Romântica Anônima: Capítulo 6 – 43% vs 57%

Ensino médio

De acordo com pesquisas, 43% da população mundial sofre de insônia. Rebecca sempre fez parte dos 57% da população que dormem feito um bebê. Ou fazia. Desde que o “R.A” entregara o trabalho de física em seu nome, as noites de Rebecca se resumiam em montar teorias sobre quem essa pessoa poderia ser.

A garota de 16 anos havia montado uma lista com o nome de todos os garotos do segundo e terceiro ano que tinham as iniciais “R.A”. Ela deixou de fazer os seus desenhos durante o intervalo para observar um por um deles, coletando informações e riscando da lista todos que não se encaixavam no perfil.

No final da semana a lista de Rebecca possuía somente dois nomes: Richard Alderson e Ricardo Alvares. Ela estava encontrando dificuldades em eliminar os garotos de sua lista por não possuir nenhum amigo ou conhecido em comum com eles. Normalmente ela perguntava para os amigos se os garotos tinham a capacidade de tirar nota 10 em um trabalho de física. Muitas vezes fora respondida com gargalhadas. Aparentemente, alunos que tiravam mais de 7 em um trabalho de física – ou nas provas — eram raridade na escola.

— … então eu tive que chamar a Bridget para me ajudar a desovar o corpo. – disse Julie naturalmente.

Fazia algum tempo que achava que estava conversando sozinha, portanto resolveu terminar sua história de uma forma que atrairia a atenção de Rebecca, somente para ter certeza que nos últimos 10 minutos a melhor amiga não estava prestando atenção em nenhuma palavra do que ela dizia.

— Bridget sempre foi uma boa amiga. – disse Rebecca automaticamente, sem nem ao menos olhar para Julie.

Rebecca estava muito ocupada observando Ricardo que estava algumas mesas a frente conversando com alguns amigos. Esperava que em algum momento os garotos começassem a conversar sobre a aula de física, mesmo que fosse pouco provável. Quem perdia tempo conversando sobre as matérias a não ser na época de provas ou trabalhos?

Julie virou o corpo na cadeira, acompanhando o olhar de Rebecca. Queria entender o que era mais interessante do que a história que estava contando. Ela semicerrou os olhos, procurando em sua memória qualquer mínimo motivo que fosse para Rebecca não tirar os olhos de Ricardo. Nem de longe o garoto fazia o tipo dela, embora ela não soubesse exatamente o tipo de garotos que Rebecca gostava. A melhor amiga não tinha um tipo especifico, mas Ricardo já era exagero.

— O que está acontecendo? – ela teve que perguntar, caso contrário sua cabeça acabaria explodindo.

— O que? – após aqueles longos minutos que Julie ficou falando sozinha, Rebecca finalmente voltou a atenção para a amiga. – Acontecendo o que do que? Você e Bridget, eu entendi. – ela fez uma breve pausa, semicerrando os olhos. – Não, eu não entendi. Quem vocês mataram?

— Ainda ninguém, mas se eu não começar a entender no próximo minuto o que está acontecendo, provavelmente alguém vai morrer. – Julie esboçou um sorrisinho cínico. Rebecca respondeu com uma careta. – Então? Você não está encarando o Ricardo por que gosta dele, certo? – a última palavra saiu em tom de suplica.

Julie não tinha nada contra garotos que usavam óculos que não combinavam com sua estrutura óssea e formato do rosto ou até mesmo que desconhecia remédio para espinhas e deixava aquelas coisas viveram como bichinhos de estimação em seu rosto. Tinha quase certeza que se Ricardo passasse por um programa de transformação ele seria o perfeito exemplo “se não me quis assim, não me procure quando eu estiver assim”, mas, aparentemente, não existia ninguém sensato para fazer o menino colocar a mão na consciência. Então, ele não era o tipo de menino que combinaria com Rebecca. Julie não queria pensar dessa forma, mas ela era uma adolescente no segundo ano da escola. Quem não pensava dessa forma era porque tinha uma aparência igual a do Ricardo. Ela também não acreditava em amor adolescente, então…

— O que? Não! – Rebecca respondeu quase em um grito, fazendo uma careta. – Eu… – grunhiu, contrariada. Seu plano era eliminar todos os garotos da lista sem envolver Julie. Mas quem estava querendo enganar? Nunca conseguiu não envolver Julie nas coisas que fazia, embora tentasse algumas vezes. Ela tirou uma folha de caderno da bolsa e entregou para Julie. – Eu estou procurando o R.A.

— Você… – Julie não concluiu. Ela resolveu ler os nomes da lista primeiro antes de fazer qualquer tipo de comentário. – Por que os meninos do primeiro ano não estão aqui?

— Você já conheceu os amigos do meu irmão?

