Em busca da arte

(Reprodução)

Todas as perguntas têm respostas.

Umas são fáceis, outras difíceis. Algumas respostas demoram anos para serem encontradas, a ponto de ninguém lembrar-se mais da pergunta. Outras são respondidas tão logo surge o questionamento.

Penso que isso é bom, porque a busca por essas respostas motiva as pessoas.

É na busca por respostas que a sociedade evolui.

E, como muitas pessoas, eu tenho uma pergunta dentro de mim.

A minha pergunta, no entanto, não é tão grandiosa ou difícil assim. Ela não revolucionará a humanidade. Não alterará o curso de nenhuma vida. Muito menos irá determinar quem está certo e quem está errado.

Eu não quero saber se há vida em outros planetas, descobrir qual é o propósito da existência humana, muito menos saber se algum deus existe.

A pergunta que trago em mim já possui centenas de respostas, diversas definições e múltiplas vertentes.

O que eu quero?

Saber o que é Arte.

Simples, não é verdade?

Basta ‘jogar no Google’, pesquisar em livros sobre o tema ou simplesmente conversar com alguém que entende do assunto e pronto. Mais uma questão solucionada. Fim do problema. Próxima pergunta.

No entanto, não é isso que busco. Não anseio por determinações culturais acerca do que é ou não arte, conceitos arcaicos e eruditos que de nada servirão.

Eu quero entender a arte, sentir e apreciar suas mais diversas manifestações. Reconhecê-la em locais onde ela não deveria estar. Esbarrar com ela no meu dia-a-dia. Quero poder discordar dos grandes críticos e ter meus próprios parâmetros artísticos, baseados na minha percepção da realidade e do mundo que me cerca.

Quero ouvir uma música desconhecida, de um grupo que nem sequer conta oficial no Youtube possui; e apreciá-los, sem ligar para charts, vendas, críticas e quantidades de hits. Apenas apreciar a sua arte.

Assistir a uma representação das artes cênicas; seja uma peça teatral ou uma apresentação de dança e sentir. Degustar a narrativa, a interpretação…deixar-me envolver a cada passo, a ponto de desconectar-me da minha realidade e viver, ainda que por instantes, no universo da obra.

Observar uma pintura no azulejo e ser capaz de respeitar o artista e sua obra da mesma forma que respeito algo reverenciado pelos intelectuais, isolado num museu no qual certamente nunca poderei ir.

Valorizar as deformidades presentes na escultura de um aprendiz. Entender o processo criação e compreender que aquela escultura nada mais é que uma representação, por vezes idealista, um reflexo da sociedade e seus anseios.

Observar uma construção arquitetônica, mesmo que ainda seja a de um conjunto habitacional, com todas as casas iguais, e analisar os traçados, as linhas, a forma com a qual a luz ilumina a edificação. Perceber as mínimas diferenças e analisar o que elas representam; em que o arquiteto se inspirou, qual a mensagem e o simbolismo por traz de seus projetos.

Venerar e reconhecer o esforço e a iniciativa dos diversos autores ‘amadores’, que buscam, através de suas obras, dar visibilidade a audiências ignoradas. Relatar a realidade, às vezes nua e crua. Levar-nos para uma utopia. Ter ciência de que essas obras literárias são importantes, tanto para quem lê quanto para quem as escreve.

Assistir a uma filme da Sessão da Tarde, completamente clichê, e entender os mecanismos que constituem essa imagem em movimento, apreciar os argumentos, as escolhas narrativas…tentar adivinhar o final e ser completamente surpreendida com o desfecho. Importar-me com os personagens da mesma forma que me importo com as pessoas ao meu redor.

Analisar uma fotografia até encontrar a alma de quem nela está retratado. Desvendar o fotógrafo e a forma com a qual sua vida interfere na sua obra, ou talvez perceber que não interfere de modo algum. Descobrir se sua obra reflete sua visão do mundo, ou quem sabe a visão que eu tenha.

Debater sobre a arte e seus desdobramentos.

O que são essas artes modernas?

Seriam as artes modernas novos segmentos dentro do universo da arte ou apenas novos segmentos dentro das modalidades existentes?

De que forma arte e sociedade se relacionam?

Qual a finalidade da arte?

Quero visitar os estados da arte e descobrir sua característica figurativa, abstrata, conceitual, construtiva, performática ou tecnológica.

Desvendar as possibilidades que surgem quanto arte é, simultaneamente, construtiva e tecnológica. Tecnológica e figurativa. Figurativa e Conceitual. Performática e Objetual.

Perceber porque algumas expressões artísticas são mais valorizadas que outras.

Arte Indígena no Brasil. Arte Naif. Bauhaus. Action Painting. Empacotamento. Op-Art. Fluxus. Vídeo Arte. Land Art. Transvanguarda.

Porque Anton R. Mauve não teve o mesmo êxito que seu primo?

O que representa, historicamente, a Arquitetura Ostentação?

Correção.

Talvez eu não esteja em busca da Arte: aquilo que busco se aproxima mais da arte marginalizada, aquela esquecida, desconhecida e desprezada. A arte real. Negligenciada. Palpável. Comum. Ordinária. Medíocre.

Mas ainda assim arte.

Se você está em busca de aclamação para artes canonizadas, sua jornada talvez acabe; em um momento ou outro, passando por aqui. Mas dificilmente aqui permanecerá.

Caso você também esteja em busca do que é arte e da forma com a qual ela está atrelada a evolução ou a decadência humana, garanto-lhe que a nossa jornada será longa, porém prazerosa, nessa tempestuosa trajetória em busca da arte.

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