Romântica Anônima: Capítulo 5 – Quem é essa pessoa?

Ensino médio

— Ah! – Rebecca grunhiu, fechando o livro e apoiou a cabeça em cima dele.

— O que você está fazendo aqui? – perguntou Julie, aproximando-se da mesa que Rebecca estava sentada. Ouviu um “shhh” vindo da bibliotecária da escola. Revirou os olhos, sem paciência. Ninguém ligava se as pessoas estavam fazendo silêncio na biblioteca ou não. Pelo menos ela não ligava. – Te procurei pela escola inteira. – sentou-se na cadeira ao lado dela.

— Acho que vou enviar um currículo para o “More Cheese, please”. – disse erguendo a cabeça para falar olhando para a melhor amiga. – Devo poder comer meu lanche favorito todos os dias, então não vou odiar completamente o trabalho.

— Sua família está passando por alguma dificuldade financeira e você esqueceu de me contar? – indagou Julie um pouco preocupada.

— Não. – respondeu Rebecca sem entender o motivo da pergunta. – Vou precisar de um emprego já que nunca vou fazer faculdade.

— Você pode ser mais clara, por favor? – pediu Julie esboçando um sorrisinho forçado. Às vezes Rebecca esquecia que as pessoas não moravam dentro de sua cabeça, portanto ficava difícil de entender as coisas que ela dizia – ou tentava dizer.

— Sabe a desculpa que todo mundo usa pelo menos uma vez na vida “Professor, o cachorro comeu a minha lição de casa”? – Julie assentiu, encarando a amiga com toda atenção do mundo. Não queria perder alguma parte da linha de raciocínio, continuar sem entender e ter que perguntar de novo. – Meu cachorro comeu minha lição de casa, literalmente. – disse em um tom choroso. – Agora eu vou levar zero no trabalho de física. Eu nunca levei zero na minha vida. Meu sonho de fazer arquitetura acabou. – deitou a testa mais uma vez entre os livros. Julie piscou demoradamente. Se Rebecca não pensasse em fazer arquitetura poderia facilmente fazer teatro, pois fazia um drama como ninguém.

— O seu futuro não acabou por causa de um trabalho de física que você não vai entregar.

Rebecca levantou a cabeça dos livros, encarando a amiga com os olhos semicerrados e uma expressão emburrada. Como Julie ousava dizer uma coisa daquelas? Cadê a empatia pelo fim do seu futuro?

— Conte o que aconteceu. Tenho certeza que o senhor Mathews vai deixar você entregar o trabalho outro dia.

Rebecca soltou uma risadinha, fazendo a amiga franzir o cenho por causa de toda a sua atitude descontrolada. A garota loira fez uma careta logo em seguida. Julie não estava mesmo entendendo toda a gravidade.

— Eu te emprestaria o meu trabalho para copiar, mas o entreguei ontem e foi você que me ajudou a fazê-lo, então… – deu de ombros, levantando-se da cadeira. – Vamos. – deu uma leve batida no braço de Rebecca. – Se isso prejudicar sua ida a Columbia University, prometo entregar currículo junto com você.

— Oh…  – Rebecca esboçou um sorrisinho encantado, levando as mãos até o peito. – Você jogaria seu futuro fora por minha causa?

— Tá louca? Eu vou ser só a sua companhia. – riu de deboche. – Trabalhar no “More Cheese, please”. – disse as palavras como se fosse um tremendo absurdo. – Eu não queria nem trabalhar. Meu sonho era viver de herança, mas minha família não tem herança.

— Você iria ficar pobre em um ano. – disse Rebecca levantando-se da cadeira. – E ia pedir emprego no “More Cheese, please”. Eu já seria gerente até lá. – esboçou um sorrisinho. – Como eu fui destruir o meu futuro desse jeito? – indagou em um tom choroso.

Julie revirou os olhos, puxando a amiga para fora da biblioteca. Definitivamente ela podia fazer teatro.

***

— Senhorita Mitchell. – o professor chamou por Rebecca ao fim da aula.

Rebecca fechou os olhos, fazendo uma expressão de que estava odiando o universo naquele momento. Nem era tão alta assim, então tentar sair da sala no meio dos jogadores de futebol deveria ter funcionado. Mas não, o professor ainda conseguiu vê-la.

Rebecca resolveu fingir que não escutou o professor chamando por seu nome e continuou andando no meio dos meninos, torcendo para que o professor escolhesse outro aluno para falar o quanto não teria futuro na vida por não ter entregado o trabalho de física.

