Celeste: Capítulo 2 – A Queda.

Há um lugar na matéria que a maioria dos seres humano diriam ser impossível de alcançar, e os outros diriam que só se alcança após passar por uma provação. Para eles, a vida é um teste, um caminho ou uma passagem. É algo que não fica, é a porta de entrada para um bem maior. Em meio à tantas crenças, sejam elas bem intencionadas ou não, existe seres parecidos com os humanos em alguns aspectos, mas que se destacam e diferenciam por outros.
Quando se é criança, os anjos são apresentados como seres pequenos com asas brancas reluzentes e cabelos encaracolados e loiros. Com o decorrer do tempo, essa imagem se distorce. O conhecimento chega e descobre-se que anjos também podem ser maus. As figuras esticam e cada um tem a sua característica própria, e também ganham nomes, religiões e significados.

Por muitos anos, acreditou-se que eles moravam nos céus, em alguma dimensão diferente da dos humanos. Por muitos anos, acreditou-se que eles nunca teriam motivos para ir à Terra. E por muitos anos, isso foi verdade. Até que a humanidade mudou tanto a ponto de atingir esses seres divinos, e alguns deles entenderam que tal mudança deveria ter a sua resposta.

Os anjos já viveram em paz, mas isso não era mais a sua realidade. Sua casa, uma ilha flutuante que escondia o portão de entrada para a casa de Deus, era agora um cenário de guerra declarada. Os lados estavam muito bem definidos. Os que se declaravam Guardiões da Raça Humana utilizavam armaduras douradas com detalhes brancos, assim como seu brasão e o símbolo que carregavam no meio do peitoral. Chamavam atenção por onde passavam graças à suas espadas reluzentes, que iluminavam os locais onde estavam e distribuíam luzes. Não tinham uma liderança assumida, lutavam apenas para manter sua promessa à Deus intacta; aguardavam por suas ordens enquanto defendiam um ataque aos humanos.

No lado oposto estavam aqueles que se declaravam os Cavalheiros do Apocalipse. Suas armaduras eram douradas com detalhes azuis, assim como seu brasão e o símbolo que carregavam na parte direita de seus quadris. Diferente dos Guardiões, eles não mostravam o rosto. A máscara metálica assustava qualquer anjo contrário. Os Cavalheiros eram liderados por uma figura que jamais aparecera em qualquer livro sagrado humano. Uma figura desconhecida, que caminhava pelas sombras e sempre causava um impacto. Que dava a última palavra nas guerras e que movia montanhas de anjos com seu poder de persuasão. Era impecável na luta, decorrente de sua hierarquia no reino divino. Sendo a parte excluída de uma certa nobreza, costumava caminhar com independência, mas tinha os seus limites. Só poderia ser morta por um de seus sete irmãos e únicos Arcanjos existentes. Ela é o oitavo.

Havia cinco Guardiões ao seu redor. Suas espadas estavam empunhadas e apontadas para ela. A postura da Arcanjo era impecável, os anjos sequer podiam dizer que ela respirava, mesmo que seus olhos estivessem vidrados em cada movimento que ela poderia fazer. A Arcanjo tocou a bainha da espada e batucou os dedos na negritude metálica. Os Guardiões se prepararam. Eles pensavam que ela iria atacar, mas ela sabia ser paciente. Depositou seus olhos brilhantes em um único anjo, e o viu fraquejar nas próprias pernas. Mais alguns segundos e ele esticou as asas e atacou, desesperado. Ela mal se mexeu. Pegou-o pelo braço após se esquivar de um golpe, e antes que os outros pudessem pensar em fazer algo a respeito, ela fez com que o anjo caísse em seus pés, morto. Sua própria espada estava afundada em seu peito. Os Guardiões que sobraram entreolharam-se, sem saber como ela havia feito aquilo. A Arcanjo avançou alguns passos e pegou um deles, os outros a atacaram por trás, mas ela era rápida. Um golpe de cima a baixo e ela fez o anjo de escudo. O outro alçou voo e atirou uma flecha em sua direção, a qual ela desviou com o pulso coberto pela armadura. Com apenas um giro, a Arcanjo pegou ambas as espadas que carregava e dividiu dois Guardiões no meio. Em seguida, ela abriu suas imensas asas e voou tão rápido que os olhos do outro anjo não conseguiram acompanhar. Logo, ela o encarava diretamente em suas íris amedrontadas, enquanto uma de suas mãos segurava ameaçadoramente seu pescoço e a outra fincava a espada na altura de seu estômago. O anjo nada pôde fazer. Estava morto antes que digerisse seus movimentos.

