O Último Adeus

 

 

A princesa Rocca de Oronluin, Reino das Grandes Montanhas Azuis que tocam o céu e desmancham-se no oceano, está cavalgando para casa através de estradas de bronze terra e florestas de verde jade. Sua tropa está exausta, ferida e saudosa. Há três anos, em meados da primavera, quando partiu com mais de setecentos leais entre guerreiros, alferes, nobres e escudeiros, jamais previu que sua jornada pela paz roubaria de seus olhos a beleza e acalento de sua pátria natal. Mas quando sua fiel Capitã Kallista, a frente de sua comitiva, ergue o braço com o punho fechado, sua manopla prateada resplandece sob o Sol e o arauto toca a trombeta esganiçada; quando as primeiras cordilheiras geladas surgem no horizonte, a Princesa não sente o calor espalhar-se em seu coração tal qual o fogo morno dos dragões etéreos como pensou que sentiria. Não sente a plenitude e a glória da conquista vitoriosa.

É vazio. Vazio somente.

E Rocca, postura altiva e silenciosa, admirada por seus compatriotas, conhece a razão.

A razão tinha, como ela, a pele e os cabelos escuros dos mouros de Oronluin, mas os olhos dela, não como os da Princesa, que são castanhos sombrios como as auroras invernais, eram amendoados e brilhantes, num tom de tabaco e mel denso e belo. A razão batalhou com destreza e protegeu com ferocidade. Para além da guerra, foi franca em suas convicções e indômita em suas opiniões. Ela foi, sobretudo, a mais corajosa.

Fillys nasceu uma camponesa na província de Bearealm, a província mais próxima das Montanhas Azuis, numa humilde vila de herbáceos e cantigas, com seus pais, duas irmãs mais velhas, dois irmãos caçulos e uma matilha de cães baderneiros.

Cresceu, porém, coadjuvando o camerlengo e o escriba no palácio, até os seus quinze anos, quando a Rainha Nyra a viu, de sua torre, praticando arco e flecha no pátio, notando que a jovem possuía aptidão para o combate.

A Princesa Rocca, habituada a rígidos treinos individuais e exaustivas lições teóricas, nunca se esquecerá da primeira vez em que a viu, de túnica e calças de algodão, flexionando o arco, concentrada e disciplinada. Sendo a Princesa um tanto insubordinada e idealista, o Rei e a Rainha acreditaram que Fillys foi de suma importância para seu amadurecimento, permitindo treinos em dupla e concedendo à jovem camponesa o direito de frequentar as aulas junto da filha, que muito a auxiliou em sua aquisição de conhecimento, uma vez a Princesa muito mais versada em ciências e políticas do que em espadas e escudos.

O Rei Resesc estivera sempre ciente do significado profundo de dividir a juventude ao lado de alguém. De como os demônios são encontrados, os prantos são inelutáveis, os risos são involuntários e, acima de tudo, a estreiteza de toda a confiança e cumplicidade é imparável. O Rei temia por sua filha, pois, no reino, rumores de guerras uivavam enquanto ela crescia em sua amizade imprevisível e ele, que perdeu dois irmãos e o melhor amigo e general no fogo de uma batalha, sabia, com cada cicatriz irremediável, das vidas que depressa se vão.

Rocca recorda-se de sentir-se protegida mesmo do mais alarmante dos boatos. Fillys estava em seus passos, suas pinturas, nos desjejuns divertidos, nas leituras noturnas esgueirando-se na biblioteca do castelo, nas estrelas que observava da torre mais alta. Tanto quanto recorda-se de quando os passos seguiram-se mais lentos; as pinturas tornaram-se mais impudicas; os desjejuns fizeram-se menos brincalhões e mais íntimos; as leituras noturnas transferiram-se para seus aposentos, sobre o leito; e as estrelas reverteram-se de observadas a observadoras, como quando surrupiavam cavalos no estábulo para apreciar as feiras dos mascates, as festividades dos solstícios, ou simplesmente cavalgar sob a Montanha, sua enorme silhueta assombrosa estendida pela pálida luz do luar sobre elas.

Os rumores prosseguiram e a vida tinha igualmente de prosseguir.

E que vida – Pensa a Princesa sobre sua sela, apertando as rédeas quando seus olhos se alastram através da planície limpa e cálida, cenário inviolável de brincadeiras exploradoras aos quinze, que se metamorfosearam-se em toques aconchegantes e a voz muito rouca de Fillys, entoando melodias de seu vilarejo no sopé da Montanha, conforme os anos avançaram.

