Romântica Anônima: Capítulo 4 – Vai virar amiga dela depois disso?

Ensino médio

Todo bimestre as meninas do 2º e 3º ano se enfrentavam em uma partida de queima na aula de educação física. O feminismo não existia da quadra para dentro. Todos os problemas, por menor que fosse, eram resolvidos com uma bolada em qualquer parte do corpo – ou um novo problema começava para ser resolvido no próximo bimestre. O jogo de queima era o mais físico que as garotas podiam chegar para tirar a limpo todas as desavenças que possuíam, portanto a maioria fazia cada segundo em quadra valer a pena.

Mas nem todas as garotas levava algum assunto pendente para quadra. Muitas delas só gostavam do jogo e de assistir ao show de boladas ao vivo.

Os motivos das desavenças eram diversos: esbarrada no corredor sem pedido de desculpas, comentários pejorativos, cara feia ao passar, ter sido reprovada como líder de torcida e, o principal, “roubo” de namorado.

Elas poderiam resolver tudo com uma boa conversa? Poderiam. Mas desde quando adolescentes fazem isso?

Karina ria de alguma bobeira que Samantha disse quando pisou na quadra. O sorriso automaticamente desapareceu quando viu Rebecca parada alguns metrôs em sua frente conversando com algumas amigas. Assim como nos filmes de romance, tudo começou a passar em câmera lenta e Karina só tinha olhos (e ouvidos) para a risada de Rebecca. Ela sempre ficava mais iluminada quando sorria e os movimentos sutis que fazia como ajeitar rapidamente o cabelo ou tocar no ombro de alguma amiga, a deixava ainda mais adorável.

— Essa seria a oportunidade perfeita para você se apresentar de verdade a ela. – disse Samantha tentando trazer a amiga de volta para a escola.

Pela forma boba que Karina estava sorrindo, deixando as covinhas a amostra, ela já estava no mundo paralelo em que vivia feliz para sempre com Rebecca.

— O que? – Karina virou-se para olhar Samantha, tentando puxar na memória se havia entendido o que ela dissera. – Não! – disse autoritária. – Você sabe como eu fico quando converso com pessoas.

— Você não pode viver nessa paixão platônica para sempre.

— Não? – Karina sorriu, cínica. – Me observe. – deu de costas para Samantha, ajeitando-se em uma posição na quadra em que ficava bem longe da onde Rebecca estava, embora ainda desse para ver a loira muito bem.

Samantha revirou os olhos, proferindo alguns palavrões e também ajeitou-se na sua posição de sempre. Essa não era a primeira vez que tentava encorajar Karina a conversar com Rebecca. De todas as garotas do segundo ano, Rebecca Mitchell era uma das mais decentes e que não costumava arrumar problema com ninguém. Pelo contrário, todas as vezes que Samantha esbarrava com ela a encontrava desenhando casas em um guardanapo, em um caderno de desenho ou conversando assuntos bobos com suas amigas – especialmente com Julie. Nunca pegou Rebecca falando mal de ninguém ou causando intriga por coisa boba. Então, tudo que Karina usava como justificava para não conversar com Rebecca, não valia. A loira não era o tipo de pessoa que tiraria sarro do problema de Karina em se expressar. Mas isso não entrava na cabeça da garota de 17 anos, independente do quanto Samantha argumentasse.

O jogo começou de forma tranquila. A bola ia e voltava sem acertar ninguém. Às vezes, dependendo com quem a bola parava, uma movimentação de meninas fugindo para não serem queimadas crescia na quadra, mas nada que fizesse com que o jogo começasse de verdade. Nem parecia que no dia anterior algumas garotas haviam se desentendido por causa de uma cabine do banheiro.

Após 10 minutos o jogo começou de verdade. As garotas pareciam que haviam sofrido alguma transformação. Poucas corriam pela quadra, fugindo da bola. Sempre que acontecia um ataque do time adversário, alguém tentava pegar a bola no ar para tentar um contra-ataque.

Karina e Rebecca estavam concentradas no jogo. Poucas foram as vezes que os olhares se encontraram, mas nada que fosse ficar registrado na memória. Era mais a visão seletiva de observar rapidamente o que estava ao seu redor para não acabar levando uma bolada. Ambas ainda tentaram algumas jogadas, mas queima não era o tipo de jogo que elas costumavam se dar bem. Karina não gostava de esporte nenhum por causa dos gritos e ofensas em experiências anteriores e Rebecca gostava mais de futebol.

Em comparação a outra escola, Karina estava se divertindo com o jogo. O fato de ser conhecida por poucas pessoas ajudava nisso. Ninguém gritava com ela ou fazia piadas sem graças dizendo que estava na hora de trocar os óculos sempre que errava algum ataque.

Os gritos existiam, mas era no geral. Era mais ambas as turmas se incentivando do que as meninas brigando uma com a outra. Embora as classes tivessem suas desavenças dentro da própria turma, quando estavam em quadra, elas eram mais unidas do que em dia de prova na hora de passar a cola. Por isso que era uma comemoração diferente sempre que uma garota do time adversário era queimada.

Entre uma jogada e outra, um menino loiro, dos cabelos que batiam na testa e com o porte físico que o deixava bem longe de ser um dos jogadores do time de futebol por ele ser bem magricelo, entrou na quadra e sentou na primeira fileira da arquibancada. Rebecca acenou para ele e abriu um largo sorriso. O garoto sussurrou alguma besteira, fazendo Rebecca soltar uma gargalhada. Isso não passou despercebido por Karina.

Por tentar se fazer menos notada possível, Karina tentava não prestar muita atenção nas pessoas. Em sua cabeça sempre que você nota demais alguém, essa pessoa acaba te notando também. Essa linha de raciocínio só não era usada com Rebecca. Portanto, ela não fazia a mínima ideia de quem era aquele menino.

Passou as últimas semanas somente observando Rebecca pelos corredores ou no refeitório que esqueceu de se atentar em alguns detalhes: se ela tinha namorado (embora Samantha tivesse dito que não) ou se ela gostava de garotas também. De certa forma esses detalhes não deveriam importar por causa da decisão de não tomar nenhuma atitude em ser notada, mas mesmo assim importavam para o seu pobre coração apaixonado. Como poderia continuar criando um mundo em sua cabeça se tivesse outra pessoa nesse meio?

Adolescentes apaixonadas são tão complicadas, não é mesmo?

Os devaneios de Karina foram interrompidos quando a bola lhe acertou bem no meio da cara, fazendo com que ela caísse com tudo no chão e batesse a cabeça.

Ela não sabia se o que estava doendo mais era o nariz ou a cabeça, entretanto ambas as dores desapareceram quando ela abriu os olhos e viu aquele monte de meninas em cima de si. A respiração de Karina ficou mais pesada, até o momento que ela começou a se sentir sufocar. Ela fechou os olhos, espremendo-os com toda a força que possuía, pedindo para que todas aquelas meninas saíssem de sua frente.

