Penitência

 

 

É uma manhã de sexta-feira muito quente no Centro da cidade de São Paulo, especificamente febril no quarto abafado de um Motel barato na Rua dos Timbiras. O piso laminado de madeira foi trocado recentemente, mas o forro vermelho nas paredes tem cheiro de 1990. Em 1990, quando tinha vinte anos, Heitor esteve neste mesmo quarto exatamente pela mesma razão.

Vinte e cinco anos depois, em meados de seus quarenta e cinco, Heitor vê-se neste quarto silencioso, contemplando os detalhes ao seu redor. O cinzeiro disposto no parapeito da janela está lustrado no exterior e entupido de bitucas no interior. As cortinas pretas estão fechadas, como se escondessem-no do Sol. O lençol, os travesseiros e duas almofadas azuis estão lisos e intocados. Há um quadro na parede que ele sabe ser impressionista, mas não consegue recordar-se do nome do pintor.

Heitor encara com melancolia seu reflexo no espelho. Os cabelos quase completamente grisalhos, a camisa branca e a calça social abarrotadas, os mocassins desbotados. Recostado na cômoda de madeira escura faltando dois puxadores, cheia o gargalo de uma garrafa de whisky vazia e vira uma, duas, três vezes, absorvendo só uma gota até desistir e deixá-la rolar sobre um velho tapete oriental.

No banheiro trancado, há sachês de xampu, sabonete e loção corporal rasgados e vazios no piso branco. Uma toalha úmida cobre o espelho oval e a água na banheira está escondida sob a espuma. Heitor, do lado de fora, olhando de soslaio para a porta, pode ouvir os suspiros de Neville, imaginando sua pele escura sob a água cristalina, submerso e calado, comemorando tristemente seus quarenta e três anos. Quase pode ver seus olhos confusos fitando o teto que imita um deque de madeira, seus pensamentos tão distantes da estranha e incômoda realidade que os cerca enquanto passeia os dedos nos belos e curtos cachos crespos.

A toalha que cobria o espelho oval é enrolada e presa à cintura de Neville quando deixa relutantemente o banheiro, como se soubesse ter de enfrentar uma verdade ao sair. O vapor escapa pela porta aberta como se encontrassem um ao outro, ambos perdidos na névoa, e não soubessem o que dizer.

Heitor não consegue encará-lo. Apanha seu relógio dourado e sua carteira de couro marrom sobre a cômoda e vira-se para a porta do quarto com menos determinação do que necessita.

– Céus, Heitor! – Ecoa a voz de Neville como um trovão. – Até quando?!

– Eu vou pra casa. Não vou falar com você assim, não atravessei a cidade toda pra brigar.

– E eu não larguei minha vida na Inglaterra pra ser sua aventura casual, toda sexta, mesmo motel. Olha pra mim, Heitor. Até quando?

Heitor tem olhos muito cansados ao suspirar, acenar e sair, pagando automaticamente a conta na portaria sem cumprimentos, quase correndo para fora do motel sem olhar para trás, o suor brotando em sua testa enrugada assim que começa a caminhar seguido pela cacofonia das buzinas, rádios portáteis, vozes e anúncios da cidade.

Seus passos são tão lentos quanto as palavras de Neville soando em sua cabeça como um clamor exigente e implacável, quase tentando amedrontá-lo, mas Heitor não tem tempo para lamentar-se. Verificando seu relógio dourado, precisa apressar-se para cumprir sua rotina.

Sua próxima parada é um bar salgado na Avenida São João, não muito distante do motel, cara a cara com a Praça das Artes. Heitor senta-se à mesa e saca seus óculos escuros do bolso, contemplando com maior interesse a luz esplendorosa do Sol que se aproxima do meio dia. Abre um meio sorriso, o primeiro sorriso desde que pisou naquele motel, levantando familiarmente a mão com dois dedos erguidos para o garçom, que de dentro do bar vem imediatamente com uma cerveja e um cinzeiro.

Heitor sacode o porta-palitos e o saleiro na superfície de madeira enquanto o garçom destampa a garrafa gelada e tira um isqueiro do bolso, deixando-o sobre a mesa. É como um ritual no qual o garçom se vai sem mais nada perguntar ou oferecer e Heitor acende o primeiro cigarro do dia e beberica sua cerveja, observando os transeuntes de um lado para o outro na Avenida São João e suas antigas construções, ainda tão perturbado em seu interior que termina a bebida em duas goladas e traga depressa o cigarro, até a linha de cinzas presa ao filtro ser varrida por uma ventania repentina.

– Ô, senhor, vai querer mais uma cerveja dessa vez? – O jovem garçom ressurge paciente e simpático. – Hoje o calor não está de brincadeira…

– Eu quero Neville. – Expressa sua única sentença.