Como acalenta recordar-se dos repousos em par na estepe, onde não havia princesa e camponesa, nenhuma aprendiza, nenhuma incumbência. Onde Fillys cantaria e sorriria e debateriam e compartilhariam como iguais.

Às vésperas de seus dezenove anos, porém, rufaram os tambores anunciando o início de um confronto devastador. A Rainha Nyra enviou tributos com carreteiros, o Rei Resesc enviou seus alcaides, recebendo como resposta suas cabeças, raspando as unhas no trono de madeira em fúria e ordenando que os cônsules proclamassem a guerra contra a Rainha Ysolt de Dalknes, reino distante, muito mais árido, também riquíssimo e populoso, estabelecido o conflito pela disputa das terras menores além de ambos, acordos que a Rainha Ysolt, orgulhosa, recusou-se a redigir e a assinar o que Oronluin lhe propunha.

Agora, na estrada, a Princesa Rocca carrega uma capa vermelha, um arco despedaçado e uma vida de lembranças ao lado da camponesa Fillys. Sua missão é chegar ao reino, às Montanhas, na província de Bearealm, o lar da família de sua mais inestimável companhia, e mudar suas vidas para sempre.

A Princesa precisa dar o seu último adeus.

– Minha Senhora. – A Capitã Kallista, com seus longos cabelos e olhos negros, retirando o elmo em respeito ao dirigir-se à Princesa, a reverencia inclinando o dorso sobre a sela. – Se me permitir, guiarei o exército de volta à cidadela e um séquito particular permanecerá para acompanhá-la até Bearealm.

Kallista é irmã de sua mãe, a Rainha Nyra. É conhecida por sua temperança e habilidade nata de liderar, tendo sido sua mentora e conselheira desde que ingressou nos treinos de combate.

– Você não estará comigo? – A Princesa desabrocha vulnerável.

– Estou sempre contigo, Princesa. – Sorri a Capitã. – No nascer e morrer de cada batalha. Mas este… O seu coração? Esta somente em suas mãos.

A Princesa suspira e encara seus valentes atrás de si, erguendo uma palma de adeus.

– Na batalha sangrei até a escuridão do vale para proteger meus irmãos!

Os guerreiros e guerreiras, erguendo suas palmas, clamam em coro.

– E que as Montanhas Azuis agora me levem de volta para casa!

Seus dedos esmagam fortes as rédeas. O alazão salta nas patas traseiras e dispara, a pequena comitiva seguindo-a com a mesma rapidez. O vento atinge seu rosto como uma carícia ríspida de tão necessitada.

Repentinamente, com os sons dos cascos sobre as pedras distanciando-se, seus devaneios de rejúbilo e tormento voltam a retê-la.

Os primeiros meses no campo de batalha foram repletos de vigor e fantasias tolas. Espadas e escudos recém forjados brilhavam sob a luz vital de muito Sol. Guerreiros inexperientes compartilhavam expectativas surreais de cicatrizes e louvores. Oronluin, reino pacífico, não vivera, nos últimos anos, mais do que pequenos confrontos resolvidos com duelos e tratados persuasivos; a guerra que levou dois herdeiros e o general de Resesc sendo a última enfrentada.

Havia um bardo muito carismático. A Princesa era fascinada por sua tampura de madeira vermelha que varava as noites diante da fogueira em canções sobre conquistas de outrora, intensificando o desejo dos guerreiros pela primeira batalha.

Na tenda régia, porém, a fantasia e a realidade entrelaçam-se de formas diferentes. A Princesa Rocca acatou as ordens de seus pais e soberanos e marchou de queixo erguido rumo à guerra, mas a guerra não falava ao seu coração. Rocca desejava dias estrelados de paz e conhecimento. Da prosperidade festiva e do sono imperturbável. Sonhava com a mitologia e o afago das Montanhas Azuis, com os avanços medicinais e o desbravamento de novas terras. Por isso, Rocca jamais idealizou as batalhas.

Rocca as temeu.

Fillys não demonstrava temores, bem como não exaltava e ansiava o combate como seus conterrâneos. Concentrada, disciplinada e habilidosa, como sempre fora, mas jamais sequiosa de sangue e glória. Tudo o que a camponesa desejou, não se privando de fazer esta verdade notória e exposta, foi proteger e cuidar de sua Princesa.