Odiava ser o centro das atenções, ainda mais naqueles casos em que sempre saia algum comentário desagradável. Samantha que durante todos esses anos a ajudou a conseguir apresentar um trabalho em público sem ser um grande desastre. Mas era o máximo que conseguia ter os olhares das pessoas em cima de si sem querer se esconder em um buraco pelo resto de sua vida.

O coração de Karina batia de forma acelerada e cada segundo que passava ficava mais difícil de se respirar. Por que teve que se distrair? Se não ficasse prestando atenção em Rebecca nada disso teria acontecido. Agora ficaria conhecida como a menina que quebrou o nariz levando uma bolada na cara. Por que não podia ter pelo menos o último ano da escola de paz?

— Será que vocês podiam…? – Samantha expulsou uma por uma das meninas que estavam ao redor de Karina.

As meninas em cima de Karina haviam durado algumas frações de segundos. Muitas mal tinham conseguido ver direito o rosto da garota antes de Samantha as expulsarem. Durante todos esses anos a loira dos cabelos ondulados era familiarizada com as crises de Karina, por isso que não deixou com que as meninas ficassem mais de um segundo em cima dela.

Para Karina aquele segundo fora uma eternidade, mas nada que comprometeu seu desejo de continuar sendo uma desconhecida na escola. Nos próximos dias as meninas lembrariam do ocorrido, mas não lembrariam quem foi a vítima da bolada.

— Cara… – Samantha observou a amiga deitada no chão por alguns segundos. Karina cuidadosamente abriu os olhos, se dando conta que só tinha a amiga ali em sua frente. – Isso vai doer pra caralho por uns três dias.

Karina sentou-se no chão, levou a mão até o nariz e soltou um gemido de dor. Aparentemente nada estava quebrado, mas ela chegou à conclusão que o nariz doía mais do que a cabeça. Fez uma careta ao ver a mão toda suja de sangue e os respingos no chão da quadra entre as suas pernas. Samantha estendeu a mão para ajudá-la levantar do chão e a escoltou até o vestuário como orientação da professora que foi logo atrás delas, enquanto uma aluna havia ido atrás de alguém na enfermaria.

— Por isso que eu odeio esportes. – resmungou Karina, pegando alguns pedaços de papel higiênico da mão de Samantha e colocando no nariz que ainda sangrava.

— Se não tivesse se distraído com a sua namorada de um universo paralelo com toda certeza teria mudado de ideia sobre esportes. – Samantha sentou-se ao lado de Karina no banco e bateu de leve a mão na perna dela. – Hoje você perdeu uma das maiores oportunidades de sua vida de falar com ela.

— Quem era aquele menino?

— Que menino?

— O menino que apareceu no meio do jogo.

Samantha fez uma expressão de “ah aquele menino” e começou a rir. Karina a encarou com uma expressão confusa, sentindo-se um pouco ofendida com as risadas. Do que ela estava rindo? Nada naquela situação era engraçada, começando com o seu nariz machucado. Daqui a pouco ia precisar de uma transfusão de sangue caso seu nariz não parasse de sangrar logo.

— Você estava com ciúmes do Davi? O irmão mais novo da Rebecca? – tornou a rir. Samantha achava realmente engraçada toda aquela situação. Se não podia convencer a amiga a acabar de vez com aquela paixão platônica, tomando coragem de falar de vez com Rebecca, pelo menos tentaria tirar o máximo de situações engraçadas daquilo. Quem sabe assim Karina não ganhava um incentivo extra para trocar nem que fosse um “oi” com Rebecca? Entretanto, no momento, o único incentivo que Karina estava recebendo era de acabar de vez com aquela amizade por causa das risadas da amiga. – Ele sempre aparece nos jogos de queima. Acho que ele tem uma queda pela Julie, eu não sei. – deu de ombros. – Já te falei que a Rebecca não tem namorado ou namorada. – sorriu de forma provocativa com o canto do rosto. Karina revirou os olhos. – Ela poderia ter, mas… – bateu na perna de Karina e levantou-se do banco. – Você não colabora. – mandou uma piscadela para ela.

— Garota, quem você irritou? – perguntou a enfermeira entrando no vestuário. – Deixa eu ver. – fez um gesto pedindo para que Karina tirasse o papel higiênico do nariz. Ela fez uma expressão de dor, complacente pelo estrago que viu no nariz de Karina. – Não quebrou, mas você vai passar uns três dias sentindo dor. – Samantha sussurrou um “eu disse”, sorrindo convencida. A enfermeira gesticulou para que Karina levantasse do banco e a acompanhasse até a enfermaria. O nariz precisava ser tratado com gelo, caso contrário doeria mais do que os três dias previstos. – Você fica. – a enfermeira disse virando-se para Samantha, impedindo que ela continuasse andando atrás dela.

— Mas o que eu fiz dessa vez? — indagou Samantha, indignada. – Nem foi eu que machuquei o nariz dela. Ela é minha amiga! – gesticulou, apontando para Karina. A enfermeira encarou Samantha com uma expressão de tédio e continuou guiando Karina para fora do vestiário. — Karina, fala para ela que você é minha amiga.

Como uma forma de se vingar por causa das risadas que teve que escutar minutos atrás, Karina não respondeu absolutamente nada. A garota simplesmente seguiu os passos da enfermeira, ainda estancando com papel higiênico o nariz que, aparentemente, tinha parado de sangrar, deixando o vestiário.

Samantha balançou a cabeça, incrédula pelo que acabara de acontecer. Todos esses anos de amizade para ter esse tipo de tratamento. Ela também deixou o vestiário, deparando-se com todas as garotas ainda na quadra. A professora ainda não havia as liberado. Preparava-se psicologicamente para dar mais um discurso sobre como elas precisavam se portar durante a aula, mesmo sabendo que seria em vão. No próximo bimestre alguém sairia pelo menos com um roxo em alguma parte do corpo. Ainda não entendia o motivo do diretor continuar permitindo que as turmas se juntassem para jogar queima.

— Como ela está? – perguntou Rebecca, seguindo os passos de Samantha.

— Quem? – se fez de desentendida.

— Sua amiga. – respondeu em um tom óbvio. – A que levou a bolada?

— Ah… – ela fingiu ter começado a fazer ideia do que Rebecca estava falando. – Qual o nome dela?

— De quem? – indagou, confusa.

— Da minha amiga. Você quer saber como ela está, mas nem sabe o nome dela ou da existência dela até hoje, então para que quer saber? Vai virar amiga dela depois disso?

Rebecca entreabriu a boca e semicerrou os olhos, confusa sobre o que responder. Será que era tão errado assim querer saber como uma colega de escola estava somente por não saber o nome dela? – ou da existência?

— Posso não conhece-la, mas fiquei preocupada. – respondeu, apontando para um ponto no chão próximo delas, onde ainda estava os respingos de sangue que escorreu do nariz de Karina. – Não precisa ser grossa por causa disso, Samantha.