— Acho que não preciso. Já conheço o seu irmão. – disse Julie com desdém, esboçando um sorrisinho debochado. – Mas, você tem razão. É mais fácil ser alguém do segundo ou terceiro ano mesmo. Só faltam esses dois? – Rebecca assentiu um pouco desaminada. Tinha a sensação de que toda aquela busca não ia dar em absolutamente nada. – Se for um deles o que você vai fazer?

— Pedir para que ele deixe de ser esquisito. – respondeu em um tom óbvio e com um pouco de irritação. Estava odiando perder o sono com toda aquela situação e, daqui a pouco, era capaz de começar a perder a sanidade também. – As pessoas precisam entender que a boca existe, então se gosta de alguém é só usá-la, não ficar fazendo esses gestos assustadores.

— Muito fácil para você dizer. Existem pessoas que não tem essa sua aparência de princesa da Disney. – Julie gesticulou, apontando para o rosto de Rebecca. A garota fez uma careta, achando sem o menor sentido o exemplo de Julie. – Sério? Você acha mesmo que alguém como o Ricardo – virou um pouco na cadeira, apontando sutilmente para o menino — teria coragem de vir se declarar para você, sabendo que vai receber um “não” bem gran… Por favor, — Julie virou-se de frente para Rebecca novamente, colocando uma das mãos no canto do rosto, na tentativa de se esconder. – diga que ele não está vindo se declarar para você. Isso vai ser doloroso de assistir.

— O—o—o—oi. – disse Ricardo com um sorriso tímido, totalmente desconfortável e sem jeito. Julie quis se esconder debaixo da mesa. Uma única palavra e as dores da vergonha que o menino iria passar já estava tomando conta de todo o seu corpo. – Rebecca, eu… – limpou a garganta, tentando conter a vontade de sair correndo dali. – Eu fiquei sabendo que você é muito boa em física, então queria saber se… – limpou a garganta novamente. Ele passou a mão pelos cabelos, ainda mais desconfortável do que já estava. – Eu queria saber se você pode ser minha tutora. Eu te pago! – adiantou-se em dizer, embora Rebecca ainda não tivesse pensado em nada para responder. O menino ainda não tinha lhe dado a oportunidade. – Eu vou entender se você não quiser… – coçou a nuca, dando um passo para trás. – Sei que garotas como você não gostam de serem vistas com garotos como eu, mas… – limpou a garganta novamente, um pouco aborrecido consigo mesmo. Queria não soar tanto ou não sentir tanta vontade de ir ao banheiro fazer xixi quando tinha que conversar com alguém que lhe intimidava. – Enfim… Eu já disse que te pago pela hora?

— Eu não sou uma garota de programa, então não preciso receber pela hora. – respondeu Rebecca em um tom descontraído, tentado cessar o nervosismo de Ricardo.

— Não, eu não… Eu não… Eu não… – Ricardo fechou os olhos na tentativa de se concentrar para conseguir falar uma frase coerente. – Eu não disse que você é uma garota de programa…

— Eu sei, eu só estou brincando. – disse Rebecca soltando um riso. Ricardo também riu, sem graça. Julie continuava querendo se esconder debaixo da mesa. – Só quis dizer que você não precisa me pagar. Posso ser sua tutora de graça.

— Bom… – Ricardo olhou para baixo. A maioria das vezes era mais fácil conversar com as pessoas sem manter o contato visual. – Minha mãe jamais aceitaria uma coisa dessas. E isso seria bom para você também. Quer dizer “ah olha a Rebecca dando aula para aquele fracassado de graça”, acho que não ia ficar bom para você…

— Eu não me importo com o que o pessoal dessa escola pensa de mim. – disse Rebecca, sinceramente. – Eles não são donos da minha vida e eu posso conviver com quem eu bem entender.

Ricardo sorriu, sem graça. Era tão acostumado com os colegas de escola tirando sarro de sua cara que quando encontrava alguém que não fazia isso achava até que era mais um de seus sonhos.

— Então… Posso… Posso te esperar depois da aula? Minha mãe precisa te aprovar antes…

— Claro. – Rebecca sorriu de forma simpática. – Nos encontramos depois da escola.

— Muito, muito obrigado. – disse Ricardo dando dois passos para trás. Ele tropeçou nas próprias pernas, quase esbarrando nas pessoas que estavam atrás dele. Agradeceu por não ter esbarrado. Já tinha causado muitos problemas para si mesmo por causa disso. – Até. – acenou, virando-se abruptamente para não ver o gesto que Rebecca ia ou não ia fazer. Saiu vivo de toda aquela conversa que, para ele, fora constrangedora, então preferia permanecer assim.

— Ah cara… – Rebecca pegou a lista com o nome dos garotos, visivelmente chateada. – Só sobrou o Richard. – riscou o nome de Ricardo da lista, contrariada.

— Como assim só sobrou o Richard? – questionou Julie. – É ele. – apontou para Ricardo, dessa vez sem muita sutileza. – Ele é o R.A.