Nesta tenda régia, havia cantigas místicas e silêncios confortáveis. A Princesa Rocca prometeu-lhe que um dia não haveria mais o conflito territorial e que ambas cavalgariam através de mundos desconhecidos e misteriosos. A camponesa Fillys encorajou-a a enfrentar seus inimigos com cautela e firmeza, mas jamais esquecendo-se de quem é e de que seu coração foi feito para alguma coisa muito superior à disputa e a carnificina.

Na noite da primeira batalha, Fillys sussurrou que seu coração foi feito para o amor.

Oronluin não contava, porém, que Dalknes possuísse arqueiros tão peritos e velozes. Embora vitoriosos da primeira noite vermelha sob verde campo, uma flecha envenenada acertou precisamente o ombro da Princesa Rocca, que cambaleou de seu cavalo, inconsciente. Vuifken, uma Tenente hábil com olhos de falcão, cavalgou e levou-a para longe do confronto, salvando sua jovem vida.

Naquela noite não houve canções. Os monteiros conseguiram caça fresca e os guerreiros cansados comeram silenciosos e aflitos, afogando-se em vinho para aplacar a dor das contusões, aguardando que trouxessem notícias da tenda real. A Capitã Kallista e a Tenente Vuifken montaram guarda no interior da tenda, afastadas, enquanto os alferes cuidavam da ferida que, apesar de superficial, continha um veneno incapaz de matar, mas apto da deixá-la agonizante e inconsciente por muitas horas, como uma tortura capciosa.

Fillys estava ao lado do leito e não havia uma única voz de despeito a ela direcionada.

O tumulto decadente da Princesa atravessou a noite com dentes rangentes e suor abundante, olhos exíguos e mandíbula trêmula. O exército adormeceu perturbado com a ausência de sua consciência e a vitória lhes parecia mais amarga do que saborosa.

A Capitã Kallista e o cirurgião, que permaneceram despertos do lado de fora, jamais revelariam a qualquer outro, mas encararam-se na escuridão da noite sem lua e segredaram-se, sem palavras, que o remédio cujo poder indecifrável salvou-a da ruína da loucura, foi a canção entoada na voz de Fillys, que estava sozinha na tenda ao lado da Princesa gelada e torpemente delirante, sibilando uma despedida como se estivesse convicta de que morreria dentro de si mesma.

 

Desbrave a minha terra

De montanhas de gelo

Meninas e suas cítaras

Com fitas nos cabelos

 

As pedras divinais

Os rios, os cães, as flores

Danças provincianas

E a beleza das cores

 

E nada mais magnífico

Que o tesouro do trono

Princesa, esteja em paz

Eu velarei teu sono

 

Não ceda, não se vá

A encontrarei nos sonhos…

 

A Princesa Rocca puramente serenou, como o furioso mar recuperando-se da mais violenta tempestade, com a mão tenra e calorosa da camponesa acariciando seu rosto encharcado. Fillys não tinha lágrimas nos olhos como a Capitã e o cirurgião guardiões, mas sim um gracioso sorriso. Fillys acreditava em Rocca. Acreditava em sua resistência e desejo de plena vida. Enquanto um exército afetuoso pranteava durante o sono abalado, a camponesa guardou a horrenda visão da Princesa alucinando, com orgulho e crença inabalável de sua recuperação.

O desafio não durou apenas uma noite. A Princesa Rocca percebeu, ao despertar, ter seu medo da batalha exacerbado, mais vigilante e afligido do que jamais esteve. O trauma da queda abrupta a fez estremecer a cada passo e acordar apavorada de pesadelos infindos.

Os cônsules tentaram amenizar e propor novos acordos com Dalknes e os guerreiros foram mais gentis, respeitosos e incentivadores do que nunca, como se buscassem inflar seu ego em admiração para trazê-la ao prumo, todos irrefletidos do fato de que a Princesa jamais possuiu egolatria para ser estimulada. Não. Rocca sabia que o medo da guerra estava entorpecido, enterrado em um cotidiano de privilégio e preservação detrás dos muros do palácio.

Enquanto cada tolo exercia desempenho irresoluto, Fillys rompeu o silêncio desesperador.

– Recue! Como sua Princesa soberana, eu ordeno que recue! – Apontava-lhe furiosa.

– Recuar é desistência. – Fillys manteve-se sóbria e imóvel na tenda. – E eu não permitirei que desista. Diga. Diga alta e claramente. Diga que está amedrontada.