Samantha soltou um longo suspiro, sentindo-se mal por ter sido grossa sem necessidade com Rebecca. De todas as garotas da escola, a loirinha era a última que merecia tal tratamento por todos os motivos já citados.

A pergunta sobre o estado de Karina pegou Samantha totalmente de surpresa. Responder os outros com grosseria sempre foi a sua forma de fugir de assuntos ou perguntas que a deixam desconfortável. Rebecca perguntando sobre Karina fez com que ela ficasse na defensiva por não saber como agir diante a loira.

Se dependesse dela, falaria para Rebecca esperar com que a melhor amiga saísse da enfermaria e perguntasse ela mesma, assim finalmente as duas conversariam e Karina iria perceber que era bobagem ficar alimentando aquele amor platônico quando poderia tentar viver algo real ou, se Rebecca não gostasse nenhum pouco de garotas, talvez as duas pudessem engatar em uma amizade. De qualquer forma seria melhor do que Karina ficar criando um mundo na cabeça em que ela e Rebecca conversam de diversos assuntos. Só que não dependia dela. Não podia quebrar a confiança que tanto demorou para ganhar. E, o mais importante, não podia forçar Karina a fazer algo que ela não queria fazer. Esse não era o tipo de amizade que tinham e a última coisa que queria era que Karina voltasse a se fechar completamente.

— Ela está bem. – respondeu, optando por não quebrar a confiança de Karina. – Só foi colocar um pouco de gelo no nariz para a dor não piorar. Já passei por isso.

— É, eu acho que eu lembro. – soltou uma risadinha, relembrando do jogo do último bimestre. Samantha acompanhou a risada. Apesar dos pesares, tinha sido um ótimo jogo.

— Me desculpa.— Samantha pediu, sinceramente. – Eu não quis ser grossa com você, mas é que normalmente as pessoas só se importam com quem elas conhecem, isso quando elas se importam.

— Às vezes elas só querem aumentar o assunto das fofocas. – Samantha assentiu a afirmação de Rebecca. – Eu entendo. Ela tem sorte em ter uma amiga como você. – deu um soquinho no ombro de Samantha, esboçando um sorriso de canto de rosto. Samantha sorriu, ouvir aquilo a deixava realmente feliz. Desde o momento que conhecera Karina sempre quis ser mesmo uma ótima amiga para ela. – Diga a ela que eu desejei melhoras. – disse dando passos para trás. A professora chamava para o sermão de todo bimestre. – Como é o nome dela mesmo?

— Você nunca saberá. – respondeu em um tom brincalhão, mas com um fundo de verdade.

Rebecca poderia se importar, mas não ao ponto de resolver puxar assunto com alguém somente por causa de uma bolada no nariz, sendo que ela recebeu a informação de que estava tudo bem. A não ser que ela estivesse interessada por Karina, coisa que ela não estava.

Ainda.

Atualmente

O barulho do salto caríssimo no piso de madeira era inconfundível, da mesma forma que o perfume doce, mas não enjoativo. Seus perfumes sempre eram o doce no ponto certo. De longe, Camille conseguia afirmar que Elizabeth estava chegando e não levava nem dez segundos para que ela passasse por sua mesa, desejasse o bom dia costumeiro com um singelo sorriso e caminhasse diretamente para o escritório de Rebecca.

— Nós temos um problema!

— Bom dia para você também, Liz! – cumprimento com ironia. — Eu estou ótima e você? Como foi a viagem?

— Ótima! – Elizabeth respondeu com um largo sorriso, ignorando o tom da sócia e amiga. – Todo mundo deveria fazer uma viagem de noivado. – abaixou um pouco a alça do vestido social azul que usava. – Olha só essa cor. – apontou para a marca de biquíni em seu ombro. — Eu amo o Caribe.

— Por que eu ainda sinto a sua falta? – Rebecca fez uma pergunta retórica, abrindo os braços para receber um abraço de Liz. – Que problema nós temos? Você passa uma semana fora e volta me trazendo problemas?

— Sasha quebrou o braço. – contou, desapontada.

— Eu sei, — Rebecca respondeu, um pouco em dúvida sobre o tempo daquela informação. – tem três dias que isso aconteceu.

— Esse é o problema! – exclamou, logo em seguida levando a mão até o queixo, pensativa. – Bom… Poderia ter sido pior. Ela poderia ter quebrado o braço no mês que vem. Depois de mim, você sabe que ela é a melhor. – Rebecca assentiu, somente por assentir. A última coisa que queria naquela manhã era entrar naquela discussão interminável. – Então…?

— O que?

— Como nós vamos fazer? Você não contratou aquela engenheira que eu nem sei o nome que eu indiquei? Ela é o problema.

Rebecca fez um bico e uma expressão estranha enquanto coçava a nuca. Elizabeth a encarou com estranheza, um pouco preocupada até, sem fazer a mínima ideia do que estava acontecendo com a amiga, até Rebecca gesticular com a cabeça, apontando para atrás da ruiva.

— Ah… – Liz riu de nervoso e virou-se, encontrando Karina parada bem atrás dela. – Sem ofensas, claro. – foi a única coisa que achou adequado dizer por ter sido pega fora do contexto. – Bem-vinda a “View”. – estendeu a mão, tentando fugir do assunto, embora Rebecca não fosse deixar o assunto morrer tão cedo por causa do sorrisinho divertido estampado em seu rosto.

— Muito obrigada, senhorita Miller. – agradeceu, apertando a mão da mulher.

— Senhorita Miller. – Elizabeth repetiu, entre risos. – Ela é engraçada. – disse, apontando para Karina. A morena ficou a encarando com confusão. Não havia feito nenhuma piada. – Você não disse a ela… – intercalou o olhar entre Karina e Rebecca. A loira ergueu os ombros, respondendo ao questionamento que ficou no ar da amiga. — Qual o seu nome mesmo?

— Karina.

— Karina. – repetiu o nome, seu jeito de guarda-lo para sempre na memória. Quando era conveniente, claro. Alguns nomes ela fazia questão de esquecer. – Senhorita Miller era a minha tia, antes da burra se casar com um golpista. Nós avisamos. – disse em um tom convencido, erguendo os ombros com um pouco de desdém. – Eu sou somente Liz, por favor.

— Liz, então. – ela respondeu.

Karina estava tentando se encontrar dentro daquele escritório, tendo em vista que estava mais perdida do que a Dori por nunca ter imaginado que conheceria a outra dona da empresa em um momento tão confuso, algo que já era de se esperar. Seu reencontro com Rebecca foi em uma esbarrada com direito a café derramado e mesmo assim havia conseguido o emprego, então….

— O que você andou dizendo de mim para ela? – Elizabeth perguntou com sua atenção voltada para Rebecca. – Não existe sócia boa e sócia má aqui. Só a sócia divertida – apontou para si mesma – e a sócia bleh. – apontou para Rebecca, fazendo uma careta. A arquiteta revirou os olhos. – Será que podemos resolver o problema agora? Aproveitando que ele chegou?