— Senhorita Mitchell, um minuto, por favor.

Rebecca fechou os olhos, amaldiçoando o universo mentalmente e virou-se, caminhando em direção a mesa do professor. Ela sabia que deveria ter levado lenços para a aula, pois assim que o professor acabasse de vez com os seus sonhos, choraria a quantidade de água que foi utilizada para fazer o Dançando na Chuva.

— Sim, senhor Mathews. – disse com um sorrisinho forçado, cruzando as mãos na frente do corpo, totalmente desconfortável.

— Só queria lhe dar os parabéns. – disse entregando um papel para Rebecca. – Você é de longe uma das minhas melhores alunas. Continue assim.

Rebecca olhou para o papel em suas mãos, achando que era algum tipo de deboche do professor. Ele tinha esse costume de debochar dos alunos que não se esforçavam e, o seu maior pesadelo, era entrar para a lista de alunos debochados. Ela surpreendeu-se ao ver que era o seu trabalho de física que o professor lhe entregara, o único problema é que ela não havia entregado trabalho nenhum.

Rebecca sorriu de forma sem graça, ainda tentando entender como aquilo aconteceu.

— Obrigada. – respondeu intercalando o olhar entre o trabalho em suas mãos e o professor. – Prometo que vou dar o meu melhor para continuar assim. – gesticulou de forma desajeitada, ainda sorrindo que nem uma idiota. – Obrigada. – achou-se idiota por ter repetido aquilo. Gesticulou de forma atrapalhada de novo, andando de costas. Ela estava realmente desconsertada por causa daquele trabalho que era para ser sua ruína e, simplesmente do nada, acabou sendo sua salvação.

— O que você tem aqui? – Julie arrancou o trabalho da mão da amiga assim que encontrou com ela na porta da sala. – Porra, Rebecca! Como você tirou 10 em um trabalho que o seu cachorro comeu sendo que eu tirei 9 no meu? – Julie fez uma breve pausa, pensando em suas palavras. – Como você tirou 10 em um trabalho que o seu cachorro comeu? – perguntou novamente, dessa vez realmente em dúvida.

— Eu não sei! – pegou o trabalho de volta. – Eu não entreguei esse trabalho. – disse olhando mais uma vez para o papel. Aquela não era sua letra. — Você viu que em “experiência” no meu currículo eu ia colocar “experiência em ser explorada pela minha ma…”. – ela não conseguiu concluir por causa de algo que leu no trabalho. Ela fez um barulho com a boca, desacreditada. – R.A. – colocou o dedo próximo as iniciais no roda pé da folha, mostrando para Julie. – Quem é essa pessoa? – questionou um pouco incomodada.

— Algum menino apaixonado e muito bom em física. – Julie respondeu naturalmente, não vendo problema nenhum naquilo.

— Por que ele não vem falar comigo como uma pessoa normal, então? Isso aqui… – balançou o papel. – É assustador.

— Como você chama de assustador algo que salvou o seu futuro? Esse menino merecia até uma noite de sexo de agradecimento. – Rebecca franziu o cenho, encarando a melhor amiga totalmente horrorizada. – Com toda certeza deve ser a primeira vez dele, então… – deu de ombros. – Queria ter eu um R.A. Só assim ia tirar 10 em todas as aulas de exatas.

Rebecca grunhiu, revirando os olhos e saiu andando na frente de Julie. Ela não sabia se estava mais assustada ou irritada com a atitude do R.A. Primeiro o lanche, agora o trabalho de física. Qual seria a próxima esquisitice que ele iria fazer?

Eu não sei.

Talvez trabalhar com você futuramente sem você fazer a menor ideia de que era ela esse tempo todo.

Atualmente

Samantha entrou no apartamento fazendo o menos de barulho possível. Ela olhou para os lados, certificando-se de que Karina ainda não estava por ali e fechou a porta com toda delicadeza que não possuía. Deu dois passos em direção ao corredor dos quartos, praticamente na ponta dos pés.

— Bom dia! – Karina fechou a porta da geladeira, segurando um copo de suco e esboçando um dos seus maiores sorrisos debochados. Ainda de costas para a cozinha, Samantha parou de andar, fechou os olhos e amaldiçoou todos os seres divinos. Será que sempre seria pega quando tentasse chegar de fininho pela manhã? – Como foi a sua noite?