– Nunca!  Eu sou a Princesa de Oronluin! Não temo a lâmina, o cerco ou o fogo! Nada!

– Na guerra não existe realeza ou plebeísmo. O mais bronco, demente e fétido dos inimigos não vê brasões ou coroas, apenas o propósito para o qual é treinado, aniquilar qualquer coisa que se mova do outro lado. Reconheça seu medo para que possa ser corajosa, Princesa.

– Como?! – Rocca desistiu e suas lágrimas escorreram no rosto fantasmagórico ao passo em que suas unhas fincaram no braço descoberto da camponesa. – Diga-me, como?! Como posso não ter medo?! Como posso ser corajosa quando tudo o que conheci da guerra foram ilustrações fantasiadas onde mesmo o rio de sangue parecia belo?! Como?!

Fillys suavizou a severidade de seu olhar e ergueu as próprias mãos para atenuar o rosto retorcido de agonia da Princesa, mas suas sobrancelhas uniram-se como se estivesse ingenuamente confusa.

A Princesa suspirou o ar rasgado de sua garganta e libertou os ombros tensos.

– Como…?

– Estou ao seu lado. – Sussurrou descrente. – Pelo tempo em que durar a minha vida.

No tênue instante, os olhos lúgubres de Rocca encontraram os amendoados e brilhantes de Fillys. A Princesa quase pôde tragar o aroma do tabaco e provar na língua o sabor intoxicante do mel. Seu rosto úmido de lágrimas iluminou-se como águas escuras e cristalinas tocadas pelo Sol estival. Esta luminescência inflamou uma intrepidez que Rocca desconhecia, fulgurando da alma para a carne como magia, libertando mais pranto, mais medo e um abraço apertado e extasiado.

A Princesa Rocca voltou para seu corcel, sua espada e seu comando.

Inúmeros tratados foram propostos, mas a paz permaneceu inalcançável. Os guerreiros de Oronluin permaneceram acampados, observando de longe os inimigos igualmente cansados sob as ordens da Rainha Ysolt. A guerra perdurou.

No limite de quase dois anos em batalha, veio a emboscada. A lembrança desespera Rocca como se estivesse repetindo-se dentro dela a todo momento, imparável, inextinguível.

O acampamento de Dalknes aguardava ansioso as cabeças premiadas e os soldados de Oronluin mantinha tocaia nos bosques ao redor do campo silencioso, incapazes de agir. No vasto Forte, um pequeno pelotão cercava a Princesa Rocca e a Tenente Vuifken, armadas e defensivas. Num trono de madeira centralizado, a Rainha Ysolt, com pele pálida e cabelos de Sol, as observava presunçosa enquanto sua própria Capitã ameaçava cortar a garganta de Fillys, que estava ajoelhada no chão duro com lábios franzidos e nariz ensanguentado, seus olhos fixos no desespero que ameaça emergir nos olhos da Princesa.

– Ouvi dizer que Oronluin valoriza cada um de seus leais. – A Rainha sorriu. – Esta vida vale a sua rendição, Princesa?

– Nunca! – A Tenente Vuifken manifesta-se impulsiva.

– Leve-me. – Imediatamente, sem o menor traço de relutância ou reflexão, o tilintar da espada e do escudo da Princesa ecoou no Forte e suas mãos ergueram-se submissas. – Estou sob o seu…

– Arqueiro! – Ordenou a Capitã, golpeando as costas de Fillys com o pé para empurrá-la para longe de seu controle. – Cumpra seu dever!

Indefesa, a Princesa não foi rápida o suficiente para armar-se contra a traição. As flechas atingiram a Tenente Vuifken, que conseguiu decapitar ainda três soldados ao redor antes de cair sem vida. Rocca colocou os braços na frente do peito e entre o rosto e o pescoço, ciente de que nada poderia protegê-la das velozes flechas. O ataque nunca a alcançou. Tudo o que sentiu foram os respingos de sangue em sua pele e armadura e o som ecoado de um corpo caindo em sua frente.

Duas flechas enterradas na coluna de Fillys.

A Rainha Ysolt petrificou-se com o súbito assombro.