Karina passou a mão pelos cabelos, descendo pelo rabo de cavalo, encarando Rebecca com uma expressão bastante confusa. Ela queria muito mesmo entender o que estava acontecendo ali, caso contrário, era bem provável que começaria a gaguejar por não fazer a menor ideia do que responder.

Rebecca abriu um largo sorriso, achando adorável toda a confusão da morena. Ignorando a vontade que surgiu totalmente do nada de encher aquele rosto desconsertado de beijos. Ela estava ficando boa em ignorar todos os sentimentos estranhos que habitavam dentro de si sempre que o assunto era Karina durante a última semana.

— Você sabe jogar boliche? – ela perguntou, embora pudesse passar mais alguns segundos conversando nas entrelinhas somente para apreciar mais daquela expressão adoravelmente confusa.

— Boliche? – franziu o cenho, achando estranha a pergunta. Ela limpou a garganta, tentando fazer o seu cérebro voltar para o lugar e não fazê-la responder coisas incoerentes. – Sei, claro que eu sei. – respondeu, confirmando o que dissera com um assentir de cabeça. – Por que?

— A cada três meses nós nos juntamos com a concorrência em um pequeno torneio de boliche. – Elizabeth começou a explicar. – Somos todas amigas, estudamos juntas. – continuou em um tom que dizia que não era nada demais aquele torneio. – Então, toda quarta-feira nós nos juntamos para jogar. Como você trabalha aqui agora, você também é obrigada a jogar com a gente toda quarta. – completou naturalmente, como se utilizar a palavra “obrigar” em uma conversa com uma funcionária não fosse nada demais. — Adivinha? Hoje é quarta-feira.

— E eu sou um problema porque a Sasha quebrou o braço, não pode jogar, então estamos em número ímpar? – era para ser uma afirmação, mas Karina estava com receio do seu raciocínio estar errado. Não queria arriscar.

— Exatamente! – Elizabeth respondeu gesticulando com o dedo indicador para Karina. – Como você pode ser o problema e a solução? Estávamos desfalcadas depois que aquele pau no cu do Mark deu um golpe na gente e agora estamos desfalcadas porque a Sasha quebrou o braço. – balançou a cabeça em negativo, estava realmente indignada com toda aquela situação.

— Se não tiver problema, eu posso chamar uma amiga. – sugeriu, ainda com um pouco de receio. Por ter imaginado mesmo que Elizabeth era a sócia má, aquela mulher branca, dos cabelos vermelhos, com uma franja dividida para o lado, dona de um par de olhos verdes e da sua altura – por causa do salto alto – a intimidava. – Quero dizer… Ainda não é o torneio, então acho que não tem problema. Tem?

— Eu gostei dela. – Elizabeth apontou para Karina, falando diretamente para Rebecca. – Problema resolvido. – bateu as duas mãos. – Então hora de trabalhar. – esboçou um dos seus sorrisos mais sinceros, direcionando-o para Karina. – Bem-vinda novamente a “View”. Tenho certeza que você vai amar trabalhar aqui.

— Obrigada. – Karina agradeceu, também esboçando um sorriso. Sentia-se menos intimidada agora por causa do gesto.

— Você não sabe jogar boliche. – afirmou Rebecca assim que Elizabeth deixou o escritório.

— Claro que eu sei jogar. – respondeu em um tom não tão convincente assim. –Eu sei jogar. – reafirmou com mais firmeza em seu tom de voz, tentando mudar aquela expressão desacreditada de Rebecca. – Eu sei jogar, só não sou boa. – concluiu em um tom engraçado, arrancando uma risada de Rebecca. – Mas a minha amiga sabe, então acho que vai dar uma equilibrada na dupla.

— Você não precisa jogar se não quiser. – disse Rebecca em um tom doce, derretendo o coração de Karina. – Isso é coisa nossa, de quem está aqui desde o começo. Decidimos fazer isso para não ser somente trabalho…

— Vai ser divertido. – Karina disse, impedindo que Rebecca continuasse falando. – Como a Liz disse, eu trabalho aqui agora, então por que não?

Rebecca esboçou um largo sorriso, imensamente feliz com o que ouviu. Seria mentira caso ela dissesse que não estava ansiosa para a primeira quarta-feira de boliche com Karina. Havia se divertido tanto com ela no dia da contratação, sendo que, teoricamente, elas estavam em horário de serviço. Desde aquele dia esperava por mais momentos como aquela, ou pelo menos perto daquilo, e achava que a noite de boliche seria uma ótima oportunidade.

***

Karina conferiu pela quinta vez a hora em seu relógio de pulso. Samantha estava tão atrasada que ela resolveu esperar pela amiga na entrada do boliche para ter certeza que ela não se atrasaria mais procurando por elas quando chegasse.

Nem precisou de muita coisa para convencer Samantha a juntar-se a elas na noite de jogos. Às duas tinham um acordo de sempre acompanharem a outra em algum compromisso de última hora, caso a outra já não tivesse um compromisso marcado antes. Elas passaram 8 anos lidando com uma amizade a distância, se vendo poucas vezes por ano por causa das carreiras que estavam começando a decolar, entretanto tudo que construíram desde os 12 anos de idade, continuava forte, como se elas não tivessem passado tanto tempo longe uma da outra.

A quarta-feira de boliche seria somente com as quatro. Camille tinha avisado dias atrás que teria apresentação da sua sobrinha na escola e Angela (do Recursos Humanos) estava de férias. Embora Elizabeth não tivesse essas informações de manhã quando disse que Karina era um problema, caso tivesse, não mudaria muita coisa, ela continuaria sendo um problema por não ter uma dupla, então o primeiro encontro das duas acabaria ocorrendo da mesma forma.

Existem coisas que são para acontecer e o universo faz questão de deixar com que nada estrague isso.

Isso pode ser referência a noite do boliche, ao reencontro de Karina e Rebecca, como também pode ser referência a outra coisa.

— Porra, finalmente! – exclamou Karina ao ver a amiga se aproximando. – Você não tem relógio não?

— Às vezes pode não parecer, mas eu trabalho. – disse Samantha enquanto pegava os sapatos no balcão. — Eu tenho meu horário de fim de expediente como qualquer pessoa normal, — entregou os sapatos para a pessoa que trabalhava no balcão. — mas meus clientes não sabem disso, então existem dias que eles estão atacados e resolvem atacar a pessoa que um dia juraram amar para sempre. O que eu posso fazer? – gesticulou com os sapatos na mão. – Mas eu estou aqui, não estou? Ia falar para arrasarmos as duas no jogo, mas você é péssima.

— Obrigada. – respondeu Karina ironicamente.

— Só vim mesmo para conferir como está Rebecca Mitchell. – confessou, andando em direção a pista. – Se ela estiver menos bonita, sinto muito… – Samantha parou na entrada da pista por ter sido pega de surpresa com Rebecca conversando com uma mulher ruiva. – Ah vai se foder! – murmurou para si mesma. – Às vezes eu odeio a minha vida. – continuou murmurando, ajeitando a pose para continuar o caminho até a pista.