— Ótima! – respondeu, virando-se e caminhando em direção a cozinha. – E minha manhã foi melhor ainda. – esboçou um sorriso tentando chegar ao nível de deboche de Karina. – E a sua noite, como foi? – encostou-se no balcão, fingindo interesse na história.

— Quando você ia me contar que a sua namorada invisível, na verdade, é a minha outra chefe?

— Provavelmente nunca. – respondeu tranquilamente dando a volta em Karina para chegar até a cafeteira. – Eu nunca mais iria vê-la, então não tinha o que contar, mas você tinha que me chamar para jogar boliche, não tinha, Karina? – Samantha disse em um tom desapontado enquanto enchia uma xícara de café.

— Agora a culpa é minha? – Karina indagou, incrédula. – Como eu ia adivinhar?

— Eu te consegui uma entrevista em uma empresa que duas mulheres são sócias. Uma é a sua paixão da adolescência, portanto eu nunca ficaria com ela. Só era fazer as contas. – esboçou um sorrisinho, tomando um gole de seu café.

— Pensei que alguma cliente sua tivesse me indicado. E não venha tentar virar isso contra mim não. Se você sabia por que aceitou ir jogar boliche?

— Porque eu pensei que ela ainda estaria fazendo a viagem de noivado. – disse as palavras finais enojada, fazendo uma careta. – Você estragou tudo. – balançou a cabeça em negativo, inconformada.

— Eu… – Karina soltou um riso de nervoso. – Eu… – ela passou a mão pelos cabelos, tentando encontrar a forma correta de responder aquele absurdo. – Você que saiu do boliche com ela! Como isso pode ser culpa minha?

— Ela é minha kryptonita. – disse naturalmente. Karina franziu o cenho, encarando-a de forma incrédula. – E, a propósito, nós estamos namorando agora.

— Vocês estão… – Karina não conseguiu repetir a frase. Seu cérebro estava entrando em curto-circuito. – Samantha, pelo amor de Deus!

— Não, você não vai começar com os seus sermões. – disse Samantha caminhando para fora da cozinha.

Karina ia, mas o celular notificando a chegada de uma mensagem impediu que ela o fizesse. A morena leu a mensagem, esboçando um apaixonado sorriso. Samantha assistia a cena achando aquilo a coisa mais patética e ao mesmo tempo mais fofa do mundo inteiro. Provavelmente a parte de achar aquela cena fofa era por causa da noite e da manhã que teve, mas isso não vinha ao caso.

— Não, eu não vou. – Karina lembrou que precisava responder a amiga, mas continuou com a atenção voltara para o celular. – Porque eu tenho que ir trabalhar. – pegou a bolsa em cima do balcão. – Mas mais tarde nós vamos conversar.

— Por que eu ainda tenho esperança de algum dia me livrar dessas conversas chatas? – disse para si mesma, pois Karina já tinha deixado o apartamento. – Por que uma mulher não pode ter uma namorada que tem um noivo? Não é como se eu fosse a que está colocando chifre na história. – continuou em um tom óbvio, como se fosse completamente normal tudo que estava dizendo. – Acho melhor eu me arrumar para trabalhar porque estou falando sozinha. – disse caminhando em direção ao quarto. – E continuo falando sozinha. É oficial! – abriu a porta do quarto. — Elizabeth vai fazer com que eu seja internada qualquer dia desses.

***

Rebecca estava encostada na árvore responsável por elas terem conseguido que o projeto fosse escolhido quando Karina chegou. A arquiteta estava com um ar triste. Ela olhava para todo aquele imenso espaço verde como se fosse a última vez que fosse olhá-lo ou até mesmo pisar nele. Não precisou muito para que Karina se desse conta de que a loira não estava em um bom dia, ela só queria saber o motivo para ver se tinha alguma coisa que poderia fazer.

— Sabe por que eu escolhi ser arquiteta? – Rebecca fez uma pergunta retórica assim que Karina encostou na árvore ao lado dela. Na verdade, Karina sabia, mas não se importava em ouvir pela primeira vez. – Porque eu sempre amei a ideia de transformar o nada em alguma coisa. Eu costumava ter baldes de lego quando era criança porque amava tudo que podia construir com eles. Uma hora as folhas do meu caderno estavam em branco, na outra tinha uma casa de praia ou um arranha-céu. Sempre que eu olhava para terrenos como esse eu pensava: “Aquele prédio que eu passei a última semana desenhando ficaria ótimo aqui”. As pessoas gostam do que está pronto, eu gosto de todo o processo até estar pronto. Eu estou parecendo uma louca, não estou?