Rocca agachou-se. Seus dedos apertaram a espiga da espada no chão e seus olhos, sombrios e coléricos, fitaram a Rainha. Seu grito silenciou o Forte, o campo, talvez a própria terra vilipendiada pelo fogo da batalha. Seu grito ecoou como uma besta mortalmente ferida, como se o céu agravado bradasse trovões tempestuosos e lancinantes. Seu grito alcançou o exército de Dalknes e o exército de Oronluin. Seus bravos guerreiros, pensando tê-la perdido, revelaram seus esconderijos, lançando-se na batalha com mágoa e vingança pulsando em suas veias.

A Princesa Rocca jamais saberia futuramente contar com exatidão como deu-se sua sobrevivência. Recordar-se-ia do impacto dos golpes, do sangue manchando-a, dos cadáveres quedando à sua volta, de urrar rouca e enfurecida, usando a espada e o escudo para aniquilar quem quer que surgisse em seu campo de visão, as flechas penetrando superficialmente o escudo enquanto defendia-se e atacava-os num frenesi incontrolável.

Os soldados mortos, a Capitã gravemente ferida e sua espada contra o peito da Rainha Ysolt, indefesa com a coroa nas mãos, ajoelhada diante dela. A Princesa desejou trucidá-la. Desejou esquartejá-la, reduzi-la a inúteis e irreconhecíveis pedaços pútridos de carne nobre.

Um silvo agudo de dor veio do corpo trêmulo de Fillys sob uma poça de sangue e Rocca recordou-se de sua voz antes da primeira batalha, morna e segredada.

“O seu coração, Princesa Rocca, foi feito para o amor”.

Os alferes levaram Fillys do Forte. A Rainha Ysolt foi aprisionada. Os cônsules de Oronluin reuniram-se com os de Dalknes. O exército de Oronluin assou e embriagou numa noite de paralelo luto e vitória. O exército de Dalknes recolheu-se derrotado.

E a Princesa Rocca, inconsolável, isolou-se sob a ameaça de condenar no regresso qualquer um que ousasse segui-la. Isolou-se além dos bosques nos arredores do campo e do Forte, distante das fogueiras e vozes elevadas. Rocca ajoelhou-se exausta, o sangue ainda impregnado em sua armadura, e rasgou novo alarde de gritos ensurdecedores, encarando o céu noturno em prantos. Com medo. Sua coragem lhe foi arrancada completamente, como nos efeitos de seu primeiro confronto. As estrelas que tanto contemplou pareciam contemplá-la e o brilho imenso que apresentavam era como lágrimas cintilantes que compartilhavam com ela toda a dor do mundo inteiro.

Numa tenda escura e silenciosa, Rocca proferiu um amargo adeus.

Um ano de silêncio e melancolia. Um ano de árduos tratados e tréguas. Um ano de mãos amigas em seus ombros, olhares pesarosos de soslaio e canções compostas para sua guerreira mais corajosa, a camponesa Fillys, de Bearealm.

Três anos de trevas em guerra.

Agora, a Princesa Rocca de Oronluin, Reino das Grandes Montanhas Azuis que tocam o céu e desmancham-se no oceano, está cavalgando em seu feliz reino através da estepe verdejante e serena, sob um fraco Sol primaveral, a caminho de Bearealm. Na província há camponeses acenando para seus guerreiros, entregando-lhes flores e agradecimentos comovidos. Rocca, porém, precisa cumprir sua missão.

Precisa dar o seu último adeus ou jamais conseguirá obter a paz que anseia.

E lá está ela, quieta e harmoniosa. De pedras gastas e telhado de palha. Com flores frescas no jardim e os cães baderneiros destruindo-as em diversão. A comitiva a observa como se discursasse seu apoio e afeição, como se pudessem tornar o desafio menos apavorante. Com o arco embrulhado na capa vermelha de Fillys, também como se sentisse a espera de sua tropa ansiosa, a Princesa Rocca salta de sua sela e prepara-se para seu último adeus, temendo pelas emoções desta família que julga tão preciosa.

Tetradia, a irmã mais velha, é quem abre a porta. Suas expressões renovam-se e recuam diante da soberana, surpresa com sua presença e a de seus soldados ao redor de sua cerca. Com um movimento sutil, a reverencia em silêncio involuntário e abre passagem.

Dás e Prudie, os pais de Fillys, sorriem contentes, mesmo que também surpreendidos, ele servindo vinho à esposa e ela sentada à frente da lareira, constantemente necessária pelo frio de Bearealm. A segunda irmã mais velha, Eliwisa, corre para o quarto que os irmãos dividem muito agitada e curiosa. Os irmãos mais novos, Osbern e Crispian, porém, parecem estar recebendo uma velha amiga, aproximando-se para abraçar-lhe as pernas, tamborilando os dedos em suas longas botas até serem arrastados pelas orelhas pelo pai severo.