Karina encarou a amiga com estranheza. Ouviu a frase final, mas não entendeu o motivo dela ter sido dita. Queria perguntar o que aquilo significava, mas faltavam poucos centímetros para chegar até as duas chefes.

— Olha quem chegou… – disse Karina com um sorriso sem graça por causa de todo o atraso – mesmo que ambas tivessem dito que estava tudo bem — gesticulando mostrando Samantha. O sorriso que Elizabeth estava no rosto desapareceu automaticamente quando os seus olhos verdes cruzaram com os olhos castanhos de Samantha. Rebecca inclinou um pouco a cabeça para o lado, olhando com mais atenção para o rosto daquela loira em sua frente. – Essa é Sam, Sam essa é a…

— Eu não te conheço de algum lugar? – questionou Rebecca. Estava lhe matando ter certeza de que conhecia aquela mulher de algum lugar, mas não fazer ideia da onde.

— Conhece? – Elizabeth cruzou os braços, desconfiada.

— Conhece? – Samantha repetiu a pergunta. – Eu não sei. – fez-se de desentendida. – Nós já transamos? – Karina levou a mão até a testa, balançando a cabeça em negativo. Por que Samantha não podia agir como uma pessoa normal? — Eu nunca esqueço um rosto, mas… – deu de ombros.

— Não. – Rebecca riu. – Se tivéssemos transado, você jamais esqueceria. – mandou uma piscadela para ela. Karina arregalou os olhos. Esse lado de Samantha, definitivamente ela não conhecia. Elizabeth continuou com os braços cruzados e com a expressão fechada. – Samantha Adams. – ela sorriu por ter conseguido se recordar, era como se tivesse alcançado uma grande conquista.

— Rebecca Mitchell? – fingiu a maior cara de surpresa. As duas se abraçaram. – Todos esses anos te fizeram bem. – disse olhando a loira de cima a baixo. — Olha como você está gostosa! – abriu um sorriso sacana de canto de rosto, olhando rapidamente para Elizabeth. A ruiva revirou os olhos, sem paciência para todo aquele reencontro.

— Você também não está nada mal. – Rebecca retrucou, tentando disfarçar a vergonha por causa do elogio. Era ótima em entrar nas brincadeiras, mas ainda não sabia como receber um elogio sem se envergonhar completamente. – Espera… Isso significa que você estudou na Park East também? – disse com a atenção voltada para Karina.

— Isso significa que está na hora de jogarmos. – Samantha disse, sentando-se em um dos bancos para colocar o sapato e livrando a melhor amiga de ter que responder aquela pergunta sem parecer que estava sofrendo um derrame. – Eu espero que vocês estejam prontas para perder. Pelo menos para uma de nós duas.

Rebecca tentou trazer o assunto escola durante uma boa parte do jogo, mas Samantha sempre a cortava com assuntos aleatórios. Isso poderia ser considerado estranho, caso a loira não costumasse fazer esse tipo de coisa na adolescência também.

As mudanças de assunto foi a forma que Samantha encontrou de não colocar Karina em uma situação mais desconfortável. Tudo seria mais fácil caso as duas tivessem conversado sobre a possibilidade de serem lembradas acontecesse, mas como haviam esquecido desse mínimo detalhe, se virariam conforme desse.

Os assuntos mudaram naturalmente com o decorrer do jogo e a palavra escola deixou de ser citada. A única coisa que não mudou foram as trocas de olhares que uma hora ou outra acontecia entre Samantha e Elizabeth.

— Você é realmente péssima. – concluiu Rebecca entre risos assistindo mais uma bola de Karina cair na canaleta. – Vem aqui. – ela pegou uma bola. – Eu vou te ensinar como se faz.

— Não vai mesmo. – Karina tomou a bola da mão de Rebecca. – A Sam já tentou me ensinar de todas as formas possíveis. Isso é o melhor que eu consigo.

— Está tudo bem. – Rebecca levantou as mãos como forma de redenção. Não iria insistir. Quem estava perdendo as melhores aulas de boliche era Karina mesmo. – Eu que não queria ver como você era antes, então. – completou em um tom divertido.

Karina riu.

Ela não rejeitou a oferta de Rebecca por Samantha ter mesmo tentado lhe ensinar a jogar boliche de todas as formas possíveis. Karina só estava tentando se proteger de protagonizar uma cena clichê de filme de romance.

A forma como se sentiria caso Rebecca ficasse atrás de si, guiando a sua mão com a bola de boliche era bem óbvia, então não precisava passar por aquilo. Somente o fato de estar diante de arquiteta fazia com que o seu coração compusesse diversas músicas com suas batidas desenfreadas, portanto a última coisa que precisava era que elas ficassem mais próximas do que o necessário. Se Karina pudesse evitar que seu coração escapasse de seu peito quando o assunto era Rebecca Mitchell, ela evitaria.

— Eu vou ao banheiro. – Samantha avisou, levantando-se do banco que estava sentada.

— Eu também vou. – Elizabeth também levantou, seguindo os passos de Samantha.

Karina e Rebecca se entreolharam e deram de ombros. Não viam nada demais em duas mulheres que tinham acabado de se conhecer irem ao banheiro ao mesmo tempo. Isso só as poupavam ter que acompanha-las ao banheiro.

Samantha entrou no banheiro, apoiando as mãos no lavatório. Ela fechou os olhos, respirando fundo e, logo em seguida, Elizabeth entrou no banheiro, fechando a porta atrás de si.

— Por que você não me ligou? – Elizabeth perguntou, cruzando os braços e encarando Samantha com uma expressão de repreensão.

— Por que eu não te liguei? – Samantha soltou um riso incrédulo, apertando com força o lavatório. – Por que eu não te liguei? – repetiu a pergunta entre dentes e virou-se para Elizabeth. – Porque eu ainda tenho um pouco de amor próprio! Você que terminou comigo, sua maldita! – explodiu, andando em círculos pelo pequeno banheiro de duas cabines. – O que você está fazendo aqui, afinal?

— O que eu estou aqui? O que você está fazendo aqui?

— Aquela é a amiga que eu indiquei. – disse apontando para a porta. – Eu só vim hoje porque achei que você ainda estivesse na sua viagem de noivado. – as palavras saírem com um certo nojo. Somente de lembrar do noivado o estomago de Samantha embrulhava. – Jamais viria para qualquer lugar sabendo que você estaria nele.

— Eu senti sua falta. – disse Elizabeth em um tom doce, quase que infantil.

— Você… – Samantha virou-se para a parede, balançando a cabeça em negativo. Precisava se recompor, caso contrário aqueles olhos verdes caídos fariam com que ela cedesse como todas as outras vezes. – Você não tem o direito de sentir a minha falta. – disse tentando passar firmeza em cada palavra que dizia, da mesma forma que tentava não encarar muito tempo o rosto de Elizabeth. – Você que terminou comigo. Você que resolveu ficar noiva. – passou pela ruiva, caminhando em direção a porta. — Então, vai se foder, Elizabeth!