Rebecca soltou um riso sem graça, passando a mão pelos cabelos. A forma que Karina estava a olhando, embora não parecesse com alguém que estava a julgando, causou um pouco de incomodo. Às vezes ela queria ter o poder de ler mentes para saber exatamente o que estava passando pela cabeça de Karina. Mas, se ela tivesse o poder de ler mentes, iria se sentir uma idiota por se incomodar com os olhares, pois Karina estava a olhando da forma mais pura e apaixonada que existia. Para a morena, estava sendo o alto de sua manhã ouvir Rebecca dizendo aquelas coisas, não somente ler em uma carta, sem poder ver o brilho no olhar da arquiteta sempre que ela contava sobre a escolha de sua profissão.

— De jeito nenhum. – Karina negou, soltando um riso. – Eu enlouquecia minha mãe quando ela resolvia fazer alguma reforma. Em Los Angeles eu conheci uma roteirista que disse que a primeira vez que fez a aula de roteiro nunca mais viu os filmes e as séries com os mesmos olhos. Nós quando assistimos aos filmes é aquilo que está na tela pronto e acabou. Para ela, toda vez que via uma cena, pensava: “Como será que isso estava escrito no roteiro?”. Acho que isso serve para nós também. Nós não vemos esse terreno como o… – olhou para a imensa placa que tinha logo a frente. – “Em breve, um novo conceito de moradia”, nós vemos os tijolos, os pedreiros, cada centímetro que vai ser usado para o projeto sair exatamente como está no papel, para não acontecer de fazer um prédio torto. – brincou na frase final, arrancando uma risada de Rebecca. Sentiu-se feliz com aquela conquista.

— Você é tão louca quanto eu. – concluiu Rebecca em um tom descontraído. Karina riu. – Uma pena que não vai ser dessa vez que vamos juntar nossas loucuras.

— Por que não? – questionou, confusa. – Não me diga que o Anthony deu para trás e escolheu o projeto do Mark? – disse o nome do engenheiro fazendo uma careta engraçada, arrancando um riso afetado de Rebecca.

— Não. – olhou para o chão, encarando os seus saltos naquela grama verde. – A prefeitura rejeitou o projeto.

— O que? Como assim? Mas já? Desde quando pararam de demorar quase seis meses para dar a resposta? Ou isso é só em Los Angeles porque todo mundo é mais “de boa”. – fez um gesto de “paz” com as duas mãos, imitando um jeito despojado, largado.

— Se você conhece as pessoas certas demora menos, mas normalmente é esse prazo. Só que dessa vez bateram o recorde para recusar um projeto que não tinha nenhuma irregularidade. – Rebecca afastou-se da árvore, andando de um lado para o outro, bastante agitada. – Eu não entendo! – gesticulou, balançando os braços no ar tentando demonstrar o tamanho de sua indignação. – Eu nunca tive um projeto rejeitado antes.

— Deve ter acontecido algum tipo de erro. – Karina tentou confortá-la. – Nós revisamos os documentos dezenas de vezes. – Rebecca só conseguiu assentir, indignada com aquela situação. – Então é isso?

— Então é isso. – ela confirmou, cabisbaixa. – O tombo do Mark vai ter que ficar para uma próxima.

Como nos desenhos animadas, uma luz acendeu na cabeça de Karina ao ouvir o nome do engenheiro traidor.  Durante seus 7 anos de trabalho nunca viu um projeto ser aceito ou rejeitado tão rápido. Até os projetos mais negligentes demoravam pelo menos um mês para ter a resposta. Alguma coisa estava errada e a sua meta do dia era descobrir o que era.

— Você vai para o escritório agora? – perguntou Karina como quem não queria nada. Rebecca balançou a cabeça em negativo, andando de um lado para o outro no terreno. – Quer que eu te faça companhia? Eu tenho algumas coisas para resolver no escritório, mas…

— Não, não… Pode ir. – esboçou um fraco sorriso. – Eu vou ficar bem. Tenho um compromisso daqui a pouco também, então só devo aparecer no escritório depois do almoço.