Não há palavras trocadas. Não há formalidades. O arco sobre a capa continua em seus braços e a família a contempla como se por muito esperasse que a Princesa viesse. Como se a precisassem ali.

Enfim, o momento pelo qual Rocca esteve esperando por um ano, quase enlouquecendo nos últimos meses de tratados e banquetes, desabrocha com a delicadeza inevitável. É quando o calor finalmente espalha-se morno como o fogo dos dragões etéreos em seu coração e tudo se faz pleno diante dela.

Fillys, amparada pelos ombros das irmãs mais velhas, surge em suas vestes sempre de vívidas cores, titubeando em cada passo, os ferimentos drásticos em sua coluna, salva por um fio pelos habilidosos alferes, impossibilitando-a de locomover-se com a graça e destreza com a qual sempre o fez. Um ano. Meses de incontável falta, meses de terror e colapso para reencontrá-la depois de enviá-la em segurança para longe da batalha.

A Princesa Rocca recorda-se de seu desespero e indignação. De suas mãos acertando-lhe os braços, fracas e quentes, negando-se a partir. De como seu abraço foi revigorante, sufocante e dilacerante, todos de uma única vez, quebrando-a a cada aurora ainda sob a bandeira do combate. Recorda-se do adeus e de como a palavra é ferina e como soou definitiva vinda dela.

Como se estivessem juntas há apenas algumas horas em treinos, torres ou bibliotecas, porém, Fillys resplandece amplo e belo sorriso assim que a vê. A família espera vê-la segura entre as irmãs e prepara para reverenciar formalmente sua soberana.

A mão da Princesa está estendida e ereta no ar antes que possam se inclinar.

Rocca aperta a capa com o arco entre os dedos, respirando agudamente.

– Para vocês, Dás e Prudie, entrego o arco de sua filha, instrumento que ela bravamente empunhou ao meu lado na batalha. Para Tetradia, Eliwisa, Osbern e Crispian, ofereço sua capa, símbolo de grande honra e a promessa de que sua valentia honrou esta família e esta casa para sempre.

– Para eles? – Fillys, colocada sobre a cadeira de rodas de madeira, estável e desajeitada, pronuncia-se sem medo enquanto os outros apenas encaram-na admirados. – Não deveria entregar esses pertences honrosos a quem por verdade pertencem, Princesa Rocca?

Ela sorri. Porque é simples e inevitável sorrir para Fillys. Porque não parece haver uma nobreza intocável refletida em seus olhos, mas sim uma igual de imensurável valor.

– Eu gostaria de falar-lhe, brava guerreira. Vocês me permitirão? – Contempla a família confusa.

Dás assente incerto, mas com largo sorriso, arrastando os caçulos para o jardim com um jarro de vinho para oferecer à comitiva exausta de cavalgar. As irmãs afagam os ombros de Fillys e deixam-na. Prudie, a mãe, sentindo-se emocionada com a vinda da Princesa, segura-lhe a mão numa carícia muito breve.

Quando todos se vão, Fillys transforma-se rígida, encarando-a com absoluto rancor e saudade, ambas as emoções confrontando-se ferozmente dentro de seus olhos.

– Oronluin é vitoriosa e deve orgulhar-se, mas não precisava vir até Bearealm para condecorar uma guerreira que perdeu o seu valor antes do fim.

Sóbria e disciplinada, como sempre fora.

– Perdeu o seu valor? – Muito mais emotiva, a Princesa se retrai. – Você salvou a minha vida. Pudera eu dizer somente naquele Forte, mas não posso. Você salvou a minha vida incontáveis vezes.

– Nada você me deve, Princesa. – Franze as sobrancelhas.

– Eu nada vim lhe pagar. – Seu sorriso permanece imenso e aberto. – Vim para lhe pedir.

– Não posso mais lutar, não há nada que eu possa lhe oferecer. – Defende-se novamente, seu autocontrole quase imperceptivelmente escapando do senso.

– Consegue se lembrar de quando éramos muito jovens? Você era uma exímia guerreira mesmo antes dos nossos treinos começarem. Naquela época eu já era capaz de escrever cinquenta pergaminhos em discursos num único dia, mas não empunhar adequadamente uma espada. Você me ensinou a batalhar.