Elizabeth colocou a mão na porta, impedindo que Samantha a abrisse.

— Eu me arrependi, tudo bem? – confessou em um tom de voz que beirava dor. – Eu te mandei algumas mensagens, mas… – soltou um longo suspiro. – Será que podemos recomeçar?

— Recomeçar? – Samantha soltou um riso que trazia uma mistura de incredulidade e nervosismo. – Do que você se arrependeu, Liz? De ter ficado noiva, ter terminado comigo ou os dois? Se a resposta não for “os dois”, eu não quero nem ouvir. Eu estou cansada dessa merda.

— Por que todo esse showzinho agora? – Elizabeth colocou as duas mãos na cintura, indignada. – Você sempre soube da existência do Leo, então…

— Essa semana longe de você me fez perceber que eu mereço mais. – disse em um tom superior, embora não fosse exatamente o que sentia. Entretanto, foi o suficiente para dar uma leve atingida em Elizabeth. – Eu nunca vou ser sua escolha e você não pode ter os dois, Liz.

— Por que não?

— Porque não é assim que as coisas funcionam! – Samantha passou as mãos pelos cabelos, indignada com toda aquela conversa. Às vezes Liz passava a sensação de que vivia em um mundo paralelo das outras pessoas. – Seu noivo – fez um gesto de chifres em sua cabeça – não sabe da minha existência, caso contrário, eu duvido muito que ele teria te pedido em casamento.

— Isso não significa que eu não posso ter vocês dois. – Elizabeth respondeu em um tom óbvio, como se fosse a coisa mais natural do mundo o que ela estava dizendo.

— Eu não vou ser sua amante para sempre! Será que você consegue entender isso? – Elizabeth fez uma expressão de dúvida, balançando a cabeça em negativo. Não, isso ela nunca iria entender. Samantha soltou um riso, incrédula. — Te bloquear foi a melhor coisa que eu fiz na última semana.

— Você fez o que? – franziu o cenho, indignada e cruzou os braços. – Eu passei a última semana te mandando mensagens com pedidos de desculpas e você nem recebeu? Qual o seu problema?

— Qual… – Samantha passou a mão pelos cabelos, rindo de nervoso. – Qual o meu problema? – apontou para si mesma, ainda desacreditada do que estava ouvindo. – Em resumo… Meu problema é você! – passou por Liz, parando do outro lado do banheiro. Elas estavam próximas demais e isso nunca era bom. – Você terminou comigo Liz. – disse em um tom cansado, chegando a conclusão que não iria ganhar aquela discussão. – Eu só fiz o que era melhor para a porra do meu coração.

— Eu sou o melhor para a porra do seu coração. – disse Elizabeth em um tom calmo, caminhando em direção de Samantha. – E você é o melhor para a porra do meu coração. – ela parou um único centímetro longe de Samantha, encarando a loira com uma expressão doce, beirando a suplica. — Será que podemos…

— Não, não, não. – Samantha passou novamente por ela, sacudindo a cabeça. – Nós não podemos. Você está noiva, não tem planos de terminar com o chifrudo e eu não quero… – ela fez uma pausa, pensando em cada uma das palavras que estava dizendo e revirou os olhos, soltando um longo suspiro. – Ah… Foda-se!

Samantha avançou nos lábios de Elizabeth, beijando-a com voracidade, fazendo com que a ruiva batesse na parede por causa da falta de espaço. As duas mãos de Sam foram enterradas no rosto de Liz, deixando as bocas mais coladas possíveis. Elizabeth deu passagem para que a língua de Samantha explorasse cada centímetro de sua boca, matando a saudade que ela sentiu das línguas se encontrando, do sabor daquele beijo, da corrente elétrica que percorria todo o seu corpo sempre que Sam lhe tocava. As mãos de Samantha saírem do rosto de Elizabeth e começaram a percorrer todo o corpo da designer de interiores, sem se separar do beijo. Liz sorriu entre o beijo, dando uma leve mordida no lábio inferior da namorada e pousou as mãos na cintura dela, direcionando-a até a cabine do banheiro.

***

— Então… – Rebecca jogou a bola na pista e virou-se para Karina, sem nem ao menos parar para ver se havia acertado os pinos. – Você também estudou na Park East? – no final da pergunta o barulho de um strike foi ouvido. Karina balançou a cabeça em negativo. Como ela poderia ser tão boa? – Você não lembrou de mim ou…?

— Eu não sou muito boa com fisionomias. – resolveu responder vagamente para não ter que mentir ou omitir certos detalhes. – E você também não lembrou de mim. – Rebecca esboçou um sorriso sem graça, assentindo. Ela tinha razão. – A culpa não é sua. Eu não era muito popular. – disse em um sussurro, como se aquilo fosse um grande segredo.

Rebecca riu.

— Podíamos ter sido amigas.

— Eu não sei. – disse caminhando até o local que ficavam as bolas. – Eu não acredito que as pessoas podem escolher de quem elas querem ser amigas. – pegou uma bola. – A amizade simplesmente acontece.

— Isso quer dizer que você não queria ser a minha amiga?

— Não. – Karina riu, balançando a cabeça negativamente. – Isso quer dizer que nossa amizade está acontecendo agora.

Amizade.

A palavra incomodou ambas as partes. Karina sabia muito bem o porquê. Rebecca resolveu continuar sem se questionar.

— Finalmente! – exclamou Rebecca ao ver Elizabeth e Samantha se aproximando. As duas faziam todo o caminho até a pista ajeitando as roupas e o cabelo. Karina franziu o cenho, desconfiada do comportamento. – Qual era o tamanho da fila do banheiro?

— Enorme. – as duas responderam juntas, ainda ajeitando as roupas. – Eu tenho que… – Sam limpou a garganta, balançando o celular. – Eu tenho que ir encontrar com um cliente.

— Agora? – questionou Karina. Todo aquele comportamento agitado da amiga estava muito estranho.

— É… Agora, você sabe…

— Eu também preciso rir. – disse Elizabeth. – Cliente.

— Você nunca atende cliente depois do expediente. – afirmou Rebecca. Tentava entender o que estava acontecendo ali, mas a única explicação que vinha em sua cabeça parecia um tanto quanto absurda.

— Nunca é uma palavra muito forte. Cuide dela para mim. – disse com a atenção voltada para Karina. Depositou um beijo no rosto de Rebecca. – Até amanhã.

— Até…

As duas assistiram as amigas deixando o boliche. Elas estavam com tanta pressa e agitadas que quase foram embora levando os sapatos do boliche. Karina e Rebecca trocaram olhares, uma procurando resposta nos olhos da outra, mas a única coisa que encontraram foram mais dúvidas.