— Então nos vemos depois do almoço. – disse Karina esboçando um sorriso. Sem perceber, Rebecca também sorriu ao ver as covinhas da morena a amostra. Ela ficava tão mais adorável quando suas covinhas apareciam. Karina ficou confusa pelo motivo do sorriso, mas não se importava, gostava quando Rebecca sorria daquela forma para ela.

— Nos vemos depois do almoço. – respondeu Rebecca ao finalmente conseguir sair do transe causado pelas covinhas de Karina.

A engenheira assentiu, sem conseguir diminuir o sorriso bobo que estava em seu rosto e virou-se, andando em direção a saída do terreno. Rebecca a observou deixando o lugar, novamente sem parar para se questionar o motivo de estar sorrindo de forma tão boba por causa de Rebecca.

***

— Ei! – Elizabeth gesticulou, chamando por Karina.

A engenheira parou no meio do caminho, olhando com confusão para a ruiva. Liz poderia ser sua chefe, mas não fazia a menor ideia do que poderia querer com ela. Karina caminhou até o escritório da designer de interiores com um pouco de receio. Poderia não se intimidar mais com a ruiva por ela ser sua outra chefe, mas depois de descobrir que Liz era a namorada invisível de Samantha, confiança ela não lhe passava.

— Bom dia? – Karina desejou com um tom de dúvida. Elizabeth poderia parecer uma mulher normal, mas mesmo assim Karina tinha um medo inexplicável da mulher matá-la e desová-la em um lugar onde ninguém nunca encontraria o seu corpo.

— Bom dia. – Elizabeth desejou, um pouco agitada. Ela fechou a porta trás de si. Karina deu dois passos para trás. Era agora que iria morrer e ninguém ia ver. – Isso vai parecer um pouco estranho, mas… – Liz limpou a garganta, dando a volta em sua mesa. – Eu sei que você é a melhor amiga da Sam, então… Ela disse alguma coisa sobre mim? Sobre nós? Está tudo bem mesmo?

Karina piscou demoradamente por várias vezes, tentando processar o que tinha acabado de ouvir. A outra sócia do “View” tinha a chamado em sua sala para conversar sobre sua vida amoroso ao invés de alguma coisa relacionada ao trabalho? Karina não teria ficado tão incomodada – para não dizer irritada – com a falta de senso, caso Liz fosse uma mulher solteira, não uma mulher noiva que todo mês fazia com que sua melhor amiga ficasse na fossa. Ela tentava não julgar toda essa situação, mas em momentos como aquele ficava bem difícil.

— Eu espero que isso não soe rude, afinal, você é minha chefe, mas… – ela tomou um pouco de ar antes de continuar. — Não me chame mais para falar do seu relacionamento com a minha melhor amiga. Eu falava muito mal de você, aconselhei ela a te largar dezenas de vezes, então agora que eu sei que a namorada invisível dela é minha chefe, isso torna as coisas mais difíceis porque qualquer pensamento que eu tenho contra você, acho que vai acabar na minha demissão e, eu sei que faz somente uma semana que estou trabalhando aqui, mas eu realmente estou gostando desse trabalho, então… – caminhou até a porta. – Só não a magoe dessa vez, coisa que eu sei que vai ser difícil já que você tem um noivo, mas não custa nada fazer o pedido. – abriu a porta. – Tenha um bom dia. – deixou o escritório.

Elizabeth acompanhou com o olhar Karina caminhar até o seu escritório. Sua boca estava entreaberta e, por alguns instantes, ela esqueceu como se pronunciava as palavras. Na verdade, o seu cérebro apagou completamente e ela esqueceu até como se chamava. Preferia quando era a namorada invisível, assim não precisava lidar com amigas superprotetoras. Não era como se ela fosse quebrar o coração de Samantha novamente. O que poderia dar de errado naquele namoro?

Paul Prince era um renomeado juiz da Califórnia e sua fama lhe procedia em todos os estados. Quando resolveu fazer direito a meta era chegar exatamente onde estava. Trabalhou dia e noite, colocou o emprego em cima da família e, acabou perdendo a família durante todo o processo. Ele não se arrependia do duro que deu para chegar onde chegou, mas se na época pudesse fazer alguma coisa diferente para não ser o responsável pelo fim de seu casamento, provavelmente ele teria feito.

Ou talvez isso fosse somente algo que ele dizia para se sentia melhor depois da crise que Karina teve. Ninguém nunca poderia afirmar com certeza se ele tivesse uma segunda chance optaria por salvar seu casamento ou se faria tudo de novo. Afinal, ele amava o que fazia. Sentia-se realizado por ser um rosto que representava justiça e que todos respeitavam.

