Romântica Anônima: Capítulo 3 – Atum, cream cheese, queijo, alface, tomate e cebola

Ensino médio

Todo mundo algum dia na vida já imaginou uma conversa inteira com alguém. Às vezes isso é um ensaio para tomar coragem e realmente falar com a pessoa, outras vezes isso é somente o que a falta de coragem vai permitir. Inúmeras razões nos impede de fazer a imaginação virar realidade. A número um é o fato da realidade poder acabar com tudo que a imaginação construiu. Muitas pessoas preferem viver no platônico. Quem as culpa? Muitas vezes a realidade passa dos limites.

Karina imaginou vários cenários de diálogo com Rebecca desde a esbarrada. Todo dia que passava pela loira nos corredores da escola ou a via no intervalo, elas sempre tinham uma longa conversa com muitos assuntos em comum e risadas. Obviamente que isso em sua cabeça. Karina possuía consciência de que nunca conseguiria trocar uma frase inteira com Rebecca ou até mesmo uma palavra. Não sentia-se confortável diante da garota. Ela fazia com que suas mãos transpirassem, que seu rosto ficasse ardendo de tão vermelho que mais um pouco acabaria causando uma queimadura de terceiro grau e que seu corpo não a obedecesse. Se não conseguia se mover diante de Rebecca, como falaria algo? Por causa disso, Karina só observava Rebecca de longe e criava um mundo em sua cabeça onde as duas se davam bem.

— Eu queria fazer uma reclamação, mas isso seria injusto com as pessoas que passam fome. – disse Rebecca caminhando pelo refeitório ao lado de Julie.

— O que as pessoas que passam fome têm a ver com a sua reclamação? – Julie perguntou, confusa.

— Eu não aguento mais esses lanches naturais que minha mãe faz! – exclamou com um pouco de aborrecimento. – Ela nunca mais fez meu lanche favorito ou qualquer lanche que eu goste. – sentou-se em uma das mesas do refeitório. – Nem dinheiro ela quer me dar para eu pagar meu almoço. Falou que a comida da escola não é saudável. A televisão enlouquece as pessoas.

— Você sabe que com ou sem essa sua reclamação as pessoas que passam fome vão continuar passando fome, certo? – a amiga morena, de longos cabelos castanhos escuro e olhos um pouco puxados disse em um tom óbvio. – E se você quiser podemos sair para comer o “mais atum com queijo” depois da aula.

— Por mais tentador que isso seja, eu prometi que iria ajudá-la a pintar o lado de fora da casa. Quem sabe assim ela me alimenta com lanches melhores? – Rebecca disse em um tom divertido. Ela desembrulhou seu lanche e deu de cara com pão integral com queijo light. Fez uma careta, embrulhando o lanche novamente. – Nem as pessoas que passam fome comeriam uma coisa dessas.

Sem querer, Karina acabou ouvindo toda a conversa de Rebecca com Julie. Passava pela mesa das duas quando Samantha pediu para que ela lhe esperasse por te esquecido de pegar um suco para acompanhar o almoço. Ela poderia ter ido um pouco mais para frente ou ter voltado com a melhor amiga até o self-service, mas todo o dilema de Rebecca sobre o seu almoço de cada dia acabou lhe chamando a atenção e sendo responsável por mais uma série de conversas que as duas nunca teriam sobre os seus lanches favoritos. Da mesma forma que acabou dando a Rebecca uma excelente ideia.

Bom, ela achou que seria uma excelente ideia ao invés de assustadora. Ela era somente uma garota com uma paixão platônica, então temos que dar um desconto a ela.

Donna entrou na cozinha do apartamento na manhã do dia seguinte e encontrou Karina preparando um lanche. A cena em si não era estranha. Fazia muito tempo que Donna deixara de preparar os lanches da filha por Karina se achar crescida o suficiente para fazer o seu próprio lanche. A garota esquecia-se que era a única filha de sua mãe, portanto poderia ter 80 anos, ainda assim não estaria crescida o suficiente para absolutamente nada na visão de Donna.

— O que você está fazendo? – a preparação do lanche em si poderia não ser estranha, mas o tipo de lanche que Karina estava preparando causou um pouco de estranheza em Donna sim.

— Meu almoço. – Karina limitou-se a dizer, embora soubesse que não iria ser o suficiente para sua mãe.

— Desde quando você gosta de… – Donna pegou um pote na mão. – Cream cheese? – devolveu o pote para o balcão. – Lembro de você dizer que cream cheese é o pior queijo que já inventaram.

— Eu disse isso? – Karina se fez de desentendida e voltou sua atenção no pão em formato bengala em sua frente.

— Karina Louise Prince… – a mulher disse o nome completo da filha em um tom ameaçador e cruzou os braços.

Karina soltou a faca que usava para passar maionese no pão em cima do balcão e soltou um longo suspiro, vencida. Nunca conseguia guardar as coisas para si mesma quando Donna dizia o seu nome inteiro.

Donna era um exemplo de boa mãe. Quase nunca tratava Karina com gritos excessivos, broncas desnecessárias ou a culpava por todas as coisas ruins que aconteciam no mundo, como a maioria das mães dos amigos de Karina costumavam fazer, de acordo com os relatos. Mas isso não fazia com que Karina sentisse menos medo quando a mãe lhe chamava pelo nome inteiro. Odiava achar que estava em apuros.

— É o lanche favorito de uma garota. – respondeu em um tom tedioso. Sabia muito bem o questionário que estava por mim.