— Como ele pode ser o R.A sendo que acabou de me pedir para dar aulas de física para ele? A mãe dele ainda vai me pagar. Não faz o menor sentido.

— Até parece que não é fã de comédias românticas. – Julie revirou os olhos, desacreditada da ingenuidade da amiga. – Ele está fingindo que é péssimo em física somente para ter um tempo sozinho com você.

— Bom, se isso for verdade, sendo que não é, eu vou ter que conversar com a mãe desse menino.

O sinal tocou, indicando o final do intervalo. As duas amigas levantaram-se da mesa.

— Você não ia servir para viver em uma comédia romântica. – disse Julie enquanto as duas andavam para fora do refeitório.

— Isso não é uma comédia romântica, é um filme de terror. Eu jamais me envolveria com alguém que me persegue e faz essas coisas estranhas.

Ata.

Atualmente

Com o passar dos anos, Rebecca continuou fazendo parte das estatísticas de quem tinha uma boa noite de sono. Precisava de muita coisa para lhe causar insônia como, por exemplo, o que exatamente ela sentia por Karina.

Após o incomodo que sentiu na noite anterior ao ouvir a palavra “encontro” saindo da boca de Karina, chegou à conclusão que estava na hora de parar de ignorar tudo que passava dentro de si sempre que estava perto da engenheira.

Ela amava Jonathan. Iria casar com ele em poucos meses e, finalmente, viver a vida que sempre sonhou – mais ou menos, mas isso não vinha ao caso agora. Seu questionamento não era sobre seus sentimentos pelo noivo e, sim, pelo sentimento que nutria pela colega de trabalho que, embora tivesse pouco tempo que a conhecesse, não conseguia tirá-la da cabeça.

Fora isso, não conseguia controlar o seu coração sempre que estava perto de Karina. Somente com um sorriso, o órgão que mais sofria sempre que passava por uma desilusão amorosa, batia de uma forma louca dentro de seu peito. Com o passar dos dias, ela pensou que aquilo passaria. Passou com o Jonathan, então por que não poderia passar com uma pessoa que acabara de conhecer?

Também não conseguia controlar o frio na barriga que sentia sempre que conversava sobre qualquer assunto com Karina. Ela amava a sensação, embora algumas vezes lhe trouxessem lembranças de sua adolescência e o começo da vida da adulta. Jonathan nunca havia lhe causada nada parecido, mesmo que no começo do relacionamento o frio na barriga também estivesse lá. Só lembrava de ter se sentido daquela forma com uma única pessoa e, se na época aquilo lhe assustava, imagina agora? Antes ela não chegou a conhecer a pessoa pessoalmente, diferente de Karina que passava o dia inteiro trabalhando ao seu lado.

Após se revirar em todos os lados da cama e inconscientemente comparar tudo que sentia por Karina com o que sentiu quando começou a namorar Jonathan, Rebecca chegou à conclusão que se sentia muito atraída por Karina.

A constatação não ajudou com que Rebecca finalmente conseguisse pregar os olhos no restante da noite. Não fazia a mínima ideia do que fazer com aquela descoberta. Normalmente quando tinha um problema, a primeira pessoa que procurava para lhe aconselhar era Jonathan, mas ela não podia simplesmente ligar para o noivo e dizer que o seu dilema da madrugada era estar atraída por alguém que não era ele. O que isso acabaria causando no noivado dos dois?

Sua segunda opção era ligar para Julie, mas as cinco horas de diferença do fuso horário não ajudava muito quando, ultimamente, antes das 22 horas a melhor amiga já estava dormindo. Nunca ia concordar com a mudança de Miami para o Havaí. Já não havia concordado quando Julie mudou de Nova York para Miami, mas superou. Pelo menos o fuso horário não atrapalhava a comunicação das duas.

As outras opções que tinha era esperar até a sua hora de almoço que, normalmente, era a hora que Julie estava tomando o segundo café da manhã ou conversar com Elizabeth. A opção mais segura era esperar para falar com Julie, mas estava cansada de ter que lidar com aquela constatação sozinha, portanto a primeira coisa que fez assim que chegou ao escritório foi caminhar diretamente para a sala de Liz.

— Qual das duas. – Elizabeth ergueu dois tipos de verdes, uma em cada mão. Rebecca apontou para o da mão esquerda. – Então vai ser esse. – disse, escolhendo o que estava em sua mão direita. Rebecca balançou a cabeça em negativo. Ainda não fazia ideia do motivo de dar sua opinião, sendo que nunca era considerada. – Você deveria ir comigo hoje ver essa cliente. Tem muitas paredes que precisam ser quebradas naquele escritório.

— Quantas vezes eu vou ter que dizer que o meu trabalho não é quebrar paredes? E nem construí-las. – completou, impedindo que Liz fizesse seu costumeiro comentário. – Eu não falo que o seu trabalho é só pintar paredes.