Ela retornou com ele ao chão, deitando-o com um certo cuidado, e então encarou os outros ao redor. Não gostava de matá-los, eles eram seus irmãos; Odiava que isso precisasse ser feito. Prometera a si mesma que só atacaria um anjo se ele a atacasse antes. Apesar de ter o seu lado definido na guerra, acreditava que todos pudessem trabalhar juntos até chegar a um consenso, sem derramar mais sangue nobre naquela locação divina.

Vindo de algum lugar entre as nuvens, Uriel fez-se presente a uma distância razoável da Arcanjo em apenas alguns segundos. Suas feições carrancudas estavam mais leves, mas a armadura ainda parecia pequena demais para aquele corpo musculoso. Ela mal o olhou, ainda encarava os corpos no chão. Em breve eles desapareceriam, e se tornariam apenas um borrão na existência.

— Vejo que esteve tão ocupada quanto eu, Irmã. – Uriel curvou-se em cumprimento. A Arcanjo nada respondeu. Guardou as espadas e começou uma caminhada sem rumo para o horizonte.

A casa dos anjos é um lugar difícil de se localizar. Se um humano fosse descrever sua localização, diria que ela fica em algum lugar ao término do infinito, onde a Casa de Deus, o Paraíso, iniciava mais um infinito. Este sendo ainda mais inalcançável.

Em geral, parecia-se com canto montanhoso, cheio de árvores e rios, com tavernas e túneis subterrâneos. Era impossível de se chegar ao final, se é que houvesse um.

Na maioria da vezes, costumava ser silencioso. Entretanto, desde que a guerra começara, para onde quer que se olhasse havia flechas voando, anjos em combate e outros treinando. Muitos mostravam suas habilidades e poderes especiais e se destacavam em um embate. Outros fugiam ou fechavam os olhos para não ver o que estava acontecendo. As armaduras transformavam-se sozinhas após eles escolherem qual lado defender. Um número considerável já havia sido reduzido ao pó e apagado da realidade. Nunca mais voltariam a existir.

— Estamos em guerras há anos, irmão. Esta é a primeira vez que eu tento um diálogo mais pacífico e onde você esteve? Não podemos abaixar a guarda.

— Desculpe-me, irmã. – O anjo balançou levemente a ponta das asas. – Estive ocupado.

— Você leva a guerra a sério, Uriel? – A Arcanjo perguntou, estudando o comportamento do anjo ao seu lado.

— Eu não me chamo mais Uriel, irmã. – O anjo observou, antes de responder à pergunta. – E é claro que levo a guerra a sério. Depois de você, não há outro anjo que se preocupe mais com o que está acontecendo do que eu. Estamos fazendo a coisa certa.

— Estamos fazendo a coisa certa… – A Arcanjo continuou, sem se preocupar em repreender o irmão por negar novamente seu nome divino. – Matando anjos que nos ajudariam a fazer a coisa certa? – Ela suspirou. – Milhares de anjos mortos por nada, não deveríamos ser o exemplo da compaixão, do perdão, do companheirismo e da pacificidade?

— Ações extremas pedem medidas extremas, irmã…

— Oh, Uriel…

— Meu nome agora é Tyron, irmã.

— Tyron… – A Arcanjo o encarou pela primeira vez desde que iniciaram a conversa. – Como um humano?

