esposa colocava um pedaço de carne em seu prato.

— Não acho que tenha alguma coisa de mais em brincar por lá, Dave. E além do mais, as crianças sempre brincaram por aquelas bandas.

— Mia, não me contrarie na frente das crianças! – David irritou-se, soltando as palavras arduamente. Mia Jackson apenas calou-se e permaneceu servindo a comida no prato dos filhos. – Não quero mais vocês na floresta. Não me contestem.

— Tudo bem, papai. – Ambos responderam em uníssono.

 

O grande problema de não ser tão presente na vida dos filhos era o fato de que David não sabia quando eles estavam mentindo. Como poderia desconfiar daqueles rostinhos angélicos que aparentavam não criar problema algum? Ele só acreditava que a sua palavra era a última e que eles obedeceriam, assim como ele fazia quando era pequeno e o seu pai gritava ou dava alguma bronca nele; assim como sua esposa o obedecia quando ele falava mais duro. Mia poderia ter sido criada para abaixar a cabeça para o marido, um pensamento retrógrado que, infelizmente, já estava enraizado em sua cabeça. Mas seus filhos não foram criados para fazer a mesma coisa. Poderiam respeitar o pai, mas também eram crianças e tinham os seus momentos.

— O que você está fazendo? – Elizabeth perguntou ao irmão. Ela acordou no meio da noite e não o viu na cama que ficava ao lado da sua. Não precisou procurar muito para achá-lo, uma das vantagens de ser gêmeos: Ela sempre pensaria como o irmão e, consequentemente, sempre saberia onde ele estava. Andou pela casa por alguns minutos e conseguiu ouvir um barulho vindo do porão. Quando chegou lá, Alex procurava algo nas ferramentas de seu pai, completamente concentrado.

— Ouch! – Ele colocou a mão no coração e soltou um longo suspirou. – Você me assustou.

— Está indo para a floresta, não está? – Ela adivinhou, tendo um sorriso sapeca enfeitando seus lábios. Alex fez uma careta e voltou a procurar algo na caixa. – O papai falou que não é para nós irmos lá.

— Por isso que eu vou sozinho. – Alex disse, e finalmente retirou uma lanterna da caixa de ferramentas e a ergueu, comemorando.

— Eu vou com você. – Eliza disse simplesmente, fazendo o irmão abaixar o braço com a lanterna e a olhar desconfiado.

— Não vai não. – Ele tentou argumentar.

— O papai vai adorar saber que você mexeu na caixa de ferramentas dele para ir a um lugar que ele te proibiu de ir e…

— Tudo bem! – Alex concordou, emburrado. – Você vai, mas não me atrapalhe.

— Eu já peguei nossos casacos, estão lá em cima.

— Já desceu aqui pensando em me chantagear, eu sei. – Alex bufou, e então pegou uma mochila que estava ao seu lado e retirou outra lanterna de lá, oferecendo-a para a sua irmã. – Eu já estava preparado para isso. – Ele sorriu esperto e Eliza riu.

— Você me conhece tão bem. – Ela implicou, pegando a lanterna e observando enquanto o irmão colocava a mochila nas costas.

— Vamos, temos que estar de volta antes que eles acordem.

 

Eles andaram pela floresta um pouco mais cuidadosos dessa vez. Era diferente fazer aquele caminho pelo dia e fazer aquele caminho pela noite. A floresta ficava ainda mais escura, e o brilho da lua quase não era visto com tantas árvores bloqueando a visão do céu noturno.

— Anda mais rápido, eu tenho certeza de que vai nevar daqui a pouco. – Alex disse, apontando a luz da lanterna para todos os lados, em alerta.

— Não vamos pegar nenhum floco de neve com esse tanto de árvore na frente. – Eliza rebateu. – Ei, eu não tinha visto essas flores antes.

Ela aproximou-se de uma planta brilhosa e tocou as pétalas de suas flores com cuidado.

— Flores no inverno? – Alex perguntou, também se aproximando. – Eu nunca as vi. – Ele observou as cores variarem a cada brotinho que enxergava, nunca havia visto algo parecido.

— Mágica. – Eliza disse, abrindo um sorriso encantador.