— Obvio que não. – afirmou Elizabeth, guardando as paletas dentro de sua mala. – Você não é nem louca de dizer uma coisa dessas. – sentou-se em sua poltrona, cruzando as pernas. – Mas, você poderia ir comigo olhar o lugar e depois aparecer com um desenho de um escritório mil vezes melhor.

— Não. – disse simplesmente, sentando-se de frente para a amiga. – Será que agora podemos falar de mim? – indagou, cruzando os braços. Elizabeth franziu o cenho, sem entender aquele comportamento. – Você sente ciúmes da Sam?

— Eu pensei que íamos falar de você. – observou Elizabeth com um pouco de confusão. Rebecca inclinou um pouco a cabeça para o lado, encarando a ruiva com uma expressão de tédio. – Por que eu sentiria ciúmes da Samantha? – resolveu responder antes que os olhares da loira lhe mantassem.

— Você não sente ciúmes quando ela sai com outras mulheres?

— Quem… Quem… – Elizabeth levantou-se, sentindo uma pontada de incomodo com aquela conversa. – Quem disse que a Sam sai com outras mulheres? Ela não sai com outras mulheres! – afirmou mais para si mesma do que para a possibilidade em si.

— Eu pensei que como você tem um noivo, automaticamente…

— Pensou errado! – cortou a amiga. – Quando ela me conheceu eu namorava o Leo, quando eu a conheci, ela não namorava ninguém, então isso não dá a ela o direito de ter outra namorada.

— Ela sabe disso?

— Qual o seu problema, Rebecca? – cruzou os braços, impaciente com o rumo daquela conversa. — Está tentando acabar com o meu namoro?

— Claro que não! – Rebecca respondeu prontamente, antes que a amiga tivesse um troço bem ali na sua frente. O assunto estava deixando Elizabeth tão vermelha quanto a cor de seu cabelo. – Mas minha pergunta já foi respondida. Se isso não for um caso sério de possessividade, então você sente ciúmes da Sam.

— Qual o sentido dessa pergunta? Além de fazer com que eu ligue para a Sam no instante que você deixar a minha sala, claro. – voltou a se sentar, sentia-se um pouco melhor. – Não me diga que deu para ter ciúmes do Jonathan agora?

— Não, o Jonathan não tem nada a ver… – Rebecca não conseguiu concluir a resposta por ter se distraído com a causadora de sua insônia passando na frente da sala de Elizabeth. A ruiva acompanhou o olhar da amiga, tentando entender o motivo dela ter parado de falar.

— Ah… – Liz esboçou um sorriso. – Depois de tudo que eu ouvi ontem… – ela deu a volta na mesa, parando ao lado de Rebecca. – Ela não vai ficar com você enquanto você tiver um noivo. Ela não é a favor do amor.

— Quem… – Rebecca levantou-se da poltrona, ajeitando o vestido social. – Quem… – limpou a garganta, desconsertada com a insinuação de Karina. – Quem disse que eu quero ficar com ela? Ela não… – apontou para o lado de fora da sala. Fez uma pausa, pensando no que iria dizer. Ao chegar à conclusão de que iria falar uma grande mentira, apoiou-se na mesa, um pouco chateada. – Ela faz totalmente o meu tipo. – soltou um longo suspiro. Balançou a cabeça em negativo, afastando os pensamentos que sabia que iria ter caso continuasse pensando em Karina daquela maneira. – Eu tenho um noivo! – Elizabeth encarou a amiga com uma expressão de paisagem, como se dissesse “Tá, e daí?”. – Eu não sei porque ainda venho conversar essas coisas com você. Você nunca me ajuda em absolutamente nada.

— Você nunca vem conversar sobre essas coisas comigo. – respondeu Elizabeth, um pouco ofendida com o tom que Rebecca usou. – Nem problema amoroso você tem, se enxerga. Bom… – esboçou um sorrisinho, divertindo-se com a situação. – Não tinha.

Rebecca grunhiu, revoltada com aquela situação que tinha se enfiado e deixou a sala de Elizabeth sem nem ao menos se despedir.

Aproveitando a saída da loira de sua sala, Elizabeth deu a volta na mesa, sentando novamente em sua poltrona e ligou para Samantha.

— Amor, nós somos exclusivas, certo?

— Você tem um noivo. – respondeu Samantha em um tom óbvio.

— Um noivo, não uma noiva.

— Isso significa que eu posso arrumar um noivo também? – indagou Samantha em um tom neutro, embora já estivesse se divertindo com todo o rumo daquela conversa.

— Samantha nem de homem você gosta, não me provoque! – exclamou Liz um pouco alterada. Do outro lado da linha ouviu uma risada de Samantha. – Você é tão ridícula. – revirou os olhos, achando bem desnecessária a brincadeira da namorada. – Não dá para falar sério com você.