— Acho que somos só nós duas agora. – disse Karina quebrando o silêncio cheio de confusão. – Nós vamos continuar jogando ou você quer ir embora?

— Pensei em uma brincadeira. — Rebecca pegou a bola de boliche. – Quem deixar no máximo três pinos tem o direito de fazer uma pergunta.

— Isso significa que eu nunca vou ter o direito de fazer uma pergunta? – indagou Karina com o cenho franzido. Rebecca sorriu de forma inocente e ergueu os ombros. – Tudo bem.

Rebecca sorriu feliz por Karina ter aceitado a sua brincadeira. Ela posicionou-se em frente a pista de boliche e fez sua jogada.

Karina riu, desacreditada de mais um strike. Havia perdido as contas de quantos a arquiteta fizera naquela noite.

— Por que você resolveu voltar para Nova York?

— Nunca pensei em morar tanto tempo em L.A. – respondeu acompanhando com o olhar Rebecca pegando a bola de boliche novamente para uma nova jogada — O plano era terminar a faculdade e voltar para Nova York, mas eu consegui um estágio, depois consegui um emprego…

Sem contar o fato dela ter se dado bem com o seu terapeuta, dando-se conta que o tratamento estava mesmo surtindo efeito, portando não podia largar tudo e voltar para Nova York correndo o risco de perder todo o progresso.

— Também foi uma ótima oportunidade para me aproximar do meu pai.

— Vocês não eram próximos? – Karina gesticulou com a cabeça, apontando para a pista em sua frente. – Certo. – Rebecca entendeu a mensagem. Uma jogada, uma pergunta. Ela caminhou até a frente da pista e novamente fez sua jogada. Dessa vez deixando um único pino. Sorriu, convencida, arrancando um sorriso de Karina. Mas quando não arrancava, certo? – Então… Vocês não eram próximos?

— Ele sempre preferiu o emprego a família. Quando eu voltei a morar com ele em Los Angeles nós saímos até para pescar. – sorriu lembrando de outros momentos que teve com o pai.

Aquele poderia ter sido o pior ano de sua vida, mas aproximar-se do seu pai foi a coisa positiva que saiu de todo aquele inferno.

Rebecca sorriu de forma doce, encantada pela forma que os olhos cor de mel de Karina brilhavam quando falava do pai. Provavelmente da mesma forma que os seus brilhavam quando o seu pai se tornava assunto.

– Minha vez agora? – Rebecca assentiu. Karina pegou a bola de boliche, posicionou-se de frente para a pista, antes de jogar a bola, olhou para Rebecca, gesticulando com a bola na mão e então jogou-a na pista. Canaleta. Ela soltou um longo suspiro, se existia alguém pior que ela naquele jogo, ainda deveria estar para nascer. Rebecca riu da expressão inconformada da morena. – Eu disse.

— Se você me acompanhar até em casa podemos fazer uma pergunta de cada uma. – sugeriu Rebecca.

Karina assentiu, concordando com aquilo. Era melhor encerrar a noite de jogos por ali mesmo, caso contrário perderia mais feio do que já estava perdendo.

O clima da noite de Nova York estava fresco. Pessoas ainda transitavam pela rua tranquilamente. Rebecca morava somente a alguns quarteirões do boliche, então as duas foram caminhando até o apartamento da loira, curtindo a excelente noite que estava fazendo.

— Eu não sei o que perguntar. – Karina admitiu entre risos, após muita insistência de Rebecca para que ela fizesse uma pergunta. Ela não estava mentindo. Ainda sabia tudo quando o assunto era Rebecca Mitchell e, o que não sabia, preferia continuar sem saber. – Nós conversamos muito no meu primeiro dia de emprego. Pode continuar com as suas perguntas.

Rebecca possuía mesmo uma lista de perguntas que queria fazer para Karina, entretanto algumas era somente curiosidade que a pouco intimidade que as duas tinham não permitiam que ela perguntasse.

Cada segundo que passava com a morena queria saber mais sobre ela. Existia alguma coisa na engenheira que a intrigava. Era verdade, conversaram muito no primeiro dia de trabalho de Karina, mas quanto mais convivia com aquela mulher, mais possuía a necessidade de saber absolutamente tudo sobre ela. Tudo isso somente para continuar desfrutando de sua presença que lhe causava sensações estranhas em seu estomago, na sua pele e no seu coração. Sensações que ela não sentia fazia um bom tempo.

— Sem esperança mesmo para o relacionamento que ficou em L.A? – no mesmo instante Rebecca fechou os olhos, amaldiçoando-se pela pergunta. Por qual motivo teve que perguntar aquilo? Qual importância tinha?

— Sim. – respondeu tranquilamente. De tantos assuntos, aquele era o que menos poderia lhe causar incomodo. – Se eu não me engano vi uma foto dela com outra já. – Rebecca entreabriu a boca, fazendo uma expressão de “ah” por causa da nova informação sobre Karina. – Eu sou lésbica, a propósito.

— Acho que eu entendi quando você disse “ela”. – Rebecca respondeu em um tom descontraído. – Minha bissexualidade não tem nada contra isso não. – foi a vez de Karina entreabrir a boca, fazendo uma expressão de “ah”. Talvez ainda pudesse se surpreender de uma forma positiva com Rebecca. Algo que poderia ser bom ou ruim. – Minha mãe que tem muitas coisas contras minha bissexualidade, mas…

— Ela é contra a parte que você também se sente atraída por mulheres?

— Não, ela é contra a parte que eu me sinto atraída por homens e mulheres. Ela, literalmente, disse para escolher somente um, pois não existe essa coisa de gostar dos dois não. Mas acho que se eu fosse escolher, ela iria preferir que eu escolhesse homens. – mostrou a aliança de noivado em seu dedo. — “Você nunca namorou nenhuma mulher”. – repetiu o que a mãe costumava lhe dizer no começo quando descobriu sua orientação sexual. – E sua mãe?

— Foi minha mãe que me tirou do armário. – respondeu tranquilamente. Rebecca arregalou os olhos, assustada. Karina riu. – De uma forma boa. – explicou, suavizando a expressão da loira. – Ela disse: “Eu sei que você gosta daquela menina, então deveria chamá-la para sair”.

— E você chamou? – questionou, encantada com o tipo de relacionamento que Karina e sua mãe tinham.

— Claro que não! – respondeu em um tom óbvio, como se fosse um absurdo Rebecca ter feito aquela pergunta. A loira riu, achando realmente muito engraçada a forma que Karina respondeu aquilo.

— Eu posso te fazer uma pergunta meio… Estranha?

— Nós estamos no jogo das perguntas, então… – ela gesticulou com a mão, autorizando Rebecca a ir em frente com sua pergunta.

— A Sam tem alguma namorada secreta?

— Se a Sam tem… – Karina riu, aliviada por Rebecca finalmente ter feito aquela pergunta. – Não é secreta, é invisível. Era.