— Isso não existe. – Alex ajeitou a mochila no ombro e se afastou dela. – Vamos continuar andando.

— Eu acredito que vocês são flores mágicas. – Eliza disse, tocando mais uma vez aquelas pétalas.

— Anda, Liz! – Alex chamou, já longe.

 

Elizabeth Jackson saltava pelas pegadas que o irmão deixava no chão, perseguindo-o sem fazer silêncio.
Eliza perseguiu o irmão por mais alguns metros adentro da floresta antes de as pegadas desaparecerem, juntamente com a fina camada de neve. Apesar de tantas árvores, alguns flocos ainda tocavam o chão, cobrindo-o de branco. A pequena franziu o cenho e olhou ao redor, seus olhos verdes brilhando e um pouco arregalados. Onde ele havia se metido? Ele havia assustado-a pela manhã, mas sabia que o irmão era responsável o suficiente para não fazer a mesma coisa durante a noite.

— Alex? – Sua voz carregava um tom preocupado e até mesmo assustado. – Irmão, onde você está? – Ela passou os olhos pela floresta mais uma vez, depois os fechou fortemente, tentando não desesperar-se com o fato de não saber voltar para casa e ter acabado de perder-se do irmão.

— Eliza! – Uma voz ao fundo chamou. A criança rapidamente abriu os olhos e entrou em alerta.

— Alex?!

— Socorro! – Agora ela conseguia dizer de onde ele estava chamando. A pequena correu na direção oposta de onde estava, saltando por entre os galhos e ignorando a presença dos possíveis animais que poderiam ter naquelas árvores.

Eliza correu por alguns minutos até enxergar uma luz um pouco a frente. Aquela luz. A menina seguiu até lá em passos largos, tentando enxergar algo através dela, mas não conseguiu. Sentindo as batidas de seu coração socarem o peito sob a pele, ela finalmente alcançou o lugar.

Era um campo, quase igual àquele que abrigava a sua casa, com a diferença de que não se era possível enxergar um fim. A neve agora caía constantemente, e ela teve que proteger o rosto com o capuz do casaco para que não sentisse tanto frio. Eliza caminhou para frente, mesmo que só enxergasse o branco além do céu nublado.

— Alex? – Ela chamou novamente. A criança apressou as passadas, sentindo a respiração ficar cada vez mais pesada e tensa, até que bateu de frente com algo que ela não soube distinguir.

No início, achou que fosse penas. Mas a maciez cedeu espaço a uma dureza nunca sentida, seguida de sensações divergentes e uma notável tontura. Eliza levou a mão à cabeça. Esta doía, mas havia momentos em que a dor era simplesmente inexistente. Seu corpo estava molengo, e não respondia aos seus comandos. Ela sentiu o sono chegar e tentou agarrá-lo como uma válvula de escape. Entretanto, seus olhos estavam largamente abertos, com pavor, e eles conseguiram ver um rosto feioso encará-la com desprezo.

Os olhos eram escuros, assim como os cabelos e a sobrancelha. Havia diversas cicatrizes em seu rosto e mãos, provenientes de alguma luta. O torso era musculoso e definido, e estava coberto por uma armadura dourada com um símbolo azulado. A mesma cor azul definia outros detalhes da armadura, e ele carregava uma espada tão grande que ela não soube como ele conseguia carregar, apesar de suas mãos serem grandes e, provavelmente, fortes.

— Eliza, saia daí! – Ouviu o irmão gritar. A figura retirou seu olhar dela e depositou nele. A menina foi capaz de enxergar o sorriso maldoso que ele soltou, e tentou arrumar alguma força para avisá-lo, mas estava fraca demais. Foi capaz de ver quando duas asas incomumente brancas abriram-se em uma envergadura de três metros em cada lado. Um anjo, ela pensou. Mas ele não era um dos bons.

O anjo alçou voo e empunhou a espada, pronto para atacar. Alex correu de onde estava, tentando voltar para a floresta. Ele não conseguiu. A velocidade do ser divino era mil vezes mais rápida do que a dele com o anjo fazendo o seu mínimo esforço. Não demorou muito para que ele sentisse seu casaco sendo puxado, e ele ser retirado do chão. Alex gritou, e conseguindo pensar rapidamente, desceu o zíper do casaco e deslizou os braços dele, caindo de cara com a neve. O anjo sentiu a falta de peso imediatamente, e fuzilou a criança com o olhar. Seus olhos estavam sombrios e faziam Alex sentir medo. Pela primeira vez, ele temeu o escuro.