– Você possuía o dom das palavras.

– Não, eu não possuía. – Confessa afligindo-se. – Havia conforto nelas, sempre tão poéticas e idealistas. Eu estava segura diante daqueles livros, protegida, o pior dos eventos sendo apenas a possibilidade de estragar minhas vestes reais com tinta.

– E você conseguiu estragar muitas delas. – Um inesperado sorriso regressa no rosto da camponesa.

– Talvez todas elas. – Retribui-lhe com a intimidade conhecida. – Por isso pensei em todas as palavras existentes para declamar quando chegasse em Bearealm. Tenho soldados fartos de ouvir meus ensaios e uma pilha de pergaminhos planejados foram queimados durante nossa viagem. Aqui estou, no entanto, diante de você, sem uma única palavra em meus pensamentos.

Fillys encara as pernas debilitadas com pesar, mas resguarda suas emoções com a mesma destreza. Uma batida suave ecoa da porta de fina madeira e dois escudeiros reais adentram a pequena cabana, inclinados atrás da Princesa com veludo acolchoado nos braços e intenso brilho emanando das almofadas.

A Princesa Rocca, trêmula e aquosa, ajoelha-se.

– Descobri a ausência das palavras necessárias ainda cavalgando até esta província e não poderia explicitar quantas vezes pensei em debandar-me na direção oposta. Você me fez persistir. Quando pensei em abdicar na guerra, você disse que estaria ao meu lado enquanto durasse a sua vida.

– Rocca… – Petrifica-se o olhar no rosto da camponesa e suas mãos apertam o tecido das roupas simplórias e cheias de cores, incapaz de fugir dos olhos da Princesa.

– Você me manteve viva e feliz através dos campos ensanguentados e fogueiras tão escassas que congelavam-nos os dedos os pés. Você me ofereceu alento e salvou-me de todo o horror solitário que me esperaria durante estes três anos atrozes. Um débito impagável.

– Eu disse que você nada me deve, Princesa. – Sussurra hesitante, o sorriso no rosto da Princesa causando-lhe incontrolável euforia.

– Não devo, mas eu quero tentar. Quero ser corajosa não somente por mim. Você disse que o meu coração foi feito para o amor e eu finalmente compreendi, Fillys. Você tinha toda razão.

– Não seja imprudente, Princesa! – Ergue-se de supetão sobre as pernas. – Não percebe no que me transformei?

Subitamente queda-se, não mais capaz de manter-se de pé sem um apoio apropriado. Seu corpo atinge imediatamente a Princesa, que a toma nos braços e a segura contra o peito. Com a nova visão, Fillys finalmente vê, sobre as almofadas de veludo, as cravejadas coroas douradas de Oronluin.

O abraço, terno e saudoso, permanece.

– Eu nunca fui. Eu nunca pude ser imprudente porque você estava ao meu lado. Não estou aqui pelo que se transformou, estou aqui por quem você sempre será. – Murmura as palavras em seus ouvidos, mantendo-se temperante, mas com o coração pulsando furiosamente, sentido pelo corpo entrelaçado ao seu. – Porque me disse que na guerra não existem nobres ou plebeus, somente iguais em fúria e aqui estou eu, igual, furiosa por esperar tanto tempo.

Lágrimas escorrem do rosto de Fillys quando aperta o pescoço da Princesa com os braços e caem sobre sua clavícula. É a primeira vez, Rocca recorda-se, em que Fillys permite-se chorar.

– Fillys, intrépida camponesa de Bearealm… – Engole em seco, afastando-a o suficiente para contemplá-la.

Uma das mãos de sua amada cobrem os próprios lábios, as lágrimas acumulando-se nas extremidades.

– Case-se comigo. Sei que não poderá lutar como antes, que não poderemos cavalgar ou correr na estepe como antes, que não poderemos dançar como antes, mas não importa, porque não somos como éramos, nada além do que sempre senti permanece como antes. Você me fez viver em tempos de guerra… Viva comigo em tempos de paz.

Como nunca pôde, a camponesa consome-se em pranto paquidérmico e alto, atraindo sua família aflita de volta à porta, amontoando-se para vê-la, alternando seus olhos curiosos dela para as coroas com os escudeiros.

Com uma voz nem de longe tão bela quanto à de Fillys, mas com o mesmo intento de afeto e proteção, expectativa e cuidado, a Princesa entoa sussurrante.