Antes que Tyron pudesse responder, uma figuras cortou o céu em um voo rasante. O anjo estava prestes a pegar sua espada quando a Arcanjo tocou uma de suas mãos e o acalmou, pedindo silenciosamente para que ele se acalmasse e ouvisse o que aquela figura tinha para dizer antes de qualquer coisa. Tyron não aprovava certas ações de sua Líder, como essa, mas a temia e respeitava o suficiente para calar-se e fazer o que ela mandasse.

Os pés da anja Orian mal haviam tocado o chão quando ela atirou uma flecha contra Tyron, a qual ele desviou sem qualquer dificuldade. A Arcanjo sorriu com o canto dos lábios ao ver quem era, e retirou a máscara para que pudesse conversar apropriadamente com ela.

— Orian. – Tyron riu ao analisar a flecha atirada pela anja. – Se quiser me acertar, terá de ser mais ágil do que isso. – Ele balançou o objeto no ar antes de transformá-lo em pó.

— Ao que devo as honras, irmã? – A Arcanjo aproximou-se de Orian sem se importar com a cor de sua armadura, que mostrava o lado contrário ao de sua liderança.

— Vejo que esteve ocupada demais para manter seu servo fiel sob seus cuidados, irmã. – Orian apontou para os rastros que sobraram dos cinco anjos que atacaram a Líder mais cedo.

— Minha Líder não me deu a oportunidade de dizer por onde estivemos, Orian.

— Não gosto de sua ironia, Uriel. – A Líder o repreendeu.

— Meu nome não é Uriel. – O guerreiro saiu de onde estava e rodeou Orian em uma caminhada lenta. – Diga à ela onde estive, irmã.

— Ele esteve na Terra. – Orian o encarou feio, fazendo o anjo parar de andar e sorrir maquiavélico. – Estava armando emboscada para crianças. Conseguiu quatro. Nix e eu salvamos dois.

— Crianças? – A Líder encarou o irmão repreensivamente, mas nada falou.

— Eles caminharam por onde eu caminhava, irmã. Viram-me. Eu apenas cumpri suas regras…

— Estivemos te observando o tempo inteiro, seu patife! – Orian acusou, irritada. – Você estava chamando-os a todo o momento! Vimos quando sinalizou para os dois irmãos na floresta e chamou o menino durante a noite, e quando atacou ele e sua irmã e tentou matá-lo!

— Eu estava apenas seguindo as regras. – As asas de Tyron ergueram-se levemente e ele tocou a espada. Orian percebeu e, imediatamente, pôs-se na defensiva.

— Você deveria envergonhar-se de suas ações, Uriel! – Ela provocou.

— Eu já disse que o meu nome não é Uriel! – O anjo retirou a espada e preparou-se para atacar. Porém, antes que o fizesse, a Arcanjo colocou-se no meio dos dois, e fez com que eles guardassem suas espadas apenas utilizando o poder de persuasão de forma telepática.

— Acalmem-se! – Ela ordenou, com a paciência esgotando. – Disse que Nix e você salvaram as crianças, onde elas estão? – A Arcanjo perguntou. Orian o encarou brevemente antes de fazer algum sinal para cima. Aparecendo de algum lugar do céu, Nix segurava duas crianças em seu colo, ambos ainda desacordados.

— Vocês os trouxe para cá?! – Tyron exaltou-se.

— Humanos vivos são proibidos de frequentar nossa casa! – A Líder concordou com o irmão, finalmente perdendo a paciência.

— Lembre-se que isso foi ocasionado pela estupidez de seu servo! – Orian defendeu-se. Nós os trouxemos para cá porque apenas você pode dizer o que irá acontecer com eles, irmã. Não iremos quebrar a regra, mas exigimos uma exceção.