Às vezes a vida lhe dá segundas chances, mas não em forma de uma máquina do tempo para que você vá até o passado e faça escolhas diferentes. As segundas chances que a vida lhe oferece são em pequenos momentos para que novas escolhas sejam feitas no presente.

A situação poderia ter sido desesperadora, mas quando Karina entrou em curto, sendo recomendado que ela passasse um tempo longe de toda aquela bagunça, essa foi a segunda chance que Paul nem sabia que precisava – ou queria.

Agora, ele e a filha eram mais próximos como nunca foram na vida. Quando Karina voltou para Nova York, nenhum dos dois poderia afirmar que isso iria durar, mas uma promessa silenciosa foi feita. Eles tentariam. No momento, não estavam se saindo tão bem assim, mas um passo de cada vez, certo?

Por conhecer a fama do pai, ter ciência de todos os grandes contatos que possuía por todo os Estados Unidos, Karina resolveu ligar para ele. O mínimo que poderia acontecer era receber um “não” pelo que iria pedir, entretanto ninguém iria poder dizer que ela não tentou.

— Não, não aconteceu nada, pai. – respondeu Karina entre risos assim que Paul atendeu ao telefone. – Se não estiver ocupado, gostaria de pedir um favor. —…— Pode checar algo para mim?

***

— Eu estou dizendo, ela me odeia. – disse Elizabeth pegando o seu pedido no foodtruck. Samantha inclinou um pouco a cabeça, não querendo concordar com aquela afirmação, embora fosse a mais pura verdade. – Mas, eu não a culpo. Eu fui bem antiprofissional a chamando para falar de nós duas. Quem faz uma coisa dessas? – disse, chateada com seu próprio comportamento. Ela se sentou em uma das mesas que tinha ao redor do foodtruck e encarou sua comida com um olhar triste. – Eu só estava com medo de você mudar de ideia.

— Ei… – Samantha ergueu o queixo dela com as pontas dos dedos. – Eu não vou mudar de ideia. Toda essa situação é bem fodida, mas nós vamos dar um jeito. – esboçou um sorriso. – Uma hora o Leo vai descobrir que você pula a cerca e esse vai ser o meu momento de ser a única pessoa da sua vida. – disse naturalmente, dando uma mordida em seu lanche. Elizabeth a encarou com uma expressão horrorizada. Quem em sã consciência torceria para um desastre daquele acontecer? – Ela te odeia. – Sam teve que ser sincera. – Mas porque ela nunca te conheceu realmente. Ela só te conhece por todos os termos pejorativos que eu usei para falar sobre você.

— Ela deve achar que eu sou louca. – resmungou. Samantha inclinou a cabeça novamente. Queria dizer o oposto, mas tinha quase certeza que Karina achava Liz louca mesmo. Afinal, quem em sã consciência chama uma funcionária que acabou de conhecer para conversar sobre a vida amorosa e que envolve a melhor amiga ainda por cima? – Nós estamos realmente bem? Você não vai me bloquear de novo?

— Nós estamos realmente bem. – confirmou Samantha. – E, por enquanto, eu não vou te bloquear de novo. – Elizabeth uniu as sobrancelhas, processando o que acabara de ouvir e não gostando nenhum pouco. – Amor, aceite isso. – deu um rápido beijo nela. – Você vai comer a sua batata?

— É claro que eu vou comer a minha batata! – Liz tirou a cestinha com batatas de frente da namorada. – Toda vez quer comer minhas batatas. Pede um lanche com batatas para você.

— A sua é mais gostosa. – disse Samantha com um sorrisinho malicioso de canto de rosto. Elizabeth revirou os olhos e, logo em seguida, as duas riram daquela bobeira.

***

— Está tudo certo! – Rebecca entrou no escritório de Karina completamente esbaforida. – Nós vamos poder dar sequência a construção. Foi um erro da prefeitura. Não tem nada de errado com o nosso projeto. – ela deu dois pulinhos animados, parecendo uma criança quando recebe uma boa notícia.

— Isso… Isso é ótimo! – exclamou Karina com um largo sorriso, mas o sorriso não era pela notícia em si.