— Uma garota? – Donna esboçou um largo sorriso, animada com o que ouviu. – Qual o nome dela? Ela te trata bem? Você já conversou com ela?

— Claro que eu já conversei com ela!

Karina resolveu omitir o fato de que o seu “conversou” significava palavras desconexas que disse a Rebecca dias atrás quando esbarrou nela. O único contato direto que tiveram. Não queria que a mãe voltasse a se preocupar com a sua falta de capacidade de se comunicar com outras pessoas.

Donna não falava sobre aquilo, mas Karina sabia que a mãe passou muito tempo se culpando por ela não ter amigos, achando que isso era consequência da mudança de estado. Nos dias de hoje, sobre isso, Donna era mais tranquila graças a Samantha ter entrado na vida de sua filha. Mas, agora, Donna se culpava por tudo que acontecera na antiga escola, por não ter percebido os sinais, embora eles não existissem, Karina sempre foi muito boa em guardar as coisas para si mesma. Donna tinha medo que o ocorrido fizesse com que Karina voltasse a se isolar, a não conversar com outras pessoas a não ser com ela e, as raras vezes com Paul. Por algum tempo tentou fazer com que a filha fosse para a terapia e, todas as vezes, Karina recusou.

Karina não achava que tinha um problema. Ela só era tímida ao extremo e, pelas leituras que fizera, isso se resolvia com teatro, mas ela odiava atuar. Quando começou a conversar com Samantha, o assunto terapia desapareceu e ela queria que continuasse assim.

— Como ela é? – Donna continuou demonstrando entusiasmo com a nova paixão da filha, aliviada realmente por ela conversar com a garota.

— Ela parece um ser angelical, mãe. – Karina respondeu, divagando por alguns instantes lembrando do sorriso e do som da risada de Rebecca. Donna sorriu devido ao brilho nos olhos cor de mel e sorriso apaixonado que sua filha abriu por causa de todo o devaneio. – Esse é o lanche favorito dela. Só queria fazer uma surpresa. – disse após voltar de seu mundo encantado onde só existia Rebecca.

— Não vou mais te atrapalhar, então. – Donna ergueu os braços em forma de redenção. – Vocês Prince, sempre tentando ganhar as mulheres pelo estômago. – deu um beijo na bochecha da filha, ainda sem conter toda a sua animação por ver sua garota toda apaixonada. – Fazem muito bem.

Com o incentivo da mãe, Karina tornou-se mais determinada ainda em fazer aquele lanche e entrega-lo para Rebecca. Bom, entregar não era bem a palavra certa. Em nenhum momento passou pela cabeça da garota abordar Rebecca e lhe entregar o lanche. E, por isso também que ela precisa de um desconto por ser uma adolescente apaixonada, mas extremamente tímida.

Samantha odiou aquela ideia até o último segundo, mas mesmo assim resolveu apoiar a amiga. Quem sabe que com pequenos passos, como foi com ela, Karina conseguia finalmente se comunicar feito uma pessoa normal com Rebecca? Por isso que ela usou todo o seu conhecimento sobre o segredo da maioria dos armários dos alunos da escola para abrir o armário de Julie. O plano inicial era colocar o lanche diretamente no armário de Rebecca, mas mais cedo Karina ouviu a garota dizendo que não iria comer absolutamente nada durante o almoço, pois novamente sua mãe havia feito um lanche horrível para ela. Portanto, Karina colocou o lanche no armário da melhor amiga de Rebecca juntamente com um cartão escrito “Espero que esteja do seu agrado” assinado com as iniciais “R.A” e esperou ansiosamente até a hora do intervalo.

Novamente Karina imaginou dezenas de cenários para o que aconteceria quando Rebecca recebesse o lanche, mas a garota jogá-lo fora quando o sinal bateu indicando o fim do intervalo não estava em um deles. De começo, a morena ficou muito chateada. O que de errado tinha com o seu lanche? Será que tinha colocado atum demais? Ou de menos? Muita cebola? Não era aquela marca de cream cheese que ela costumava usar? Só que se deu conta de que, se Rebecca recebeu a mesma criação que ela, nunca que iria aceitar um lanche de um estranho. Uma coisa era receber um lanche de alguém conhecido, de alguém com quem ela trocou algumas palavras, de alguém que ela sabia o nome e a existência, outra coisa bem diferente era receber um lanche de alguém que o deixou no armário de sua melhor amiga com um cartão. Nenhuma pessoa que recebeu o discurso de todos os possíveis modos de como ser envenenado por um desconhecido aceitaria um lanche daqueles.

Mas, algo que deu esperança a Karina após ver o lanche que preparou com tanta dedicação e entusiasmo ser jogado no lixo foi que Rebecca guardou o cartão no bolso da calça jeans junto com o guardanapo que estava usando para desenhar. Isso foi o suficiente para que Karina não desistisse da “R.A”.

Também foi o suficiente para que no futuro Karina entendesse que possuía um problema muito maior do que somente timidez. Mas, como eu disse, somente no futuro.

Atualmente

— Você não precisa dizer absolutamente nada, se não quiser, claro. – Rebecca disse assim que as portas do elevador de uma das maiores imobiliárias de Nova York abriram.

Ela estava extremamente nervosa e não conseguia esconder de ninguém. Durante todo o percurso Rebecca repetiu dezenas de vezes o quanto aquele projeto era importante e o quanto ela queria que fosse escolhido, tentando explicar todos os detalhes para Karina. Era o mínimo que poderia fazer por tê-la arrastado ali sem mais nem menos e sem nenhum preparo.

