Afrofuturismo: a máxima expressão da arte

O passado, o presente e o futuro tem uma cor: a negra.

A arte é mágica: o reflexo do espelho humano, o eco da caverna ‘arquétipa’ ao qual estamos aprisionados. A arte nos proporciona a possibilidade de ir além, de expressar o que sentimos, desejamos e experimentamos.

Através da arte podemos viajar ao passado, viver um presente alternativo ou então criar o futuro.

Mais do que isso, podemos resgatar as nossas identidades, descobrir que de fato somos. E é exatamente isso que o Afrofuturismo busca: o resgate e valorização da cultura afro.

Ainda que o termo seja relativamente novo, o Afrofuturismo sempre existiu. Ytasha Womack, autora da obra Afrofuturism: The World of Black Sci-Fi and Fantasy Culture (2013), conceitua – o como “um desejo humano de querer moldar seu presente e seu futuro. É o desejo humano de abraçar os altos níveis de imaginação”.

Em miúdos, pode-se afirmar que o Afrofuturismo é a reação cultural resultante da integração entre tecnologia e ficção científica, objetivando fomentar o debate acerca da diáspora ( a dispersão de qualquer povo ou etnia pelo mundo), escravidão, preconceito e determinismo racial do povo negro – que experimenta a sensação de alienação marginal na sociedade – no que tange ao seu passado, presente… e ao futuro também.

É fato que a civilização branca, com sua predominância cultural e desrespeito constante a cultura afro(e a qualquer outra cultura que não a deles) impôs aos negros um desvio existencial: não somos representados, vistos ou respeitados – é quase como se quisessem apagar nossa história, cultura e existência.

Para Ama Mazama, autora de A afrocenticidade como um novo paradigma; “a Europa forjou grande parte de sua identidade moderna à custa dos africanos, particularmente por meio da construção da imagem do europeu como mais civilizado e do africano como seu espelho negativo, isto é, como primitivo, supersticioso, incivilizado, aistórico e assim por diante. ”

Dessa forma, o Afrofuturismo é o palco no qual a representatividade da cultura negra se apresenta.

Mas, de que forma isso se relaciona com a arte? Ela é instrumento utilizado para tal. E não é apenas uma expressão artística que se é trabalhado no Afrofuturismo: é a arte como um todo.

Arquitetura:

O principal nome da Arquitetura Afrofuturista é o artista e design Olrkan Jeyifous, que, em seu mais notório projeto – Shanty Megastrutures –  monstra as metrópoles africanas  futuristas numa realidade virtual 360º.

Cinema: 

O curta de Frances Bodomo, Afronauts, narra poeticamente um acontecimento histórico: a tentativa da construção de um programa espacial no Zâmbia no final do anos 1960. O mais tocante, é a mensagem deixada: o espaço deve ser conquistado pois a Terra já não é mais um lar para os negros.

Pumzi, do queniano Wanuri Kahiu é um curta cuja trama se desenvolve em um mundo pós-apocalíptico onde a escassez de água extinguiu a vida acima do solo.

Born in Flames  é uma narrativa mais ‘próxima’ da realidade atual e com mais possibilidades de acontecer de fato:  mulheres negras e lésbicas se organizam e arquitetam uma revolução na busca de igualdade.

Entretanto, a maior representação Afrofuturista no cinema é Black Panther. Mais que um simples filme de super herói, a obra será uma representação do movimento que busca o resgate da identidade perdida de um povo.

Fotografia: 

”Quando era garoto e ia aos museus, via muita arte que não me representava”. Qual negro nunca se sentiu assim? Awol Erizku, da Etiópia, buscou trabalhar para sanar essa falta de representatividade, fotografando apenas pessoas não brancas.

Adotando uma linha estética que mistura renascentismo e mitologia africana, suas fotografias proporcionam a reconciliação entre os negros, a sua origem africana e a cultura ocidental.

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Semelhante foi a situação de Inyegumena Nosegbe, que ainda na escola, buscou resgatar a cultura afro. Naquele período, criou a Curated Culture, publicação que buscava destacar os artistas negros negligenciados e suas produções.  “Acredito que o Afrofuturismo é um estado de ser; é simplesmente prosperar abertamente na nossa negritude”, diz Inyegumena Nosegbe.

Seu projeto mais conhecido, no entanto, é Dear White America, na qual fotos de cenas de crime de violência policial contra os negros são expostas.

Dear White AmericaDear White America

Artes Plásticas:

Krista Franklin, no entanto, encontrou sua motivação na vontade de provar aos seus críticos seu potencial.  A jovem artista sempre foi considerada, por muitos, como uma desenhista medíocre. “Da minha frustração, comecei a recortar imagens e reconstruí-las. Mais tarde isso se tornou mais intencional, e eu estava usando os atos de ‘cortar’, desconstruir e reconstruir para descolonizar meu olhar e narrativas, que foram doutrinados sobre mim mesma, minha comunidade e meus ancestrais como uma mulher afro-americana/negra.”

Listening in Depth, Collage on notebook, 2008Do Androids Dream of How People Are Sheep, Mixed media on watercolor paper, 2011Untitled (R.I.P. Lisa "Left Eye" Lopez), Mixed media on composition notebook, 2007

Lalou Senbanjo buscou sua inspiração na fonte mais desprezada e maculada – pelos brancos – da cultura afro: as religiões de matrizes africanas e seus rituais. De família cristã,a arte do nigeriano era vista por seus familiares como “demoníacos”. “Há muitos problemas neocoloniais com a mitologia iorubá”, ele explica. “Tínhamos a religião [cristã] da Inglaterra, mas não a tecnologia, infelizmente. Na escola, eles nos ensinavam sobre mitologia grega, mas não sobre a mitologia iorubá. Felizmente, minha avó foi firme em me ensinar sobre isso.”

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Música:

Aqui é onde o Afrofuturismo mais se destaca – nesse caso, ouvir talvez seja a melhor forma de compreender quem são esses artistas. Com estilos tão diversos quanto a cultura africana, destacam-se:

Sun Ra

Willow 

Janelle Monáe

Ellen Oléria

Lee Scratch Perry

George Clinton

Finalmente, o Afrofuturismo é a máxima expressão da arte não porque está mostrando para o público não negro a cultura africana, mas principalmente porque a está mostrando aos negros.

 

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