— São apenas crianças, que não poderiam ser prejudicadas ou tocadas em tempos de guerra, quando a decisão sobre o futuro ainda não foi realizada. Ser servo foi contra nossos princípios, então nos achamos no direito de quebrar uma das regras para fazer-se cumprir a tua Lei! – Nix argumentou, ainda segurando as crianças, mas cobrindo-os com as asas. – Exigimos justiça para ambos.

— Vocês estão me ocasionando um grande problema, irmãs. E você também, Tyron. – A Líder tocou brevemente o próprio cabelo, e logo massageou uma das têmporas. – Mas eu farei a justiça que me pedem.

— A Lei exige que o humano que tenha contato com um ser divino seja morto, irmã, essas crianças tiveram contato com três anjos e sua divindade! – Tyron tentou argumentar.

— Você realmente acha que pode me dizer uma coisa dessas, irmão?! – A Líder o encarou com a expressão fechada. O anjo nada mais disse. A palavra da Arcanjo era a última que valia. – De qualquer forma, os acontecimentos terão uma consequência. Não posso deixar isso passar em branco.

— Ambos foram vítimas de uma emboscada, irmã. – Orian aproximou-se da Líder. – Merecem misericórdia!

— Já estão tendo, irmã, já estão tendo. – A Arcanjo virou-se de costas para os outros e caminhou em passos lentos por um tempo, pensando no que iria fazer. – Como punição a ambos, exijo que suas memórias sejam apagadas, e eles, separados. – Ela suspirou. – A menina voltará para casa, e ficará livre para viver o resto de sua vida. Seus familiares esquecerão que já existiu outra criança em sua família.

— Irmã… – Nix tentou interrompê-la, mas Orian pediu apenas para que ela aceitasse.

— E o menino? – Ela questionou.

— O menino ficará comigo. Eu o entregarei para um velho amigo, e ele pagará suas pendências comigo entregando o menino à família com quem tem se comunicado.

— Por que sinto que conheço este anjo? – Tyron perguntou, de forma retórica. Nix e Orian entreolharam-se, nada poderiam fazer a respeito. Apenas agradeceram pelas crianças não serem mortas.

— Eu preciso saber se os Guardiões permanecem honrando o acordo de paz enquanto aguardamos a assembleia de amanhã, Orian. Fui atacada por cinco de vocês hoje, e não pude fazer nada a não ser revidar.

— Os Guardiões temem a sua fala na assembleia, irmã. Sabem que quando você proferir qualquer palavra, a guerra celeste terá o seu fim e os humanos serão o alvo de todos. – Tyron respondeu à pergunta da Arcanjo, mesmo que ela não fosse direcionada a ele. – Nós teremos ganhado.

— Isso não é verdade. – Orian tentou dizer da forma mais calma possível. – Os anjos que a atacaram não eram capazes de cumprir suas promessas. Os Guardiões nada têm a ver com o ataque. – Ela suspirou. – O acordo de paz está valendo. Amanhã, se nós ganharmos a votação, a guerra celeste terá o seu fim e os humanos continuarão vivendo como Deus os permitiu.

— E se nós ganharmos? – Tyron perguntou, sorrindo maldoso.

— Você já tem a sua resposta. – Nix respondeu, também tentando manter a calma.

— Teremos toda uma raça para erradicar. – Orian encarou a Arcanjo diretamente.

Ela assentiu e nada mais falou. Foi até a anja e pegou a criança em seu colo, analisando seus traços suaves. Ele parecia estar em um sono profundo, do qual não acordaria tão cedo. E apesar de sua simplicidade e suas belas feições, a Líder não conseguiu simpatizar-se com ele. As crianças humanas podiam nascer puras, mas, ao crescer, carregariam o ódio e o terror que toda a humanidade estava fadada a carregar, e ajudaria destruição de sua própria raça.

Nix choramingava enquanto segurava a menina. Orian ainda encarava o céu de onde Tyron e a Arcanjo haviam desaparecido, e também verificava se havia algum Cavalheiro fora Tyron e a Arcanjo ao redor. Não estava em um perímetro confiável. Nix aproximou-se dela.