Após selarem a contração com um aperto de mão, Karina se predispôs a começar imediatamente. Fazia alguns meses que estava sem trabalhar devido a sua demissão por causa do episódio do prédio torto, portanto não via a hora de estar envolvida em um novo projeto. O fato de trabalhar junto com Rebecca também foi um fator decisivo, entretanto não o principal motivo para sua decisão. Ela amava mesmo sua profissão e teria aquela posição com qualquer outra pessoa que lhe contratasse. A engenheira só queria mesmo voltar a trabalhar, e ter sua paixão de adolescência trabalhando ao seu lado era somente um bônus.

Por isso que Karina estava acompanhando Rebecca na reunião que teria na imobiliária. Seria o primeiro projeto das duas juntas caso fosse aprovado. Ela ouviu atentamente tudo que a arquiteta explicou sobre o projeto, a forma que iria abordar a sua ideia na reunião, entretanto existiam alguns fatores muitos complexos para uma explicação de 15 minutos, então ela só se atentou ao básico e decidiu que para aquele projeto seria somente um apoio moral. Não iria abrir a boca correndo o risco de estragar tudo.

— Sério mesmo, Rebecca? – um homem moreno, trajando um terno caríssimo indagou assim que viu a loira se aproximando acompanhada de Karina. – Isso tudo é desespero? – colocou a mão no canto da boca, simulando um sussurro. — Essa é a “entortadora” de prédios. – sussurrou debochadamente para o homem mais velho que estava sentado ao seu lado, apontando descaradamente para Karina. – Eu esperava mais de você, Rebecca.

— Eu também esperava mais de você, Mark, mas o que é a vida sem algumas decepções, não é mesmo? – Rebecca retrucou com deboche. O homem de cabelos bem cortado e uma boa aparência (quando não abria a boca), sorriu cinicamente.

Karina limitou-se somente a observar a interação dos dois. Não sabia qual era a história, mas a tensão entre os dois era tão forte que mais um pouco se tornaria palpável no ar. Era evidente o quanto os dois se desprezavam. Por sorte, antes que os olhares cheios de faíscas iniciassem um incêndio no prédio, a secretária avisou que eles poderiam entrar no escritório.

— Bom dia senhoritas e senhores. – Anthony, o CEO da imobiliária, os cumprimentou com um largo sorriso e, logo em seguida, cumprimentou um por um com um aperto de mão. – Eu espero que o projeto que vocês me prometeram seja mesmo excelente porque eu estou em uma corda bamba aqui.

— Você sabe que eu sempre tenho excelentes projetos, Anthony. – Mark disse em um tom convencido, lançando um olhar provocador para Rebecca. – E esse com toda certeza é um deles.

Mark projetou a tela do Ipad que tinha em mãos para o grande telão que possuía no escritório de Anthony e, sem nem ao menos ser pedido para que fosse o primeiro, Mark iniciou a apresentação de seu projeto.

A única coisa que Rebecca fez durante aqueles vinte minutos foi revirar os olhos a cada palavra que saia da boca do engenheiro. Todo o jeito descontraído que antes ela adorava e até mesmo admirava em Mark, agora lhe causava náuseas. Cada vez que ele esboçava um sorriso, exibindo aqueles dentes perfeitamente brancos, a vontade que a arquiteta tinha era de sentar a mão na cara dele.

Na vez de Rebecca, Mark fez de tudo para tentar desestabilizá-la durante os seus 20 minutos de apresentação. E, em fazer de tudo, entende-se por ficar sentado na poltrona olhando-a falar com um de seus sorrisos mais cínicos. Recentemente havia descoberto o quanto o seu sorriso a irritava e sempre que podia tentava tirar algum proveito disso. Entretanto, o que Mark não esperava era que, pelo menos naquele dia, seus sorrisos cínicos não afetariam a loira pelo simples fato de a todo momento ela procurar refúgio nos olhos cor de mel de Karina.

Toda vez que Rebecca achava que iria desconcentrar-se ou entrar na pilha de Mark, automaticamente sua atenção era atraída por aquele par olhos que lhe olhavam com tanta ternura e admiração. Poderia ter acabado de conhecer Karina, mas a forma que a engenheira lhe olhava trazia um sentimento de segurança, e ela gostava disso.

— Os dois projetos são excelentes, mas vocês não resolveram o meu problema. – o homem negro disse, trazendo um pouco de decepção em seu tom de voz. – Nós não podemos derrubar aquela maldita árvore. – ele apontou para a foto do terreno que agora aparecia no telão. A área era possuída por muito verde que, inicialmente, boa parte dela seria mantida, mas a árvore sempre era um empecilho em todos os projetos de construção do prédio. – Se vocês não me trouxerem uma solução, agora, vou ter que ir atrás de outras empresas.

— Vamos derrubá-la e plantá-la em outro lugar. – disse Mark com um certo desdém em seu tom de voz. – Querem tanto que essa árvore seja preservada, então que seja preservada em outro lugar que as pessoas possam passar por ela e não se importar, pois, convenhamos, os ambientalistas nem lembravam que essa árvore existia até anunciar que um condomínio seria construído no terreno.

— A árvore é histórica. – Rebecca relembrou. Mark fez uma careta. Se fosse possível não se importar mais do que já estava não se importando com aquela árvore, ele estaria não se importando. – Ela não pode simplesmente ser plantada em outro lugar. E, se pudesse, a obra já começaria com prejuízo por causa do valor do transporte para mover a árvore.