– O senhor diz esse nome toda vez em que vem aqui, todas as semanas. – Recua confuso o pobre rapaz, temendo ultrapassar o limite com seu cliente.

Heitor, porém, suspira pela quinquagésima vez no dia e não rebate. Tira uma nota alta e a coloca sob o cinzeiro, os mesmos movimentos automáticos com os quais deixou o motel. Está novamente caminhante e cabisbaixo, com passadas largas e o corpo curvado, atirando-se para longe do bar e ainda mais longe do motel, checando outra vez o relógio dourado no pulso.

São quinze minutos de caminhada até a Catedral da Sé, mas Heitor distrai-se na imensidão de lojas e camelôs da Rua Direita e da Praça. A voz de Neville em sua cabeça está mais distante do que estava no bar e o homem de meia-idade aparentemente diverte-se feliz em sua andança, atravessando cada sombra de palmeira e saltando cada degrau como se brincasse de amarelinha num cenário de verão.

Às portas da Catedral, guardando os óculos escuros, benzendo-se receoso, a imagem do motel parece atormentá-lo uma vez mais, como uma lembrança punitiva e amarga. Ainda assim, Heitor sorri para os vitrais góticos e a cúpula renascentista, apreciando suas cores e formas majestosas que a consagram como um dos maiores templos do mundo.

Neste cair de tarde, como de costume nas sextas-feiras, a Catedral está quase vazia. Os frades ajoelhados oram mudos lado a lado nos bancos com suas vestes monásticas e um deles limpa minuciosa e cautelosamente o altar com uma vela queimando sobre um pequeno castiçal.

Heitor mantém-se calado e entra no confessionário, ajoelhando-se pesaroso no tablado. Lentamente ergue a mão esquerda e toca a cruz no meio da grelha, aflito em esperar a sombra do padre surgir do outro lado. Faz uma prece sussurrada e sons com as unhas nas minúsculas divisões da tela, incapaz de manter-se imóvel e quieto.

Quando finalmente o eclesiástico comparece, de nada adianta para os nervos em pânico de Heitor. O padre lhe faz o sinal e sorri suavemente, quase imperceptivelmente pela grade que os separa.

– Me perdoe, Padre, pois pequei. Há uma semana fiz minha última confissão.

– Toda sexta-feira você vem, Heitor. No mesmo horário. Pela mesma razão. E com as mesmas intenções. – A voz grave é, embora severa, acolhedora.

– E o que há de errado, Padre? Eu sempre volto e peço perdão. Não é isso o que importa?

– O propósito da confissão é ser absolvido e não cometer novamente os mesmos pecados, filho.

– Você me conhece faz muito tempo, Padre…

– Conheço-o desde que você tinha jovens vinte anos, por isso insisto que é hora de encontrar o seu caminho. Você não é mais um menino, Heitor.

– Mas ainda não sei o caminho. O que direi à Neville?

– Você está em um confessionário, meu caro Heitor. Estou aqui para guiá-lo através de sua fé, não de seu coração, embora pense que caminham ambos de mãos dadas.

– E não é da minha fé sobre os meus pecados que falamos toda sexta-feira, Padre?

– De fato é, mas como você poderá continuar vivendo recapitulando o mesmo pecado? Como sobreviverá a sua fé?

– Pedindo perdão. Pedir perdão é o que eu sei fazer.

A sombra do Padre oscila atrás da grelha enquanto suspira profundamente, como um mestre impaciente e exausto de um aprendiz de tropeços.

– Se arrepende dos seus erros, filho?

– Sim. Todos os dias, Padre.

– Deus o perdoa. E eu lhe dou suas bênçãos.

– Sem penitência de novo, Padre?

– A penitência vem de acordo com o pecado e o seu pecado continua sendo sua covardia, sua inércia e recusa da verdade, Heitor. Esta é a sua penitência: Do motel ao bar, do bar ao confessionário, em todas as santas sextas-feiras. Você pune a si mesmo em razão de seus próprios sentimentos confusos demais para um homem já tão crescido. Você pode continuar assim, filho, mas sua única salvação será confiar em Deus e ser corajoso para estar de corpo e alma com este homem que ama. Não pode ter medo e fugir de compromissos sérios para sempre, Heitor.

Heitor se levanta num pulo, bate a poeira dos joelhos e esfrega os olhos para se acostumar à luz do lado de fora, mantendo a cortina aberta. Mesmo não podendo ver nada mais do padre através da grelha, rompe um sorriso muito aberto e perspicaz, quase estranhamente brincalhão para o rosto de um homem de quarenta e cinco anos.

– Vejo o senhor sexta-feira que vem, Padre.

 

Tarsila de Andrade

Perpétua prisioneira do enigma: "as palavras me pertencem ou delas sou refém?"

2 comentários em “Penitência

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