— Eu digo o mesmo. – Samantha respondeu ainda entre risos.

O primeiro pensamento de Rebecca no instante que deixou o escritório de Elizabeth foi o de ir diretamente para o seu escritório e fingir que não viu Karina chegar. Precisava tirá-la de sua cabeça pelo menos por alguns minutos.

Ah quem eu estou querendo enganar? Esse foi o segundo pensamento de Rebecca. Ou teria sido, caso ela tivesse tido um ao invés de resolver ir diretamente para o escritório de Karina.

— Bom dia. – ela desejou, esboçando um singelo sorriso.

Karina, que estava de costas para a porta pegando alguns documentos, ao ouvir a voz de Rebecca, virou-se imediatamente, abrindo um sorriso.

— Bom dia. – também desejou.

— Como foi o seu encontro?

Rebecca mordeu o canto das bochechas, amaldiçoando-se pela pergunta. Qual relevância teria saber como que foi o encontro de Karina? A não ser que a morena falasse que tinha sido horrível, ela não queria saber.

Era irracional ter ciúmes de alguém que mal era sua amiga. Embora tivesse chegado à conclusão de que sentia-se atraída por Karina, isso não justificava todo o incômodo que sentia somente de imaginar a engenheira com outra mulher. Ela era noiva, iria casar dentro de poucos meses e, o mais importante, ela amava Jonathan. Somente o fato de ter aqueles sentimentos por Karina, Rebecca sentia como se estivesse traindo o noivo e ela não queria ser esse tipo de pessoa.

Sem julgamentos com quem era. Só para deixar claro.

— Excelente! – Karina alargou mais o sorriso, dando a volta em sua mesa. Rebecca tentou forjar um sorriso ao ouvir aquilo, mas simplesmente não conseguiu. O incomodo, mais conhecido como ciúmes, continuava bastante presente. – Agora que estou instalada de vez na cidade novamente estamos pensamento em fazer disso algo semanal.

— Semanal? – Rebecca cruzou os braços, tentando matar o ciúmes sufocado. – Já é tão sério assim?

— Bom, se dependesse da minha mãe jantaríamos todo dia na casa dela, mas ela não quer atrapalhar a alimentação não saudável que eu e a Samantha temos.

— Sua mãe? – Rebecca descruzou os braços, mas sem saber o que fazer com eles, cruzou-os novamente, dessa vez para tentar abafar o grito interno que estava dando. – Seu encontro foi com a sua mãe? – riu de nervoso. Ela queria sair correndo dali, mas tinha quase certeza que isso causaria muitas perguntas.

— Eu, minha mãe e a Samantha. – respondeu Karina, achando um pouco estranho o comportamento de Rebecca. – Ela estava planejando esse jantar fazia muito tempo, mas com toda a mudança, as entrevistas ou algum outro compromisso, nunca dava certo. – Rebecca fez uma expressão de “ah”, balançando a cabeça positivamente enquanto esboçava um sorriso sem graça. – Você não pensou… – ao invés de concluir a frase, Karina riu. – Meu Deus, não! Eu ainda não voltei totalmente a minha rotina, então encontros de verdade não fazem parte dos meus planos no momento.

E, assim, o bichinho do ciúmes de Rebecca foi morto.

Uma parte de si achava errado sentir-se feliz daquela forma com a novidade, mas a outra parte não estava nem um pouco preocupada. Com a nova informação, poderia voltar tranquilamente a fazer parte das estatísticas de quem não tinha problemas para dormir. A não ser que a próxima noite de insônia fosse para decidir como iria lidar com toda aquela atração.

— Me desculpa, eu não quis me intrometer…

— Está tudo bem. – Karina a interrompeu, abrindo um sorriso, estranhamente feliz com aquele comportamento de Rebecca. – Eu não ligo de falar sobre os meus encontros com a minha mãe. – completou em um tom descontraído, arrancando uma risada de Rebecca.

— Antes que você ache que eu só vim aqui saber da sua vida… – tentou soar descontraída, sendo que todos sabemos que foi somente para isso que ela foi até o escritório. – Você já ouviu falar da conferência de Engenheiros e Arquitetos?

— Que acontece em Miami? – Rebecca assentiu. – Claro!

— Você quer ir? O prazo de inscrição está acabando…

— Claro que eu quero ir! – respondeu animadamente, mas logo fez uma breve pausa, pensando no que significava aquela proposta. – A não ser que isso seja sua forma de fugir da conferência, então não. – sorriu de canto de rosto, de uma forma descontraída.

— Eu não estou fugindo da conferência. – Rebecca respondeu, ofendida. – Eu amo essa conferência. Único lugar que os engenheiros e arquitetos fingem que se amam.

— Desde quando? As duas vezes que eu fui se dessem armas de fogo ao invés do cronograma, essa guerra estaria no Wikipédia agora.