— Isso é o óbvio, não uma solução. – observou Anthony. – Não podemos mesmo derrubar aquela árvore ou muda-la de lugar. As pessoas estão prontas para começar uma manifestação com direito de se amarrar na árvore, então…

— Nós podemos… – Karina pediu licença, pegando o Ipad de Rebecca. Ela fez algumas modificações no projeto, sendo naqueles segundos o centro das atenções de todos naquele escritório. – Fazer isso. – ela projetou as alterações na grande tela.

Tanto Rebecca quando Anthony olharam para aquelas alterações bastante maravilhados. O projeto continuava fiel ao que foi pedido e ainda conseguiria preservar a árvore. Mark revirou os olhos, como alguém poderia pensar em construir algo daquele tipo quando o seu projeto era bem mais moderno, completo e menos clichê?

— Senhores, se não tiverem uma contraproposta, eu acho que já tenho a minha escolha. – avisou Anthony. Ele estava realmente satisfeito com o projeto que tinha em sua frente.

Mark bufou. Ele não conseguia pensar tão rápido quanto Karina para criar uma contraproposta em segundos, e mesmo se conseguisse, seu projeto era muito complexo, precisaria de pelo menos meia hora para conseguir mudar absolutamente tudo.

Maldita árvore.

Rebecca saiu do escritório muito realizada e feliz. Parte de si estava feliz por Anthony ter escolhido novamente um projeto seu, outra parte estava feliz por causa da expressão indignada de Mark por seu projeto não ter sido escolhido. Isso tornou a satisfação maior ainda. Essa era somente a primeira das centenas de vezes que ela planejou tombar Mark sempre que tivesse que disputar um projeto com ele.

— Eu estou te devendo um almoço. – Rebecca disse assim que as duas entraram no elevador. – Uma semana de almoço, um mês, um ano, o tempo que você quiser! – continuou, sem conter a felicidade.

Karina riu, achando adorável toda a animação de Rebecca. Mas quando era que ela não achava tudo que Rebecca fazia adorável?

— 3 horas atrás eu estava te devendo uma lavanderia e agora você me deve um ano de almoço? O que aconteceu? – perguntou sem conseguir conter o sorriso por ver Rebecca tão feliz.

— Você não faz ideia do quanto eu queria que esse projeto fosse escolhido.

— Eu acho que faço. Você repetiu isso umas dez vezes durante todo o caminho até aqui. – Karina respondeu em um tom divertido. Rebecca soltou uma risada, sem graça.

— Me desculpa, eu não queria ser chata…

— Você não tem nada que se desculpar. – Karina passou na frente, impedindo que Rebecca continuasse com o pedido de desculpas. — Vai ser legal trabalhar com alguém que ama o que faz tanto quanto eu. Eu estava sentindo falta disso, sabia?

— Já que é assim… – Rebecca puxou Karina pela mão para fora do elevador. – Vamos, eu vou te pagar o almoço.

Karina riu por causa do jeito espontâneo da arquiteta. Rebecca definitivamente não tinha mudado absolutamente nada. Poderia ser uma mulher de 30 anos, mas continuava tendo a mesma meiguice da garota de 16 anos que conhecera e se apaixonara no ensino médio.

O único problema (ou não) era que o coração de Karina continuava tendo as mesmas batidas descompensadas de quando ela era a garota de 17 anos apaixonada pela garota de 16 anos. Seria possível que, mesmo depois de todos esses anos, ela continuasse apaixonada por Rebecca? Ou isso era somente pelo fato dela ter sido sua paixão platônica da adolescência? Esse poderia ser o fechamento que ela precisava para que sua vida amorosa finalmente entrasse nos trilhos. Karina tinha absoluta certeza que isso era o que seu terapeuta diria, caso ela ainda precisasse dele.

O jeito de Rebecca era realmente tão espontâneo e sem nenhuma maldade que ela andou algumas quadras de mãos dadas com Karina até chegar na lanchonete que iria pagar o almoço da arquiteta que nem percebeu. Bom, não percebeu era um exagero, na primeira vez que foram atravessar a rua ela percebeu sim que estava de mãos dadas com a morena, mas como Karina não havia dito absolutamente nada, ela que não ousou encerrar aquele contato. As mãos de Karina eram tão firmes e macias. Mais uma vez lhe passava a sensação de segurança. Rebecca também gostou da forma que as borboletas em seu estômago voltaram. Fazia muito, mas muito tempo mesmo que ela não as sentia daquela forma. Na verdade, a última vez que sentiu algo parecido com aquilo, nem ficar frente a frente com a pessoa havia ficado.

Karina sorriu ao se dar conta a qual lanchonete havia sido levada para ter o seu almoço pago. Definitivamente o “More Cheese, please” era o McDonals, Burguer King ou Subway da Rebecca. Poderia passar quantos anos fossem, aquela continuaria sendo sua lanchonete favorita, da mesma forma que havia lhe dito anos atrás.

Não dito diretamente para Karina, mas vocês entenderam.

— Eu espero que você não seja vegetariana ou geração saúde. – Rebecca disse sem jeito, novamente fazendo com que o coração de Karina batesse descompensado em seu peito por causa de toda sua meiguice.

— Quanto mais carne para mim melhor. – Karina respondeu com um sorriso, acalmando o coração de Rebecca. Acalmando mais ou menos, na realidade, pois sempre que a morena sorria, o coração de Rebecca parecia que ia sair pela boca. Ela tinha um sorriso tão lindo, apaixonante e encantador. – Atum, cream cheese, queijo, alface, tomate e cebola, certo?