— Se ela falar amanhã, a raça humana estará acabada, Orian.

— Então ela não poderá falar, irmã.

 

Apesar de o Lar dos Anjos parecer como uma floresta aberta ou um lugar distante na natureza humana, ele também levava um pouco de misticidade. Por essa e por outras razões, os anjos nunca sabiam de onde um outro anjo poderia aparecer ou desaparecer, e ninguém sabia ao certo como encontrar a Arcanjo a menos que ela quisesse ser encontrada.

Antes da guerra, ela costumava ser a Líder de todos eles. Enquanto seus outros sete irmãos seguiram com Deus para o Paraíso, ela foi deixada para trás, para tomar conta da porta de entrada para a casa Dele. Não era uma novidade para ela ser a última escolhida ou ser renegada, porém, esse fora um golpe duro de suportar. Talvez isso tenha sido o motivo para tanta rigidez nas regras e leis que ela havia imposto aos outros anjos, deixando-os tão isolados quanto ela. Eles não poderiam reclamar ou ir contra aquelas leis, então apenas curvaram-se às suas vontades, certos de que também eram as vontades do Criador.

Isso durara até o tempo que a Líder reunira os anjos e dissera seus planos para a humanidade. Os humanos haviam ido longe demais com seu livre arbítrio. Eles não mais confiavam em Deus. Eles não mais acreditavam em Deus. E, pior: eles não mais temiam a Deus. A Arcanjo não poderia deixar isso impune. Os humanos violaram as regras de Deus e começaram a seguir suas próprias regras. Começaram a matar uns aos outros. Começaram a roubar uns aos outros. Começaram a desvalorizar a humanidade de uns dos outros. O plano de Deus de fazer uma raça à sua imagem e semelhança e dar-lhes o livre arbítrio havia fracassado, e a Arcanjo sentiu-se no direito de intervir. Mas nem todos aceitaram suas ordens. Eles jamais atentariam contra a criação divina se não fosse pelas ordens do próprio Criador. Então, eles não mais respeitavam as ordens da Líder, e eles não mais lutavam ao seu lado.

A guerra iniciara-se por isso. E desde o seu princípio, muito anjos foram expulsos de seu lar, e outros, tornaram-se prisioneiros.

Paulo não fora sempre um anjo. No início de tudo, ele caminhara ao lado de Jesus, sendo um de seus discípulos. Mas, ao entrar nos domínios divinos, decidira lutar ao lado de outros e ganhara asas e uma espada abençoada. Por dois mil e dezoito anos, ele servira Deus e acatara suas ordens. Ele lutara ao lado da Líder e a ajudara a manter a ordem no portão de entrada para a casa de Deus, o Paraíso, e acolhera os humanos mortos que passaram pela provação e mantiveram sua pureza, até que eles atravessassem o portão e fossem entregues nas mãos do Criador.
Mas desde que a Arcanjo apertara as rédeas e fizera regras para todos os anjos, Paulo agia diferente. Escondia coisas. Isso não durou por muito tempo. A Arcanjo, já desconfiada de seu comportamento, o seguira na Terra uma vez, e descobrira que ele mantivera contato com uma família humana.

Por isso, Paulo encontrava-se acorrentado em um canto escondido no Lar dos Anjos agora, onde somente a Arcanjo poderia encontrá-lo, aguardando a sentença que parecia nunca receber.

— Trouxe algo para mim, irmã? – Ele perguntou, fraco. – Talvez meu destino?

— Tenho um trabalho para você, meu irmão. Algo que pode ser considerado como sua sentença.

— Não trabalho para você, traidora!
— Como ousa chamar-me desse jeito?! – A Arcanjo aproximou-se rápido e estapeou o anjo no rosto. – Se há um traidor nesse lugar, ele é você, irmão!

— Ele nunca aprovaria o que você está fazendo. Nem meu Mestre!

A Arcanjo suspirou, e iniciou uma caminhada lenta ao redor do antigo discípulo.