Alex levantou-se e voltou a correr, dessa vez, ia em direção à irmã. Ele corria com dificuldade, porque o anjo conseguira acertá-lo com a ponta de uma das asas quando ele se soltou do casaco. Sentia que a morte estava próxima, mas não queria deixar a irmã para trás. Se pudesse olhar para ela uma última vez, quem sabe os dois achassem um jeito de escapar daquela juntos, como sempre faziam quando entravam em confusão.

O anjo aproximou-se mais uma vez da criança, mas não conseguiu alcançá-lo dessa vez. Duas outras figuras entraram em cena, mexendo-se tão rápido que Alex teve dificuldade de acreditar no que estava presenciando. O anjo foi jogado para longe, cada braço seu sendo segurado por mais um anjo, totalizando dois.

Eles eram menores, com cabelos compridos. Alex percebeu que eram duas mulheres, em um termo humanamente descritivo. As armaduras delas também eram douradas, mas o símbolo e os detalhes não eram azuis, e sim brancos. Ambas também carregavam espadas tão grandes quanto aquela do primeiro anjo, mas elas seguravam o objeto como se ele não tivesse peso algum.

O anjo de armadura com o símbolo azulado recobrou a consciência após o susto inicial. Ele encarou feio as duas anjas, que adotaram posições defensivas na frente das crianças. Vendo de mais perto, Alex conseguira perceber que uma delas possuía o cabelo curto, liso e com o corte definido. Ela era branca, mas não tanto quanto o anjo maior. A outra já tinha a pele mais escura, assim como os longos e trançados cabelos castanhos. Ela possuía mais cicatrizes do que a outra, apesar de ser um pouco menor.

Alex pensou que o que viria a seguir seria um show de horrores protagonizado por lutas intensas e bolsas de sangues divinos. Ele puxou a respiração com dificuldade e observou os olhos da irmã fecharem aos poucos enquanto um lado de sua cabeça sangrava, decorrente de um corte em um dos lados de sua testa. Eliza apenas cedeu ao choque e deixou o irmão sozinho enquanto ele observava atentamente cada passo dos três anjos.
Apesar de seus pensamentos. O anjo maior soltou uma risada incrédula e guardou a espada na bainha em sua cintura. Ele olhou para as duas anjas e depois voltou seu olhar para Alex, que ainda o encarava com pavor. O anjo sorriu como se dissesse que aquele não seria o último encontro dos dois, comunicando-se silenciosamente com a criança que entendeu muito bem o seu recado. Depois disso, ele voltou a abrir as asas e abaixou-se para tomar impulso e finalmente voar para cima. Alex sequer conseguiu visualizar a direção, tamanha a sua velocidade. Ele piscou os olhos algumas vezes até encarar novamente o machucado na altura de seu abdome. Alex sentiu a cabeça rodar e deixou que o corpo caísse ao lado do corpo da irmã, já inconsciente, mas sabendo que aquele poderia ser o último momento de sua curta vida.

As duas anjas ajeitaram suas posturas e também guardaram suas espadas, logo voltando-se para os gêmeos quando ouviram o som do corpo de Alex ir de encontro ao chão branco. Elas encararam-se silenciosamente, titubeando o que iriam fazer. Havia muitas opções a seguir, mas nem mesmo elas sabiam o que era o certo desde que a Guerra iniciou-se nos céus. “O que faremos com eles?”, a anja com o cabelo longo perguntou à outra, telepaticamente. “Vamos levá-los conosco”, a outra anja respondeu, incerta.

Cada uma delas pegou um dos gêmeos no colo. Elas olharam-se uma última vez para confirmar que seria aquilo o que iriam fazer. Poderiam ter acabado de assinar uma perspectiva de futuro para aquelas crianças, mas também poderiam ter acabado de assinar sua sentença de morte. Não tinha como dizer. “Ela vai saber o que fazer”, uma delas disse.

Pelo menos assim ela esperava.

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