— Eu também fui duas vezes e no primeiro dia todo mundo fingiu se amar. Nos outros dois dias foi uma incógnita como não aconteceu um único homicídio.

As duas riram, lembrando de suas próprias experiências na conferência.

— Pode contar comigo. – Karina sorriu, divagando. Rebecca encarou-a por alguns segundos, completamente derretida naquelas covinhas desnecessárias. — Nós vamos ser tratadas como Romeu e Julieta. – completou Karina em um tom bem-humorado, tirando Rebecca do transe causado por covinhas.

— Eu vou pedir para a Camille fazer sua inscrição, então. – disse dando dois passos para trás, ignorando o comentário de Karina que utilizou um dos grandes romances da literatura como exemplo. – Agora eu vou trabalhar e deixar você trabalhar também.

— A comemoração ainda está de pé? – questionou Karina. Rebecca a encarou com uma expressão confusa. – O projeto aprovado pela prefeitura? Primeira rodada por minha conta já que não fomos ontem.

— Ah claro! Sim, claro que está de pé.

— Nos vemos mais tarde, então.

A única resposta que Rebecca conseguiu dar antes de deixar a sala de Karina foi um sorriso. Ainda estava desnorteada por causa das covinhas; do homicídio do ciúmes; de não ter que se preocupar com Karina tendo encontros de verdade.

Todos aqueles sentimentos por Karina somente existir ainda iam acabar a matando. Antes tivesse continuado ignorante sobre eles, assim pouparia um bom tempo que agora teria que gastar para descobrir a melhor forma de lidar com toda aquela atração.

Karina nunca se encaixou nos 43%, entretanto também não fazia parte dos 57%. Ela tinha noites e noites. Na verdade, depois dos 8 anos de terapia podia-se dizer que ela também fazia parte das pessoas que tinham uma boa noite de sono. Entretanto, chegar à conclusão de que ainda era apaixonada por Rebecca, estava afetando isso.

Quando disse que teria um encontro foi com a intenção de que Rebecca pensasse que ela sairia realmente com alguém, porém viu o quanto aquilo era estupido. Ser a pessoa que mente sobre os encontros que tem somente para tentar proteger os seus sentimentos ou atingir outra pessoa era alguém que ela não queria ser. Já não bastava o grande segredo que guardava, tendo que omiti-lo de Rebecca por não fazer ideia de como ela reagiria caso descobrisse.

Se continuava apaixonada por Rebecca era somente mais um dia normal em sua existência. No passado não conseguiu fazer absolutamente nada sobre isso, portanto no presente também deixaria com que as coisas corressem naturalmente. Era o seu seguir em frente. O seu superar de vez, certo? Sempre que acordava não havia superado absolutamente nada, mas essas coisas poderiam levar um tempo. Tempo era tudo que Karina tinha. Não pretendia ir a lugar nenhum dessa vez.

As duas se encontraram no final do expediente e foram a um bar que ficava a poucas quadras do prédio que trabalhavam. Durante todo o caminho foram conversando sobre coisas aleatórias, coisas que sempre faziam com que elas rissem sem nem ao menos se esforçarem.

A decisão de Karina ao inventar toda aquela história de encontro era para tentar se afastar de Rebecca. Menos de 4 horas depois, enquanto estava na casa de sua mãe, percebeu o quanto estava sendo idiota. E, aqueles poucos minutos de conversas e risadas até chegarem no bar, só reforçou isso.

Desejou tanto ser próxima da loira da forma que estava sendo, então não poderia jogar tudo para o alto por causa de uma paixão que continuava firme e forte. Por isso também decidiu não ser o tipo de pessoa que mentia sobre encontros que não existiram. Seu coração agradecia.

A risada de Karina cessou assim que chegou a mesa e deu de cara com Samantha e Elizabeth. Ela encarou a amiga, pedindo com o olhar que ela a seguisse e, mesmo contra a vontade, pois a conversa com a namorada estava muito boa, Samantha levantou e seguiu os passos de Karina para uns metros mais à frente.

— Viu? Eu disse que ela me odeia. – comentou Elizabeth, tomando um gole de sua bebida pelo canudo.

— O que vocês estão fazendo aqui? – Karina perguntou, um pouco confusa.

— A Liz me convidou. – Samantha respondeu tranquilamente. – Sei que pode não parecer por termos escondido esse relacionamento por um ano, mas a Liz não tem vergonha de sair comigo. Nós somos um casal como qualquer outro.

Karina piscou algumas vezes, confusa com algumas palavras que Sam havia usado naquela frase. Todo aquele namoro acabaria fundindo o seu cérebro, Karina tinha certeza absoluta disso.

— Primeiro… – Karina começou a contabilizar nos dedos. – O relacionamento não era secreto, vocês que eram. Segundo… – fez uma breve pausa, pensando no que mais tinha para falar. – Não tem segundo. Rebecca só esqueceu de me avisar que tinha chamado a Liz também.