— Ele tem sete forças ao seu favor para calar-me caso esteja de desacordo comigo, irmão, mas ele mantém-se calado. – Ela ajoelhou-se em sua frente. – E como seus amigos humanos costumam dizer… “Quem cala, consente.”

— Está cometendo um erro, irmã. Abra seus olhos!

— Eles estão bem abertos, Paulo. Pergunto-me quando você irá abrir os seus.
Eles encararam-se por alguns segundos, apenas estudando as expressões um do outro. A Arcanjo, pacientemente, moveu a asa que encobria a criança em seu colo e o deixou sob a vista do anjo.

— Um… – Ele sibilou, confuso. – humano?

— Certo, meu irmão. Um humano.

— O que você faz com um humano? E vivo?!

— Ele chegou até mim por duas Guardiãs, após elas salvarem ele e sua irmã de Tyron.

— Uriel! Sempre Uriel! – Paulo balançou a cabeça, rezando silenciosamente pelo juízo do irmão. Então, levantou o olhar para a Líder e a questionou: – Onde está a irmã?

— Com as Guardiãs, à caminho de casa.

— Sem punição? – Ele encheu-se de esperanças, mas a Arcanjo foi firme ao cortar-lhe.

— Suas memórias foram apagadas. Ela não mais lembrará de seu irmão.

— Oh… – Ele chorou copiosamente consigo mesmo. – Sempre tem de haver uma consequência!

— Não estou aqui para ouvir suas lamentações, Paulo. Você irá aceitar a minha proposta pelo menino ou eu terei de matá-lo como deveria fazer de qualquer jeito?

A Arcanjo silenciou-se novamente. Paulo negou veemente consigo enquanto pensava nas possibilidades. Mas não demorou muito em dar sua resposta; Sabia que a Arcanjo não era paciente e não podia arriscar a vida do menino.

— O que eu devo fazer, minha irmã?

— Irá levá-lo à família com quem tem conversado, Paulo. E logo após, um de meus Cavalheiros irá cortar suas asas. Você permanecerá na Terra e andará como os humanos, mas continuará imortal. Terá de cuidar do menino, sem dizer nada sobre o que aconteceu e impedir que ele reencontre a irmã, e nunca deixará que a família lhe conte a verdade. Você o verá morrer enquanto ainda estará jovem, e, ano após anos, irá lamentar-se por esconder dele a maior verdade de sua vida.

— Essa é a minha punição, irmã? – Paulo perguntou, contendo a voz embargada e uma pintada de raiva na mesma. A Líder curvou parte do lábio em um sorriso asqueroso, e Paulo a amaldiçoou pela eternidade. Ela assentiu e ofereceu a criança à ele. Tyron apareceu sobrevoando-os e cortou a corrente que prendia o antigo discípulo. Paulo segurava o menino pelo tronco e pela perna, próximo ao seu corpo, e a Arcanjo foi capaz de ver uma lágrima descer de um de seus olhos antes de ele abrir as asas e voar junto de Tyron à Terra, levando a criança consigo. Logo, sua punição teria um início.

A Arcanjo suspirou. Não sentia prazer algum ao condenar um de seus irmãos, acreditava apenas que estava fazendo o que era certo. O silêncio do Pai era como uma confirmação para ela, porém, até mesmo ela questionava-se às vezes o que a falta de comunicação poderia significar.

Ela sentia falta de não possuir tantas responsabilidades. Sentia-se sozinha por ser largada com os anjos menores enquanto seus outros sete irmãos, totalmente iguais à ela, subiram junto de Deus para o Paraíso, e assumiram uma postura protetiva que também deveria ser assumida por ela. Afinal, ela também era um Arcanjo, e merecia ser tratada como tal.

Mas ela acreditava que sua liberdade e independência tinha um motivo. Ele nada fazia por acaso. A Líder acreditava que suas decisões possuíam propósitos e fundamentos, e se elas fossem aprovadas por seu Pai, ela também teria um lugar ao lado dele.