Seu pai havia lhe dado a notícia horas atrás após conversar com algumas pessoas e descobrir que não tinha mesmo absolutamente nada de errado com o projeto. Ela sorriu por causa do sorriso mais puro que já havia visto na vida que estava estampado no rosto de Rebecca. A arquiteta estava realmente feliz com aquela notícia.

— Isso merece uma comemoração. Bebidas por minha conta.

— Eu não posso. Tenho um encontro hoje à noite. – automaticamente o sorriso que estava estampado no rosto de Rebecca desapareceu. – Podemos comemorar amanhã? Eu pago a primeira rodada.

— Cla—Cla… – Rebecca limpou a garganta, um pouco desnorteada por causa da informação. – Claro que podemos comemorar amanhã. – esboçou um sorrisinho forçado. – Bom encontro para você.

— Obrigada.

No instante que Paul desligou a telefone, avisando sobre o erro da prefeitura, Karina se deu conta de duas coisas: Inconscientemente ela estava sendo a Romântica Anônima novamente; Ela ainda estava perdidamente apaixonada por Rebecca.

Quando Karina decidiu pedir ajuda para o pai, o plano desde o começo era para que Rebecca não soubesse que ela estava por trás do pedido para rever os documentos, por causa disso que a loira recebeu a ligação da prefeitura, não dela. Entretanto, ela se deu conta de que era exatamente isso que fazia na época da escola, a única diferença era que dessa vez seu gesto não veio com um bilhete com as iniciais “R.A”.

Desde o reencontro tentou entender tudo que estava sentindo e, com aquele gesto, se deu conta de que o que sentia ainda era paixão. 8 anos não foram o suficiente para que o seu coração parasse de bater de forma descompensada quando o assunto era Rebecca Mitchell.

Karina nem podia dizer que não tinha o direito de se sentir daquela forma por Rebecca estar noiva pelo simples fato de que aprendeu que ninguém manda no coração, caso contrário, Samantha não continuaria insistindo em um romance que não saia do lugar.

Péssimo exemplo, mas era o que tinha para o momento.

Por causa dessa constatação, decidiu tomar algumas atitudes que não deixariam o seu coração muito feliz, mas eram necessárias.

Se essa era alguma forma do universo ter a certeza de que ela estava mesmo bem, Karina precisava tirar o chapéu para ele. O universo estava fazendo um excelente trabalho. Agora o que restava para ela era seguir realmente em frente. Seu encerramento tinha começado.

***

— Hoje eu falei com o pai. – comentou Karina em meio a um dos assuntos com Donna. Sim, o encontro que Karina tinha era com sua mãe, no apartamento dela. – Ele mandou um “oi”.

— Da próxima vez que falar com ele, diga que eu mandei um “oi também. – respondeu Donna, jogando alguns temperos na salada. – Conversaram sobre o que?

— Tenho certeza que não foi sobre Karina estar trabalhando com Rebecca Mitchell. – disse Samantha, dando um beijo na bochecha de Donna. Ela tinha acabado de chegar. Karina a fuzilou com o olhar. O que custava chegar dizendo “oi” como qualquer pessoa normal?

— Rebecca Mitchell… – Donna fez uma breve pausa, processando o nome que tinha acabado de ouvir. — “A” Rebecca Mitchell? Você conversou de verdade com ela dessa vez?

— Se eu não tivesse conversado com ela, eu teria conseguido o emprego como? – respondeu Karina um pouco ofendida com a insinuação da mãe. Donna deu de ombros. – Mas pelo menos eu não comecei a namorar uma mulher que tem um noivo. – Karina retrucou, frisando a palavra “noivo”, tornando Samantha o assunto da noite.

— Você voltou com a mulher invisível? – indagou Donna, indignada. Ainda não fazia ideia do motivo de ainda se indignar com aquela notícia, mas… – Sam, nós já conversamos sobre isso.

— Por que eu sou o foco dessa conversa quando eu cheguei aqui dizendo que a Karina está trabalhando com a Rebecca? – o tom de Samantha também trazia um pouco de indignação. – Ela ainda está apaixonada pela Rebecca, Donna. – Karina entreabriu a boca, pensando em palavras para responder aquilo, mas nada saiu. Ela só conseguiu ranger os dentes, encarando a melhor amiga com uma expressão desacreditada e um pouco de irritação.

— Você estava no consultório quando o terapeuta disse que a Rebecca não era o problema, certo? – indagou Donna. Samantha assentiu. – Então… Você voltou mesmo com a mulher invisível?