— Desculpa? – Rebecca demorou um pouco para processar a nova informação. Ela franziu o cenho, encarando Karina com um pouco de estranheza. – Como você sabe qual é o meu sanduíche favorito?

Muito bem, Karina!

A engenheira se amaldiçoou mentalmente por aquele furo. Por que ainda conseguia ser tão estranha quando queria? Não, não era estranha. De acordo com o seu terapeuta, essa era a forma que agia sempre que estava em uma situação em que se sentia confortável, da mesma forma que essa era a forma que agia quando estava em uma situação desconfortável. Por sorte, os oito anos de terapia fizeram com que ela aprendesse a lidar muito bem com aquilo também.

— Você não foi a única que fez suas pesquisas, tudo bem? – disse em um tom descontraído, mandando uma piscadela para Rebecca, como se não tivesse acabado de contar uma grande mentira. Mas o que ela poderia fazer? Não podia simplesmente dizer: “Eu sei disso porque eu era a R.A. Lembra dela? Então…”. É, não podia mesmo.

— As pessoas têm uma obsessão sobre a minha comida favorita sempre que vão me entrevistar. – Rebecca respondeu com o mesmo tom descontraído. – Mas quem tem que me dizer o sanduíche favorito é você, eu que vou pagar.

Elas fizeram os pedidos. Na verdade, Rebecca fez, Karina somente a acompanhou e as duas entraram em uma conversa descontraída sobre os seus lanches favoritos.

Todo o assunto fugiu do imaginável de Karina. Nenhuma das conversas que havia pensado anos atrás quando imaginou as duas entrando naquele assuntou chegou perto de todas as risadas e piadas que fizeram. Pelo menos dessa vez a realidade ganhou de lavada da imaginação.

Tudo tem seu tempo certo, certo? Quem acredita em Deus diz que tudo acontecesse no tempo Dele, e não importa o quanto pedimos para que tal coisa se concretize, ela só vai mesmo quando chegar a hora certa.

Para quem não acredita, o tempo certo também existe. É o famoso esperar que o universo conspire ao favor. Ele sempre conspira, só é necessário prestar atenção, e caso ele não conspire quando você deseja é porque coisas melhores estão sendo guardadas para o futuro.

O importante é não perder a fé ou o pensamento positivo. Quanto mais pensamos em coisas boas, quanto mais pensamos que os nossos pedidos vão se realizar, mais coisas boas vamos atrair. Isso não é conversa ou coisas que as pessoas dizem somente por dizer. Pensar positivo sempre atrai coisas boas, às vezes não o que você deseja, mas como foi dito, tudo em seu tempo.

Demorou 14 anos para que Karina conseguisse conversar com Rebecca. Ela pediu durante muito tempo que Deus e o universo fizessem com que ela perdesse toda a timidez e conseguisse conversar com a garota. Precisou que Karina fosse até o inferno e voltasse para que isso acontecesse, mas finalmente tinha conseguido. Era visível o quanto a morena não conseguia esconder toda a sua felicidade e animação por estar conversando com a sua paixão da adolescência.

Às vezes ela olhava Rebecca com tanta intensidade e carinho que a loira corava. A sensação era boa. As borboletas em seu estômago sempre davam as caras por causa disso, e ela não queria explicação para o motivo disso acontecer por causa de alguém que conhecia por menos de um dia. A semana mal havia começado e Karina já era a melhor coisa que tinha lhe acontecido. Sempre gostou de pessoas divertidas, que entravam em seus papos descontraídos ou começava um papo descontraído. Sempre gostou de rir, e durante toda a conversa com Karina, foi o que mais fez. Estava feliz por tê-la encontrado, e mais feliz ainda por saber que iria vê-la todo dia.

— Posso fazer uma pergunta? – Karina perguntou um pouco receosa. Não queria estragar o dia melhor do que seus anos de imaginação por causa de uma pergunta, entretanto a curiosidade era maior. — Não precisa responder se eu estiver sendo evasiva demais. – Rebecca sorriu simplesmente, achando adorável todo o jeito sem jeito de Karina e assentiu com a cabeça, como se dissesse que ela podia perguntar o que bem entendesse. – Qual a sua relação com o Mark?

— Minha relação com o Mark? – Rebecca repetiu. Karina assentiu com a cabeça, arrependendo-se no mesmo instante de ter feito aquela pergunta. – Bom… – ajeitou-se na cadeira e tomou um gole de seu refrigerante no canudo. Karina segurou-se para não sorrir. Rebecca sempre franzia o cenho, olhando de uma forma ingênua a pessoa que estava em sua frente enquanto tomava o refrigerante. Não era intencional, era somente o seu jeito e mais uma forma de ser confundida com um ser angelical, e Karina sempre achou aquilo adorável. – Ele era o meu engenheiro antes de você. Eu e a Liz começamos a “View” e um tempo depois o contratamos. Só que recentemente ele roubou um projeto meu e vendeu para a atual empresa que está trabalhando.

— Você não o denunciou? Processou?

Rebecca riu de nervoso, balançando a cabeça em negativo. Sempre ficava bastante indignada quando entrava naquele assunto.

— Não tinha como eu provar que era meu. Somente ele sabia da existência do projeto e fez questão de que continuasse assim. Ele apagou qualquer rastro para que eu não tivesse provas o suficiente para processá-lo.