Todo o propósito, porém, carregava fardos, decisões, batalhas e opiniões contrárias. Ela sabia que não seria fácil, então sempre deveria estar preparada para o que fosse bater de frente com ela.

Um único segundo de distração, e ela foi pega de surpresa.

Eram muitos, e estavam em todos os lugares. Todos com suas espadas e flechas apontadas para ela. À princípio, ela desacreditou no que estava vendo, não poderia crer que tantos anjos descumpririam o acordo feito, mas ela sabia que eles não estavam ali por nada.

Caminhando em sua direção, Nix e Orian demonstravam certa liderança à frente de outros anjos. A Arcanjo encarou os dois com desconfiança, e um certo desprezo.

— Não é tão pura, certo?

Nix tremeu com as palavras da Líder, mas foi amparada pelo olhar decisivo de Orian.

— Não irá nos fazer temerosos agora, irmã.

— Está prestes a me trair e ainda me chama de irmã?

— Você nos levou a isso.

— Disse que os anjos que me atacaram não eram capazes de cumprir nossas promessas, certo? Irá assumir que você os sacrificou a fim de me estudar?

— Seus sacrifícios foram honrosos.

— Não há honra em não manter a palavra, irmã. – A Líder proferiu, entredentes. – Você matou cinco anjos para nada. Nem cem de seus melhores guerreiros são capazes de me vencer.

— Não se preocupe com isso. – Orian retirou a espada da bainha e a empunhou ofensivamente. – Temos mais de cem por aqui.

O ataque foi instantâneo, mas a Líder foi rápida em sua resposta. Ela colocou a máscara dourada em seu rosto e retirou as duas espadas a tempo de atingir quatro Guardiões, que reduziram-se a pó antes mesmo tocarem o chão. Outros Guardiões vieram para cima, atacando de todas as direções. Para defender-se, a Líder misturava sua agilidade com suas habilidades, e ia derrubando um por um por onde passava. Um Guardião a golpeava por cima, ela conseguia esquivar-se e atacá-lo em seu contrapé. Outro vinha em um ataque direto em seu peito e ela desviava e fazia-o de escudo enquanto atacava outros Guardiões. Se algum ousasse tocar suas asas, ela fazia com que as penugens brancas se arrepiassem e ficasse letais, o que dificultava qualquer ataque por suas costas. Não demorou muito para que dezenas de corpos de anjos se espalhassem pelo chão, assim como o pó que restava após suas mortes.

Nix liderava outro ataque com mais uma leva de anjos, enquanto alguns começavam a atacar com as flechas. A Arcanjo sentiu um pouco mais de dificuldade nesse ataque, mas conseguira manter tudo sobre controle. Quando ela ficou de cara a cara com Nix, Orian foi rápida e salvou a anja da morte, irritando levemente a Líder por desviar de seu golpe. Ela empunhou a espada mais firme e foi atrás de Orian, que alçou voo e atirou diversas flechas em sua direção, todas desviadas pela Arcanjo com a espada e o punho. Quando ela também alçou voo na direção de Orian, Nix sentiu que era hora de agir e socou-lhe nas pernas, desequilibrando-a por alguns segundos. O suficiente para fazer Orian acertar uma flecha em seu ombro esquerdo. A Líder grunhiu em dor, mas foi surpreendida novamente quando tentou abrir suas asas. Diversos anjos pularam em suas costas e começaram a golpeá-la. Dessa vez, o grito de dor foi mais intenso.

O efeito foi contrário ao esperado, porém. A Líder encheu-se ódio e adrenalina. Ela conseguiu arrepiar as penugens e expulsou todos os anjos de uma só vez. Depois, atingiu-os um por um com sua espada, sem se preocupar com a ferida no ombro. Apesar de sua reação, a Líder não era conhecida por ataques afobados, e sim estratégicos. Estava tão cega por seu ódio, que não percebeu que atacar demais a deixaria vulnerável a também receber ataques.