— Ela não é invisível, ela é minha chefe. – revelou Karina, direcionando um sorrisinho cínico para Samantha. – Elizabeth Miller.

— Vocês duas viraram fiscais do amor agora, por acaso? – indagou Samantha em um tom aborrecido. – É proibido se apaixonar por alguém noiva? Não sou que quem estou traindo mesmo. – deu de ombros. – Mas a Karina…

— Para de tentar fazer essa noite ser sobre mim. – retrucou Karina em um tom tedioso. – A mãe já disse que não tem problema.

— Eu não disse isso. – Donna pegou duas travessas com comida e gesticulou para que as meninas pegassem as restantes. – Nós ainda vamos conversar sobre isso essa noite. – Samantha gargalhou, sentindo-se vitoriosa. Karina revirou os olhos. – Sabe, vocês eram menos crianças quando eram crianças. – disse colocando as travessas em cima da mesa. No mesmo instante as duas pararam com a atitude infantil, envergonhadas. – Nós temos a noite inteira para conversar sobre os dois assuntos, mas antes eu quero saber tudo sobre o novo emprego, Karina.

Karina contou absolutamente tudo, sem conter o sorriso. Nunca foi segredo para ninguém o quanto amava o seu emprego, então Donna tranquilizou-se por chegar à conclusão que todas as mensagens que recebeu durante a última semana sobre a filha estar gostando do emprego eram mesmo verdadeiras e, parte disse, não tinha nada a ver com Rebecca ser sua chefe.

Entretanto, tudo que Karina disse também deixou evidente o quanto ela ainda era apaixonada por Rebecca. Isso preocupou Donna, mas não por causa da crise do passado e sim por saber que, eventualmente, o coração de sua filha seria esmagado, da mesma forma que o coração de Samantha era esmagado praticamente todo dia. Por mais que fosse parte da vida, ela odiava ver suas meninas sofrendo, mas as duas eram adultas e, embora Donna sempre estivesse ali para aconselhá-las, a escolha final eram delas e, independentemente de quais fossem essas escolhas, Karina e Samantha teriam que lidar com elas e suas consequências.

Bruna Cezario

Aquela que dorme demais, come demais, fala demais, é fangirl demais, assiste séries demais, shippa demais, faz as pessoas sofrerem com suas histórias demais, farofa demais e tem dinheiro de menos. Prazer!

10 comentários em “Romântica Anônima: Capítulo 5 – Quem é essa pessoa?

  • Janeiro 24, 2018 em 2:15 pm
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    Acaba tão rápido e isso é tão triste 😔

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  • Janeiro 25, 2018 em 5:28 pm
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    Ai meu deus, por que inventei de ler fics?? por que?? quero maaais!!!
    Concordo com a menina ai de cima, acaba mesmo :-/

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    • Janeiro 26, 2018 em 7:22 pm
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      hahahahahahahaha Fica aqui o questionamento. Muito feliz em saber que a leitura acaba rápido isso significa que deve ta agradando, então… ❤

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  • Janeiro 29, 2018 em 1:32 am
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    Agradando e muito!!
    Minha vida agora é ficar aguardando chegar a quarta feira… E demora, viu?!?
    Louca pra ver esse desenrolar acontecendo…

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    • Janeiro 30, 2018 em 4:38 am
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      aaaaaaaa eu não aguento ler essas coisas, eu fico feliz demais. Calma que só mais 24 horas 🙊❤

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  • Janeiro 29, 2018 em 2:49 am
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    Menina Karina ja chega com dois pé no peita da elizabeth jkkkkkkkk
    Sera que vamos ter DUAS SEPARAÇÕES nessa fic? 😬

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    • Janeiro 30, 2018 em 4:33 am
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      Karina sem medo de perder o emprego que faz uma semana que conseguiu. Sam tem sorte de ter uma amiga dessas hahahahaha Uma separação já ta mais do que certa, afinal, pelo que vivem dizendo, Sam e Liz se separam todo mês, então né hahahahahaha

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  • Fevereiro 2, 2018 em 4:43 pm
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    Mana… Não tô te entendendo, tô em abstinência aqui!
    Essa demora é pra postar dois cap. ne?

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    • Fevereiro 2, 2018 em 7:33 pm
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      Desculpa! hahahahahaha Teve um atraso, mas o capítulo vai ser postado ainda hoje. Aliás, já to indo dar uma outra revisão pra postar ele.

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