— Sinto muito. – Karina disse, complacente. Conseguia ver nos olhos azuis de Rebecca o quanto aquele assunto lhe chateava. Rebecca simplesmente esboçou um sorriso afetado e voltou a tomar o restante de seu refrigerante. – Como isso não te fez mais minuciosa na hora de contratar alguém? Quero dizer…

— Quem disse que eu não fui? – retrucou, abrindo um singelo sorriso. – Como eu disse, tudo que eu precisava saber sobre você, eu fiquei sabendo. Não acho certo julgar todas as pessoas por causa de uma única pessoa. Se eu achar que todo mundo que eu contratar vai me passar a perna, de duas a uma, ou eu não vou contratar mais ninguém, nunca mais ou vou enlouquecer por nunca mais confiar em ninguém. Eu não quero viver e nem trabalhar dessa forma, então, por favor, não me traia. – Rebecca esboçou um sorriso, tentando passar descontração em suas palavras, mas no fundo ela estava quase suplicando para que Karina não agisse pelas suas costas da mesma forma que Mark fez. Não sabia se conseguiria continuar pensando daquela forma se passasse por outra decepção.

— Não se preocupe, eu não vou. – Karina respondeu com um sorriso. Somente aquele gesto tranquilizou o coração de Rebecca e, novamente, ela não se questionou do motivo daquilo acontecer, do motivo de sentir-se tão à vontade com aquela mulher que acabara de conhecer.

— Obrigada.

— Pelo o que?

— Por ter feito o meu projeto ser escolhido. Isso significou muito, sério.

— Eu estou trabalhando com você, então… – Karina ergueu os ombros. – E depois dessa história, eu não fiz mais do que minha obrigação. Estou muito ansiosa para tombarmos o Mark mais vezes.

Rebecca riu com muito gosto por causa da bobeira cheia de verdade da engenheira. Karina sorriu por ter sido responsável por ter feito Rebecca rir. Não que isso fosse difícil, a loira era uma pessoa muito fácil de se fazer rir, mas mesmo assim ela sentia uma felicidade imensa com aquilo, juntamente com outras dezenas de sentimentos que ela achou que havia ficado no passado.

O celular de Rebecca tocou.

— Oi coração. – ela atendeu, prontamente.

O sorriso de Karina desapareceu instantaneamente. Ela não conseguiu prestar atenção em absolutamente mais nada que foi dito na conversa por causa da forma que Rebecca atendeu ao celular. Era óbvio que o universo colocaria Rebecca em seu caminho novamente, mas colocaria outra pessoa junto com ela. Não que Karina acreditasse que teria alguma chance com a loira agora, ainda não tinha pensado sobre isso. Passou a metade daquele dia apreciando o fato de finalmente conseguir se comunicar com Rebecca, ainda não havia parado para analisar com mais calma se tudo que estava sentindo era somente vestígios de sua paixão da adolescência ou se, mesmo depois de todos esses anos, ela continuava mesmo apaixonada pela arquiteta.

— Meu noivo. – Rebecca disse com um largo sorriso, apontando para o aparelho em sua mão. Karina desceu os olhos até a mão esquerda da loira a procura de uma aliança, algo que desde cedo havia percebido que não tinha em seu dedo, mas precisava certificar-se novamente. – Foi por isso que ele me ligou. – riu ao perceber o olhar de Karina para o seu dedo. – Ele achou a minha aliança. Eu perdi ontem na nossa casa. Na casa que estamos construindo para morar juntos.

As palavras vieram como um soco no estômago de Karina.

Fazia 8 anos que não tinha nenhum tipo de contato com a Rebecca, portanto não podia esperar que a arquiteta estivesse totalmente desimpedida. Para falar a verdade, ela não podia esperar absolutamente nada referente a vida pessoal de Rebecca. Na cabeça da arquiteta elas eram duas estranhas que acabaram de se conhecer, e por sorte se deram bem desde o começo. Rebecca nem sonhava que a mulher em sua frente era a R.A, e Karina não tinha planos de contar, – pelo menos por agora – então teria que engolir todo aquele mal estar por descobrir que sua paixão platônica da adolescência tinha um noivo e começar a lidar com aquilo. Conviveria 10 horas por dia, durante cinco dias por semana com Rebecca e ninguém poderia garantir que o noivo dela não era aquele cara.

Karina abriu um sorriso amarelo, começando a sua missão de começar a lidar com aquela nova informação e perguntou:

— Quando vocês casam?

— Daqui cinco meses.

Karina abriu outro sorriso amarelo, sentindo seu estômago doer mais um pouco por causa do outro soco de palavras que levou. Não ia ser fácil, mas já havia passado por coisas piores.

— E você? Namora? Está saindo com alguém?

— Não. – confirmou a resposta com um balançar de cabeça. Curiosamente, o coração de Rebecca encheu-se de alegria com a informação. – Eu estava saindo com alguém em Los Angeles, mas decidimos que relacionamento a distância não era algo que queríamos fazer.

Rebecca sorriu largamente, novamente ignorando o fato de fazer aquilo.

Não demorou muito para que as duas engatassem em mais uma conversa descontraída, esquecendo do assunto relacionamentos. Infelizmente foram interrompidas pelo trabalho. Rebecca precisava lidar com alguns projetos em andamento e Karina precisava dar entrada oficialmente como nova funcionária da “View”. Por isso que durante o restante do dia as duas quase não tiveram mais contato, porém ambas esperavam ansiosamente pelo dia seguinte, torcendo para que ele fosse tão bom quanto aquele dia.


Karina chegou em casa passava das 18 horas. Samantha permanecia no mesmo lugar no sofá, com o mesmo pijama, televisão ligada e um pote de sorvete na mão. A mesa de centro estava cheia de papel de chocolate, saco de batata e outro pote de sorvete vazio.