— Então… – Rebecca riu, felizmente por dar-se conta de que não estava ficando louca. – Sua amiga é a namorada da minha amiga? Isso faz muito sentido agora. Eu pensei que estava ficando louca quando vi as duas no boliche, mas… – riu, sem concluir o que estava passando em sua cabeça para continuar aquela conversa. Como poderia ter sido tão lerda?

— De acordo com a Sam, elas não são namoradas, nunca foram e nunca serão. Meu, isso… – Karina riu, incrédula com sua própria lerdeza. Claro que Elizabeth era a namorada invisível que aceitou conceder uma entrevista a ela. – Eu sei que a vida é delas, mas você está bem com isso?

— Eu já dei alguns conselhos para a Liz, mas parece que ela acha que não está fazendo nada de errado. Quem não tem uma namorada e um noivo, não é mesmo? – Rebecca debochou.

— Eu só não queria que a Sam não sofresse também, mas… – deu de ombros.

Ela também já havia conversado muitas vezes com a amiga, entretanto Sam sempre resolvia fingir que também não estava fazendo nada de errado ou que não tinha absolutamente nada de errado com aquele relacionamento.

— Chegamos. – elas pararam de frente a um enorme prédio de apartamento de luxo. Karina olhou para cima, reconhecendo o lugar.

— Você mora no prédio que você desenhou?

Rebecca ergueu os braços, como se dissesse “culpada”.

— Foi o meu primeiro trabalho. Pode me chamar de narcisista, mas sabe quando as pessoas dizem “eu poderia morar dentro dele” para coisas que elas acham maravilhosas? Quando ficou pronto, eu estava tão orgulhosa que, literalmente, podia morar dentro dele. E eu moro.

— Isso não é ser narcisista, é ter amor pelo que faz. – respondeu Karina, sorrindo encantada por causa do brilho extra que estava estampado nos olhos azuis de Rebecca. – Eu moraria no meu prédio torto. Eu tenho muito orgulho dele. – debochou, arrancando uma gargalhada de Rebecca. – Agora que você está entregue sã e salva, eu vou para a minha casa.

— Tem certeza? – o tom de voz saiu mais desapontado do que deveria. Ainda não queria se despedir de Karina. – Se você quiser podemos subir para beber ou comer alguma coisa.

— Que tal deixarmos para outro dia? Já está ficando tarde, eu… – apontou para traz de si, sem jeito. Por mais que quisesse aceitar o convite, ainda não podia. Precisava lidar com todos aqueles sentimentos que ficam mais fortes a cada dia que passava. Sentimentos que ela achou que havia ficado no passado, junto com sua juventude, dentro do consultório de seu terapeuta. Embora o terapeuta tivesse lhe dito que, talvez, esses sentimentos nunca desaparecessem por ser uma história mal resolvida. Agora ela estava resolvendo essa história, não estava? Então porque os sentimentos não podiam desaparecer? – Outro dia?

— Outro dia. – Rebecca concordou contra a sua vontade, mas não podia obrigar Karina a ficar se ela não quisesse. – Boa noite, então. – ela aproximou-se lentamente da morena e lhe deu um beijo próximo ao canto dos lábios.

Por uma questão de segundo, torceu para que estivesse em algum filme de romance no qual Karina viraria o rosto para beijá-la, recobrando a consciência logo em seguida e distanciand-se da engenheira. Aqueles pensamentos estavam a deixando confusa.

Karina ficou alguns segundos parada, assimilando o que acabara de acontecer. Ela também desejou estar em um filme de romance, onde finalmente poderia beijar Rebecca, entretanto ela não podia. Imagine Eu e Você não acontecia na vida real.

— Boa noite. – ela finalmente respondeu, recobrando um pouco de sua consciência.

— Oi vida!

Um homem moreno, dos cabelos pretos bagunçado, vestindo uma calça jeans e blusa preta simples aproximou-se, dando um leve beijo nos lábios de Rebecca. Karina sentiu um incomodo percorrer todo o seu corpo. A vontade que tinha era de fechar os olhos somente para não assistir aquela cena. Poderia não ser aquele cara, mas ainda assim era um cara.

— Ei, Jonathan, essa é a Karina, Karina esse é o Jonathan, meu noivo. – Rebecca apresentou os dois, um pouco sem jeito. A última pessoa que estava esperando aparecer aquela noite era o seu noivo.

— Então você é a famosa Karina? – Jonathan disse simpaticamente apertando a mão da morena. – A Becca não para de falar de você um único segundo.

— Sério? – Karina não sabia se ficava feliz ou se batia a cabeça em uma parede ao ouvir aquilo. – Ela também me falou muito sobre você.

Mentira. A únicavez que conversaram sobre Jonathan foi quando Karina descobriu que Rebecca era noiva. Depois desse dia o assunto nunca mais surgiu.

— Eu não sabia que você ia estender a noite do boliche… – Jonathan disse, com a sensação de que havia atrapalhado alguma coisa. – Eu posso…

— Não se preocupe. – Karina esboçou um sorrisinho forçado. – Eu já estava indo embora. Só vim acompanha-la.

Jonathan olhou para a noiva, esperando a confirmação de que realmente não havia atrapalhado nada. Rebecca assentiu, reforçando com o gesto o que Karina acabara de dizer, embora nenhuma das duas estivessem sendo totalmente sinceras sobre ele não ter atrapalhado nada. Elas só não sabiam exatamente o que ele havia atrapalhado.

— Prazer conhece-lo, Jonathan. – disse Karina dando pequenos passos para atrás. – Até amanhã, Rebecca.

Rebecca simplesmente acenou, despedindo-se de Karina.

Será que era normal ela preferir que fosse Karina subindo ao seu apartamento naquela noite do que o seu próprio noivo? Fica aqui o questionamento.

Bruna Cezario

Aquela que dorme demais, come demais, fala demais, é fangirl demais, assiste séries demais, shippa demais, faz as pessoas sofrerem com suas histórias demais, farofa demais e tem dinheiro de menos. Prazer!

3 comentários em “Romântica Anônima: Capítulo 4 – Vai virar amiga dela depois disso?

  • Janeiro 19, 2018 em 6:05 pm
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    Já li, já reli e tô lendo de novo, quando tem o próximo?
    Quero saber quando elas começaram a trocar cartas, quem é “aquele cara” qual foi o ataque que a Karina teve…
    Uma vez por semana é muito pouco 😢

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    • Janeiro 19, 2018 em 7:31 pm
      Permalink

      Provavelmente na terça-feira. Já está próximo delas começarem a trocar cartas, no próximo capítulo vai acontecer algo que vai deixar Rebecca querendo acabar com isso de R.A, esses outros acontecimentos, só mais para frente 😜 Queria postar mais por semana, mas por enquanto sem condições 😢 Mais uma vez, muito obrigada por tirar um tempinho pra comentar aqui ❤

      Resposta
      • Janeiro 19, 2018 em 11:41 pm
        Permalink

        Ainnn vou ter que aguentar até lá.

        Resposta

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