— Na verdade a Liz ouviu a conversa da Rebecca com a Camille sobre isso e achou que era algum happy hour, então ela meio que foi obrigada a chama-la. – Samantha explicou. Karina ficou a encarando com uma expressão de paisagem por não saber como agir diante daquelas informações. Sua melhor amiga sabia mais do que ela sobre as coisas que acontecia na empresa em que ela trabalhava. – Será que podemos voltar à mesa agora para você dar uma chance a minha namorada? Você não estaria com essa birra toda se a Liz não tivesse um noivo.

Karina pensou em retrucar, porém achou melhor só voltar à mesa. No fundo, ela sabia que Samantha tinha razão. A única coisa que a impedia de gostar de Elizabeth era o fato dela ter um noivo e, também, o fato dela quebrar o coração de sua melhor amiga todo mês, mas se Samantha não se importava com nada disso ao ponto de todo mês voltar com a ruiva, bom…

— Então… – Karina sentou ao lado de Rebecca. – Eu ainda não sei como vocês viraram sócias.

Rebecca e Elizabeth se entreolharam, animadas com o progresso que aquela noite já estava tendo quando o assunto era Karina e Elizabeth.

— Nós nos conhecemos quando eu estava fazendo estágio na M.M. – Rebecca começou a contar animadamente. – Éramos vizinhas de cubículo, Liz sempre gostou mais de conversar do que trabalhar. – implicou, arrancando uma risada de todas, menos de Elizabeth que respondeu a implicância com uma careta. – Então, certo dia, ela vira para mim e fala: “Quando você terminar a faculdade, eu vou te ligar, pois vamos ser sócias”.

— Ela era a melhor estagiaria. Meu pai ficava louco com os projetos que ela…

— Espera… – Karina teve que interromper Elizabeth. – Você é filha do Michael Miller? – Elizabeth assentiu, como se aquilo não fosse nada demais. – O dono da maior construtora da Costa Leste? – Liz assentiu novamente. Nunca iria entender o choque das pessoas quando descobriam aquilo. – Uau! – foi a única coisa que Karina conseguiu dizer. Sua outra chefe era herdeira de metade de Nova York.

— É… Eu tive uma reação parecida com essa quando descobri. – relevou Rebecca. – Ela não parecia nenhum pouco com a filha do dono, então… – ergueu os ombros, divagando sobre o dia que descobriu que sua amiga de cubículo poderia se transformar em sua chefe quando bem entendesse. – Voltando… Eu não a levei a sério, claro, até que no dia da minha formatura ela me ligou, perguntando se eu ainda queria ser sócia dela. Foi tipo: “Querer eu quero, mas não tenho um centavo para isso” e ela: “Eu quero sua sociedade, não o seu dinheiro”.

— Amo pessoas ricas. – brincou Samantha, arrancando uma risada de todas. – Se um dia vocês brigarem e ela quiser a empresa toda para ela, pode me contratar. – mandou uma piscadela para Rebecca. A loira riu.

— Isso não vai acontecer. Eu dei minha parte da sociedade depois.

— Eu pensei que você ia dizer que isso não vai acontecer porque nunca vamos brigar. – disse Elizabeth, fingindo estar ofendida com a frase da amiga. – Sabia que deveria ter chamado a Amanda.

— Você odiava a Amanda. – Rebecca relembrou. Elizabeth deu de ombros.

O happy hour/comemoração da aprovação do projeto foi bem melhor do que Karina imaginou. Elas se deram conta que formavam um ótimo quarteto. Além de descobrirem que tinham bastante coisas em comum, embora fossem bem diferentes, elas também possuíam muitas histórias engraçadas.

Durante todas aquelas horas que ficaram bebendo e conversando, Karina pôde observar que Samantha ficava muito feliz na companhia de Elizabeth, uma felicidade que nunca viu estampada no rosto da loira com outras namoradas e, embora ela ainda tivesse seu pé atrás com a ruiva, chegou à conclusão que, do seu jeito, Elizabeth gostava de sua melhor amiga. Mas, muitas vezes, somente gostar não era o suficiente.

— Meu Uber chega em… – Rebecca olhou a informação em seu celular. – Um minuto. Tem certeza que não quer dividir?

— Nós moramos em lados bem opostos. – respondeu Karina em um tom descontraído. – Eu vou embora de metrô. – apontou para trás de si. – São sempre animados assim os happy hours?

— Camille faz aula de teatro todas as sextas a noite, Sasha não gosta de sair para beber com a gente… – Rebecca semicerrou os olhos, buscando em sua memória o motivo daquilo. – E eu não sei bem o motivo – concluiu após sua busca falha. — e Angela é alcoólatra em recuperação, então… – deu de ombros. – Esse happy hour só não foi melhor do que o happy hour que descobrimos que a Angela é uma alcoólatra e eu me sinto uma pessoa horrível sempre que falo isso.