— Olha quem está viva! – Samantha disse em tom debochado pousando o pote de sorvete em cima da mesa de centro. – Eu estava quase chamando a polícia. Quando acabasse esse episódio, claro. – apontou para televisão pausada em um episódio das Meninas Superpoderosas.

— Me desculpa! – Karina pediu verdadeiramente arrependida por ter esquecido de pelo menos mandar uma mensagem para a melhor amiga. – Eu ia te ligar, mas aconteceu tanta coisa… – ela parou na frente de Samantha, do outro lado da mesa de centro. – Eu consegui o emprego! – contou, animada.

— Você… – Samantha levantou do sofá, processando o que Karina acabara de dizer. – Eu sabia que você ia conseguir! – ela pulou a mesa de centro, quase caindo para a frente porque a extensão da mesa era maior do que suas pequenas pernas de alguém que não media mais de 1 metro e 65 e abraçou a amiga pelo pescoço, imensamente feliz. – Parabéns Prince!

— Você sabe que eu não teria conseguido sem você. – Karina disse no instante que se separaram do abraço. – Obrigada.

— Eu só consegui a entrevista. O mérito é todo seu. – Samantha deu a volta na mesa dessa vez para evitar qualquer tipo de quase acidente e pegou o celular em cima do sofá. – Nós precisamos comemorar! O que você quer comer de jantar? Eu vou pagar tudo. Ainda bem que não bebi as bebidas que comprei. O sorvete estava muito mais gostoso.

Karina riu. Samantha era a única pessoa que conhecia que ao invés de encher a cara de álcool na fossa, enchia-se de besteira, como se fosse uma adolescente em sua primeira paixão. Uma parte de si era grata por isso. Samantha ficava tanto na fossa ultimamente por causa desse relacionamento que se fosse do tipo de pessoa que se afundava em bebida, estaria no estágio de ser considerada uma alcoólatra.

— O que é melhor do que pizza e cerveja para comemorar? – disse Karina em um tom convencido. Samantha apontou para ela, fazendo um barulho com a boca e mandando uma piscadela, como se dissesse “essa é minha garota”. – Sabe uma coisa engraçada que aconteceu hoje no trabalho?

— Tirando o fato de você ter trabalhado no primeiro dia? – Samantha indagou em um tom debochado. Juntando os pontos ela imaginou que esse foi o motivo da amiga ter chegado aquela hora em casa. Karina assentiu, fazendo uma careta. – O que?

— Rebecca Mitchell é a minha chefe.

— Quem é Rebecca Mitchell? – Samantha perguntou, desistindo da ligação que estava prestes a fazer para a pizzaria. Tinha a sensação de que não ia conseguir concluir o pedido caso Karina a respondesse.

— Como assim “quem é Rebecca Mitchell”?

— Sabe quantas Rebecca Mitchell devem existir em Nova York?

— “A” Rebecca Mitchell.

Samantha soltou um longo suspiro e começou a contar até 100 mentalmente, tentando manter o controle. Por que não podia ser outra Rebecca Mitchell?

— Você vai pedir demissão amanhã mesmo. – ela disse em um tom firme.

— Não, eu não vou. – respondeu Karina entre risos nervosos. – Por que eu faria uma coisa dessas?

— Por que você faria uma… – Samantha passou a mão pelos cabelos loiros e soltou um riso de nervoso. – Você esqueceu o que aconteceu da última vez? – disse quase em um grito. Samantha começou a andar de um lado pelo outro da sala. Estava visivelmente abalada com aquela conversa.

— Não foi culpa dela e você sabe muito bem disso. – disse Karina em um tom neutro. Não queria transformar aquela conversa em uma discussão. — Agora é diferente. Eu consigo me expressar.

— Ela faz mal para você, Karina! Será que você não consegue entender isso?

— Ela faz mal para mim? – Karina riu, irônica. – E o que essa sua namorada invisível faz a você? Olha o seu estado, Samantha! – gesticulou para a amiga, olhando-a de cima a baixo, fazendo uma careta. – Eu tinha um problema. Você tem o que?

Samantha riu, desacreditada de tudo que estava ouvindo. Não fazia nem dois minutos que o assunto Rebecca Mitchell voltara a ser pauta e as duas estavam dizendo coisas que sabiam que iam se arrepender em questão de minutos porque a amizade das duas era muito mais do que aquilo.

— Quer saber? Foda-se você! – Samantha cuspiu as palavras e deu de costas para Karina, andando em direção ao corredor que dava para os quartos.

Exatos 42 minutos se passaram até que Samantha desse o primeiro passo de ir até o quarto de Karina para tentar dessa vez ter uma conversa civilizada.

— Me desculpa. – Samantha disse parada na entrada do quarto da amiga. Karina esboçou um sorriso afetado, pousou o celular na mesinha ao lado da cama e fez um gesto para que a amiga entrasse de vez em seu quarto.

— Me desculpa. – ela também disse. – Eu não deveria ter dito aquilo.

— Você não disse nenhuma mentira. – Samantha respondeu, sentando-se ao lado de Karina na cama. – Só que eu também tenho um problema. O nome dele é amor. – ela abaixou a cabeça, sem graça por dizer aquilo em voz alta. Nunca foi contra o amor, contanto que não fosse justamente aquele tipo de amor que estava vivendo. – Eu quase perdi você, Karina.

— Isso não é verdade. Da onde você tirou uma coisa dessas?