Nix iniciou o embate final, atacando-a novamente nas pernas e aproveitando-se de seu desequilíbrio para aplicar um golpe em seu peito. A Líder cambaleou, e antes que pudesse descobrir de onde vinha o outro ataque, Orian cortou o céu em um voo ágil e feriu uma de suas asas profundamente. A Arcanjo foi corroída por uma dor dilacerante, a qual nem mesmo ela poderia aguentar. O golpe de Orian encerrou a batalha.

Anjos não podem matar Arcanjos, e somente isso fez com que a Líder permanecesse viva. Orian gesticulou para que todos parassem, e eles obedeceram, mantendo posições defensivas. A Líder continuava agonizando no chão, tentando juntar alguma última força para permanecer lutando, mas a ferida em sua asa era demais. Qualquer movimento que ela fazia, uma tremenda dor atravessava o seu corpo.

Orian tocou a armadura na altura de seu peito e a empurrou para o chão. A Líder gritou de dor, mas agarrou o pulso da anja e apertou o mais forte que podia.

— Não quero machucá-la mais do que isso. – Orian disse, desvencilhando-se da Arcanjo. – A única promessa que seguimos é aquela que diz que a última palavra será dada na assembleia amanhã. Respeitamos a assembleia e somente ela. Como o seu servo disse, ações extremas pedem medidas extremas.

— V-você… – A Líder cuspiu com dificuldade. – Nos desonra…

— Nós honramos a decisão… – Orian aproximou o rosto da Líder. – Não você.

— Guardiões, retirem-se!

Nix observou enquanto os anjos alçavam voo e iam embora dali. A Líder aceitou calada a derrota, sem forças para tentar fazer qualquer coisa a respeito. Assim que todos os anjos se retiraram, Orian levantou a Arcanjo em seu colo e alçou voo, e Nix ia fazendo sua cobertura. Elas voaram por minutos até chegarem a ponta de uma montanha, onde, à sua frente, encontrava-se um abismo.

A Arcanjo encarou Orian ciente do que estava prestes a acontecer. A anja não deixou-se abalar pelo olhar calmo que recebia. Poderia não estar fazendo a coisa certa, mas estava decidida a seguir em frente e não colocar a raça humana em risco. Antes que o destino fosse selado, Nix tocou a cabeça da Líder e roubou suas memórias, assim como havia feito com os gêmeos.

Orian não demorou a fazer o que estava pensando. Voou sobre o abismo e deixou que a Líder deslizasse por seus braços e iniciasse uma queda livre sobre o infinito. Para que um anjo saia de seu lar e alcance qualquer outro lugar, seja ele no Universo Humano ou em qualquer outra dimensão, ele deve carregar consigo a sabedoria que o relembrará o caminho de casa e também alcançar uma certa velocidade para conseguir completar a viagem. A Líder não possuía nenhum dos dois, estava entregue ao acaso.

Enquanto Paulo alcançava o mundo humano e dava uma nova oportunidade para a criança viver sua vida, a Líder que o condenara a uma punição eterna caía livremente sem saber se um dia chegaria a qualquer lugar.

2 comentários em “Celeste: Capítulo 2 – A Queda.

  • Março 5, 2018 em 12:30 am
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    Sabe de uma coisa? Eu adoro ler suas histórias quando estou tempestiva ou caótica, porque elas me fazem sentir… Sentir tantas coisas! Ansiedade por mais, as vezes amor, as vezes raiva, as vezes alvoroço. E, assim, cá estou acompanhando outra história sua e distante de fic. Estou tão, mas tão animada com isso, você nem imagina! Eu adoreier, adorei como escreveu sobre o seu, incluiu Deus e toda história dentro da sua história! Eu amei de verdade. Estou louca para saber como vai ser a Arcanja em outro ambiente, com outras pessoas e crenças e tudo mais. No aguarde de mais. Amei, de verdade.

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