Karina riu do jeitinho de Rebecca ao dizer aquilo, fazendo com que Rebecca risse também. Quando a risada cessou as duas ficaram somente se olhando, em completo silêncio. Se fosse possível, elas ficariam dessa forma para sempre. Elas gostavam de observar cada detalhe da feição da outra. O ar ficava mais leve, qualquer momento do dia ficava mais bonito e agradável, até mesmo o cheiro ao redor delas era diferente sempre que se perdiam naquela troca de olhares.

Sem contar com as sensações e sentimentos. Ambas sentiam-se leves quando estavam na presença uma da outra. Sentiam-se bem. E, o mais importante, sentiam-se felizes. Com o decorrer da última semana, elas começaram a possuir o sentimento de que o dia só estava completo se a outra estivesse fazendo parte desse dia também. Sentimento muito conhecido por ambas no passado, embora agora elas estivessem realmente presentes.

Todo o contato visual foi quebrado quando o Uber se aproximou. A bolha que se formava sempre que as duas ficam em silêncio somente se observando foi estourada. Rebecca nunca desejou tanto que o Uber demorasse mais do que o tempo estimado como desejou naquela noite. Quando ela estava atrasada eles não mantinham aquela pontualidade.

— Então… – Karina limpou a garganta, tentando se recompor. – Até segunda-feira.

Rebecca pensou em dar 1 estrela para o Uber. Se o motorista não tivesse acabado de chegar, ela não teria recebido aquele balde de água fria da realidade. Esqueceu-se completamente que só veria Karina novamente na segunda-feira. Quem foi que inventou os direitos dos trabalhadores? Por que sua empresa não era daquelas que obrigavam as pessoas a trabalharem de sábado e domingo também?

— Até segunda-feira. – foi o que restou para Rebecca dizer. Ela aproximou-se de Karina e depositou um beijo bem demorado na bochecha da morena.

Karina, como sempre, não esboçou nenhuma reação. O universo amava testá-la com aqueles gestos de Rebecca sempre que se despediam.

Devido a isso, Rebecca somente esboçou um fraco sorriso, um pouco desapontada com a falta de reação – ou atitude – de Karina e entrou no Uber. Talvez fosse melhor assim. Ela tinha um noivo, portanto não podia continuar querendo que Karina tomasse alguma atitude.

E, não era como se Karina fosse tomar alguma atitude. Se não existisse um noivo entre as duas, talvez as coisas fossem diferentes.

Ou não.

Ah quem sabe! Ela não era mais aquela garota tímida que tentava chamar a atenção de Rebecca com pequenos gestos ou somente conversava com ela por cartas, sem coragem de se revelar.

Naquela época até que era mais fácil, pelo menos não tinha um noivo. Bom, mas depois teve aquele cara.

É, nunca nada foi fácil na relação das duas. Por que agora seria? O que restava era continuar seguindo ou, quem sabe, ambas perceberem que possuíam sentimentos parecidos e, o que faltava, era somente coragem de uma das partes para dar o primeiro passo.

Ah se as coisas fossem fáceis assim.

Bruna Cezario

Aquela que dorme demais, come demais, fala demais, é fangirl demais, assiste séries demais, shippa demais, faz as pessoas sofrerem com suas histórias demais, farofa demais e tem dinheiro de menos. Prazer!

7 comentários em “Romântica Anônima: Capítulo 6 – 43% vs 57%

  • Fevereiro 2, 2018 em 8:25 pm
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    Antes de qualquer coisa gostaria de agradecer a vocês por todos os comentários. Eles estão me fazendo muito feliz, de verdade. Os comentários me fazem querer postar um capítulo por dia só para continuar alimentando esse vício de vocês hahahahahaha Mas, infelizmente não rola esse tipo de postagem tão recorrente (pelo menos não por enquanto) e é por isso que estou passando para avisar que semana que vem não terá postagem de capítulo novo porque estou enrolando com outras histórias (muitas devem saber de quais estou falando) e preciso urgentemente dar uma atençãozinha a elas, mas na outra semana deve ter capítulo novo normalmente, então… Obrigada por lerem, obrigada por comentarem, obrigada por todo o apoio que vocês estão me dando com essa história, está sendo importante demais ❤

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  • Fevereiro 3, 2018 em 1:22 am
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    A única coisa boa de não ter capítulo novo semana que vem é que eu vou parar de ficar atualizando a página toda hora feito besta.
    Deixando claro que eu preferia ficar atualizando feito besta!

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  • Fevereiro 7, 2018 em 1:46 am
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    comecei a ler hj e ja terminei e agora to louca pelo próximo cap!
    Amando a estória ♡

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    • Fevereiro 8, 2018 em 5:05 am
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      aaaaaaaaa Vou fazer de tudo pra vir rapidão o próximo capítulo. Muito obrigada ❤

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