 

Regresso a minha terra

As montanhas de gelo

Trinem suas cítaras

Enfeitem seus cabelos

 

Com pedras divinais

Dos rios colham as flores

Dancem provincianos

Fulgurem suas cores

 

O dia é magnífico

Há um tesouro no trono

Guerreira de Bearealm

Que me guardou no sono

 

Aceite a minha mão

Realize meus sonhos…

 

O som agudo de sua comoção quase a impede de ouvir o quase mudo “sim”. Sim. Sim. Este é o verdadeiro fim da longínqua guerra para a Princesa Rocca de Oronluin. Esta é a derradeira paz pretendida, o cumprimento de tudo o que seu coração, feito para o amor, sempre almejou.

Rocca a ergue em seus braços e rodopia como estivessem prestes a dançar, recostando sua fronte contra a dela, rindo com o desabrochar de todas as suas emoções mais radiantes e vorazes. Repousa-a depressa sobre a cadeira quando dispara a família de camponeses alegres, quase tropeçando nos escudeiros levantando-se, abraçando a jovem, antes sempre composta, agora incapaz de conter choro e riso genuínos, tão comovidos quanto ela. As irmãs mais velhas, Tetradia e Eliwisa, a sufocam no abraço enquanto o pai lacrimejante acaricia seus cabelos. Os irmãos caçulos inclinam-se em suas coxas e a mãe, Prudie, enlaça impulsivamente o pescoço da Princesa e cobre seu rosto de beijos, fazendo-a rir.

Rocca ajoelha-se diante de Fillys novamente com seu esplendoroso sorriso.

– Você sempre foi corajosa, Princesa. – Fillys confessa tocando-lhe suavemente o queixo trêmulo. – Mesmo quando sentiu todos os medos.

– Não sei como posso, mas preciso partir. O Rei e a Rainha me esperam e tenho todas as mais fabulosas novidades. – Retribui com o mesmo toque, quase incapaz de afastar-se dela outra vez. – Voltarei para Bearealm com uma carruagem apropriada e peço nada menos que vocês. Todos vocês. – Pisca suas lágrimas, risonha.

– Até nossos cães? – O caçulo Osbern arregala os olhos.

– Se assim você desejar, jovem mestre, o pátio do palácio é grande o suficiente. – Ri de sua meninice junto ao resto da família.

– Vamos para a cidade real, mamãe! – O caçulo Crispian agita-se puxando o vestido de Prudie.

Rocca inclina-se suavemente para contemplar a expressão mais apaziguada e contente que já vira em sua corajosa camponesa, o sorriso cortante e liberto, o rastro do pranto ainda brilhante em suas bochechas.

– Espere por mim. – Beija delicadamente seus nódulos, reverente e ansiosa.

– Enquanto durar a minha vida. – Sussurra entregue.

A princesa oferece e também recebe uma breve reverência da família. Os passos até a porta são lentos e ela se detém para contemplar Fillys uma última vez. Sua silhueta está marcada pela luz do Sol que invade a cabana e a faz parecer ainda mais bela e magistral em sua pele e cabelos tão escuros. Seus olhos castanhos reencontram os dela, amendoados e brilhantes; tabaco e mel; e Rocca sorri.

– Este é o último adeus que nós nos daremos.

Tarsila de Andrade

Perpétua prisioneira do enigma: "as palavras me pertencem ou delas sou refém?"

2 comentários em “O Último Adeus

  • Março 5, 2018 em 1:32 am
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    Há, eu estou apanhando desse site.

    Estou aqui para dizer que estava com saudades da sua escrita, de como me sinto quando leio suas histórias, um turbilhão de coisas sempre aparecem! Amo como expressa amor, dor, saudade e tantas outras sensações e sentimentos de modo que doem e trazem alegria como aos personagens. É uma honra te acompanhar aqui ou em qualquer lugar que estiver escrevendo, compartilhando.

    Ganhou meu coração aqui: “Você me fez viver em tempos de guerra… Viva comigo em tempos de paz.”

    <3

    Resposta
    • Março 5, 2018 em 2:32 pm
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      Estou mais que honrada em tê-la por aqui, o seu apoio é sempre um deleite para o meu coração. Muito obrigada por apreciar “O Último Adeus”, eu continuarei me esforçando e aprendendo para proporcionar histórias que valham a pena ser lindas.

      Resposta

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