— Eu sou a única que lembra daquele dia ou…? – ela deixou no ar o restante da frase. – Você era qualquer outra pessoa ou coisa, menos você.

— Eu me tratei, você sabe disso. Nunca mais eu vou ter uma crise daquela.

— Quem garante que não vamos descobrir outra doença causada pela Rebecca?

— Meu terapeuta. Ele já disse que eu nunca tive uma doença causada pela Rebecca. Ela foi o meu pedido de socorro.

Samantha fez uma careta, vencida. Ela sabia que Rebecca não era mesmo a principal responsável pela crise que sua melhor amiga teve 8 anos atrás, mas ainda era difícil não associar uma coisa com a outra.

— Como foi vê-la depois de todos esses anos?

— Surpreendentemente bom. Nós conversamos, muito. – abriu um sorriso orgulhoso. Samantha riu, dando um tapa de leve no braço de Karina por causa da bobeira.

— Por favor, não me diga que a Romântica Anônima vai voltar. – o tom de voz beirava a um falso desespero, embora era isso que iria sentir caso a resposta de Karina fosse afirmativa.

— Claro que não! – respondeu Karina tratando a pergunta como um grande absurdo. – Nenhuma romântica vai voltar. Ela tem noivo.

— Qual o problema dessas mulheres em noivarem com homens? – Samantha questionou com uma indignação real. – Credo! – sacudiu-se, simulando calafrios. Karina soltou uma gargalhada. Amava aqueles comentários. – Ainda é apaixonada por ela ou foi mesmo coisa da adolescência?

— Eu ainda não tenho certeza. – respondeu sinceramente. Precisaria de mais alguns dias para chegar a uma conclusão. – E você? Excluiu de vez a mulher invisível da sua vida?

— Exclui, bloqueei e quase procurei por uma daquelas religiões que espantam as coisas ruins da gente. Eu não quero saber daquela desgraçada nunca mais.

Karina passou o abraço pelo ombro de Samantha e a apertou em um abraço de lado.

— Eu estou muito orgulhosa de você. – deu um beijo na bochecha de Samantha. A loira revirou os olhos, fazendo uma careta. Karina riu. – Vai me pagar aquela pizza agora ou o que?

Bruna Cezario

Aquela que dorme demais, come demais, fala demais, é fangirl demais, assiste séries demais, shippa demais, faz as pessoas sofrerem com suas histórias demais, farofa demais e tem dinheiro de menos. Prazer!

11 comentários em “Romântica Anônima: Capítulo 3 – Atum, cream cheese, queijo, alface, tomate e cebola

  • Janeiro 12, 2018 em 12:42 pm
    Permalink

    Meu Deus, viciei!!!!!
    Sonhei com isso a noite toda, volta logooooo

    Resposta
    • Janeiro 12, 2018 em 8:54 pm
      Permalink

      aaaaaa Muito que feliz em ler uma coisa dessas. Espero que continue viciada até o final da história hahahahaha O plano é postar toda a quarta-feira, então devo voltar na próxima quarta ❤️

      Resposta
  • Janeiro 13, 2018 em 2:20 am
    Permalink

    Amando essa estoria!!! ❤❤ se eu queria posts todos os dias? sim, queria não vou negar! 🙂

    Resposta
    • Janeiro 13, 2018 em 5:46 pm
      Permalink

      aaaaaaaaaa Muito feliz em ler uma coisa dessas. Bom, isso quer dizer que a história ta prendendo e isso me deixa mais feliz ainda. Obrigada ❤

      Resposta
      • Janeiro 14, 2018 em 3:23 am
        Permalink

        As tuas fics são todas maravilhosas! A verdade é te acompanho no spirit, não comento lá fico na surdina… 😀 e como uma admiradora das suas estórias vim obviamente enlouquecer, arrancar os cabelos e te matar mentalmente de varias formas e lentamente kkkkkk

        Resposta
        • Janeiro 15, 2018 em 5:50 am
          Permalink

          Não acredito que eu balancei tanto a moita que você veio parar aqui hahahahahahaha Eu só tenho a agradecer mesmo por ter tirado um tempinho e arriscado sofrer mais um pouquinho com minhas histórias, isso e esse comentário me deixaram imensamente feliz, de verdade. Obrigada mesmo e muito ansiosa para as ameaças hahahahahaha

          Resposta
  • Janeiro 14, 2018 em 9:43 pm
    Permalink

    Noiva? É, foi um balde de água fria… Mas ainda bem que podemos esquentar a água 😉

    Resposta
    • Janeiro 15, 2018 em 5:52 am
      Permalink

      Como disse na narração… O universo não ia ser tão bonzinho assim, mas eu acho que tem uma pequena surpresa de sentimentos no próximo capítulo.

      Resposta
  • Janeiro 17, 2018 em 1:17 pm
    Permalink

    Bruna eu te amo. VAMOS LOGO ESCREVER UMA SÉRIE. Cara, amando desde já essa estória e doida pra saber desse colapso da Karina. E meu, será que a namorada invisível da Samanta é a Rebecca? Me veio essa ideia louca??? Kkkkkkkkk

    Resposta
    • Janeiro 18, 2018 em 6:50 pm
      Permalink

      Gostaria, mas Netflix não me descobre logo essa otária hahahahahahaha Vai continuar ficando doida porque não vou contar tão cedo. Mentira, tem um capítulo que o flashback vai ser dela com o terapeuta, mas não sei qual ainda. Berro! Imagina a treta que ia ser? mas agora você já sabe que não, então né hahahahahahaha

      Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: