Romântica Anônima: Capítulo 8 – Você é tão, mas tão bonita

Ensino médio  

Obrigada pelas flores, mas… Quem é você, R.A? Eu realmente quero te conhecer. 

R.M 

 Karina cruzou a entrada da biblioteca a procura de Samantha. Ela não se lembrava da última vez que esteve tão agitada. Suas mãos tremiam e suavam como fazia muito tempo que não acontecida. Sentia-se fraca, com falta de ar. Parecia que a qualquer segundo acabaria desmaiando. Ela olhou em uma parte da biblioteca; Nada de Samantha. Limpou um filete de suor que escorria por sua testa. Embora estivesse suando, a única coisa que sentia era frio e um tremendo mal-estar. O estômago estava totalmente dos avessos e a sensação de que iria vomitar era cada vez mais forte. Ela encontrou Samantha em uma mesa próxima a janela. Puxou a gola da blusa, tentando sentir-se um pouco mais confortável, tentando respirar melhor, mas parecia que tudo que fazia só piorava sua situação. O coração de Karina batia tão forte em seu peito que estava doendo. Parte do seu braço esquerdo começou a doer e a garota pensou que era isso, sua hora havia chegado. 

— Karina? – Samantha levantou-se abruptamente da cadeira que estava sentada, espantada com a expressão pálida da melhor amiga. – O que aconteceu? Você está bem? 

— Ela… – Karina respirava com bastante dificuldade. Quanto mais tentava buscar ar, mais ar lhe faltava. – Ela… – fechou os olhos, levando a mão até o peito. Tudo em sua região torácica doía e ela só queria que parasse. 

— Karina… – com cautela, Samantha pousou as mãos uma em cada braço de Karina. – Olha para mim. – a garota tentou desvencilhar-se dos braços da amiga, mas Samantha a apertou com um pouco mais de força, impedindo que ela o fizesse. – Olha para mim! – disse com um pouco mais de firmeza em seu tom de voz, sacudindo levemente Karina. A garota de 17 anos olhou para a melhor amiga, em seus olhos Samantha pôde ver um tremendo desespero. – Agora respira. – ela inspirou, fazendo um gesto pedindo para que Karina fizesse o mesmo. A morena a copiou. – Expira. – ela soltou o ar de seus pulmões e Karina fez o mesmo. Fizeram isso mais três vezes que foi quando Samantha se certificou de que Karina havia voltado para o seu estado normal. Ou próximo a isso. – Agora, me diga, o que aconteceu? 

— Ela deixou um recado no mural de recados. Ela quer me conhecer. 

— A Rebecca? – indagou Samantha, quase que em um grito de perplexidade. – Porra! O que você vai fazer? 

— Eu não sei. – Karina sentou-se. Sua boca voltara a salivar e o seu estomago doía. Se fosse mesmo vomitar a qualquer momento, causaria um grande estrago no carpete as biblioteca. – Eu não posso falar com ela. 

— Por que não? 

— Você sabe como eu fico perto de pessoas. Então, com toda certeza vou ficar três vezes pior perto dela. – encolheu-se na cadeira, tentando diminuir a dor no estômago que sentia. – O que eu vou fazer? 

— Escreva de volta para ela. 

— Dizendo o que? – ajeitou-se na cadeira, inquieta. – E se isso tudo for um plano para ela descobrir quem eu sou? – balançou a cabeça em negativo, abominando todos os pensamentos mais obscuros que passavam em sua cabeça. – E se ela não for tudo isso que eu idealizei? E se ela estiver pensando em alguma forma de me humilhar na frente de toda a escola? – ela começou a hiperventilar, sentindo novamente a caixa torácica doer. 

— Karina, cala a boca! – esbravejou Samantha, ganhando a atenção de todos da biblioteca, especialmente a da melhor amiga que a encarou com espanto. Ouviu um pedido de silêncio bem de longe, mas ignorou. A bibliotecária deveria parar de pedir para que as pessoas fizessem silêncio na biblioteca. – Eu conheço a Rebecca, ela não é esse tipo de garota, então você tem duas opções: Não responde-la e esquecer essa porra de Romântica Anônima. – disse contabilizando no dedo. – Ou pode responde-la e deixar que eu cuido do resto. 

— Como você vai fazer isso? 

Samantha sorriu, sugestivamente, mas não disse uma única palavra. Karina teria que confiar nela. 

Rebecca bateu ponto em seu armário. Todo intervalo entre as aulas ela se escondia em uma coluna que dava a visão perfeita para o seu armário e aguardava para ver se alguém deixaria alguma coisa lá. Enquanto isso, Julie ficava encarregada de ver se o recado havia sido respondido no mural. 

A garota de 16 anos viu Julie chegando de longe. A morena balançou a cabeça, respondendo que não havia nada no mural. Rebecca suspirou, frustrada. Talvez isso fosse terminar novamente como sua lista para descobrir quem era o R.A. Era melhor desistir antes que acabasse de vez com a sanidade que lhe restava. 

— Podemos virar cientistas. Eles amam resolver um mistério. – sugeriu Julie em tom debochado. 

— Eles ainda não conseguiram provar a existência de Deus, então… – ergueu os ombros. Julie riu, balançando a cabeça em negativo. – Acho melhor eu me conformar de que… 

Rebecca não conseguiu concluir. Abruptamente Julie a virou pelos braços, fazendo com que ela olhasse para um menino negro que se aproximava de seu armário. A morena ficou um pouco perplexa. Já havia se conformado antes mesmo de Rebecca que não conseguiriam descobrir quem era esse R.A, então (supostamente) vê-lo fez com que as palavras fugissem. 

— Ei, você! – disse Rebecca em tom autoritário, apontando para o menino enquanto  andava na direção dele. Ignorou todos os olhares que recebeu dos alunos que transitavam por ali. – Será que finalmente podemos conversar, senhor R.A? – cruzou os braços assim que ficou cara a cara com o menino. Ele deu um passo para trás, bastante intimidado por Rebecca. – Então…? 

— Então… – o garoto coçou a cabeça, um pouco desnorteado. – Eu não… – ele estendeu um envelope para Rebecca. – Eu não sou esse tal de R.A. Juro. Só me pediram para que eu deixasse isso em seu armário. 

— Quem pediu? 

— Eu não tenho a autorização de dizer isso. – respondeu com receio. A expressão séria de Rebecca estava o assustando. – Será que você podia… – balançou o envelope em sua mão. – Senão vou acabar me atrasando para a aula. 

Rebecca olhou por alguns segundos para a mão do garoto e pegou o envelope. 

— Obrigada. – agradeceu. O garoto assentiu, virando rapidamente e se afastando em passos largos de Rebecca. Era melhor ninguém manda-lo fazer aquilo novamente, pois ele não iria. – Mas é um frouxo mesmo. Por que não veio me entregar o envelope pessoalmente? 

— Eu não faço a menor ideia. – respondeu Julie ironicamente.  

Quem em sã consciência se intimidaria por alguém que afronta os outros pelos corredores da escola, não é mesmo? 

Eu não me sinto confortável em revelar quem eu sou, mas se você quiser podemos continuar conversando por cartasO que você acha? As cartas podem ser deixadas na biblioteca, sessão 10, prateleira 3, quarto livro. 

R.A. 

— Eu acho que já deu. – comentou Julie após Rebecca terminar de ler o bilhete.  

— Não era você que dizia que eu não servia para comédias românticas? 

— Você não está mesmo pensando em seguir com isso. Está? 

Claro que ela estava. 

Atualmente 

— Bom dia! – desejou Samantha animadamente entrando no apartamento. – Bom dia! – deu um tapa na bunda de Karina que estava terminando de se servir uma xícara de café. – Bom dia! 

— Como isso funciona, exatamente? – indagou Karina com curiosidade. – Eles não moram juntos? 

— Não. – respondeu Samantha com um largo sorriso. Nenhuma pergunta que Karina fizesse estragaria o seu bom humor. – E ele está viajando. 

— Ah ele é esse tipo de namorado. – concluiu Karina fazendo uma expressão de que havia entendido absolutamente tudo. – Você vai na festa surpresa? 

— Da Camille? – perguntou dando uma mordida em uma maçã. Karina assentiu. – Claro! Amo festas surpresas. E a Liz me convidou. Como andam as coisas entre você e a Rebecca? 

— Não existe “coisas” nenhuma andando entre nós duas. – respondeu Karina com um pouco de desânimo. – Todo mundo tem um amor que não pode ter, eu já me conformei que a Rebecca é o meu. 

— Credo! Você está parecendo um livro de romance ruim. – Samantha passou por Karina, mas antes de deixar a cozinha, apoiou a mão no ombro da melhor amiga. – Se você resolvesse entrar no jogo, eu tenho certeza que você ganharia. 

— O que você está dizendo? – Karina virou-se para olhar a amiga que já estava no meio da sala, indo em direção ao corredor que dava nos quartos. – Eu não quero ser a amante dela. 

— Quem está falando em ser amante? Eu estou dizendo que ela escolheria você. – Samantha mandou uma piscadela para a melhor amiga seguido de um sorriso e sumiu no corredor. 

Karina entreabriu a boca, pensando em algo para dizer, mas qual era o sentido? Samantha nem estava mais ali. Ainda bem que não estava. A engenheira não fazia ideia de como responder aquilo. Ela não fazia ideia do que pensar sobre aquilo. Primeiro Mary comenta sobre a “confusão” de Rebecca, agora Samantha fazia aquela insinuação. Será que ela havia perdido algo? As pessoas ao seu redor pareciam saber bem mais do que ela. 

*** 

A noite com Jonathan não foi como Rebecca esperou. Havia sido boa, mas recordava de ter tido melhores. Ela tentou de todas as formas deixar de lado toda a confusão que acontecia dentro de si e focar somente em ter uma noite agradável com o noivo, mas não conseguiu. Toda vez que tentava algo para recordar o verdadeiro motivo de ter aceitado casar com Jonathan, Karina vinha em sua mente. Por alguns segundos, enquanto trocava carícias com o noivo, sentia como se estivesse traindo a engenheira. Mas como poderia estar a traindo sendo que as duas não tinham nada? Que tipo de atração confusa era aquela? Deveria pensar que estava traindo Jonathan sempre que pensava em beijar Karina ou quando desejava estar com ela ao invés de estar com o seu noivo.  

Como uma pessoa que conhecia a um pouco mais de um mês poderia estar fazendo tanta bagunça em sua cabeça? 

— Você está bem? – perguntou Elizabeth. Fazia quase um minuto que estava parada de frente para Rebecca, mas a amiga parecia estar em outro mundo. 

— O que? – Rebecca balançou levemente a cabeça, tentando voltar a órbita. – Sim, eu acho que sim.  

— Só vim perguntar se você pode ir buscar o bolo da Camille ou se mandamos alguém. Eu tenho um cliente marcado para o horário… 

— Eu posso ir buscar. – respondeu Rebecca, ainda um pouco aérea. Dezenas de perguntas passavam por sua cabeça. Queria fazê-las para Liz, mas não sabia como elas estavam depois do dia anterior e, se ainda estivessem em maus pés, não tinha cabeça para lidar com aquilo. 

— Tudo bem. – Elizabeth esboçou um sorrisinho, dando três passos de costas para a saída do escritório. – Me desculpa por ontem. – disse parando no meio do caminho. – Eu ainda quero ser sua madrinha, se você me quiser, claro. Prometo diminuir os shows na próxima vez. 

— Claro que eu ainda quero que você seja a minha madrinha. – ela sorriu de forma singela. – Me desculpa pela forma que eu respondi, você também é minha amiga… 

— Você não precisa fazer isso, eu sei que ela chegou primeiro, então… – colocou a mão na porta de vidro, abrindo-a lentamente. – Que história é essa de você, Sam e um baile de formatura? 

Rebecca soltou uma gargalhada. Não acreditava que Samantha tinha mesmo ressuscitado aquele assunto. 

— Sua namorada é uma idiota. – Rebecca limitou-se a dizer. – Mas ela é uma excelente dançarina. 

— Eu sei. – Elizabeth sorriu de forma maliciosa. Rebecca riu. – Você tem certeza que está bem? 

— Só estou com muita coisa na cabeça, mas não é nada demais. 

Elizabeth murmurou um “tudo bem”, mandou um sorriso complacente a amiga e deixou a sala. Rebecca sabia onde acha-la caso precisasse de algo.  

No momento, a única coisa que Rebecca precisava era de um cérebro novo. Ou de um coração. Depende do lado de qual órgão você fica sempre que está passando por uma confusão sentimental. 

Para a sorte da sanidade de Rebecca, Karina passou o dia inteiro supervisionando a construção do prédio. Havia dezenas de papéis para ela assinar, entregas para supervisionar e, embora confiasse em cada um da equipe pelo simples fato de Rebecca confiar neles, uma hora ou outra procurava ter certeza de que ninguém estava entortando aquele prédio. Ela conhecia os seus cálculos, conhecia o seu projeto, então sabia o lugar exato que cada tijolo deveria ser colocado. 

Durante todo o dia Karina mandou algumas mensagens para Rebecca. Por mais que a loira tivesse esboçado um largo sorriso e sentido seu coração pular do peito com cada uma delas, Rebecca não respondeu. Precisava aproveitar toda e qualquer oportunidade de distância de Karina para colocar sua cabeça em ordem. Claro que Rebecca resolveu se afundar no trabalho, ignorando qualquer pensamento  que tinha referente a arquiteta.  

Existia maneira melhor de resolver os problemas que não fosse fugindo deles?  

Claro que não!  

Um livro por Rebecca Mitchell, em uma livraria mais próxima de você. Ou em ebook para quem não sabe apreciar o cheiro de um bom livro. 

Às 17 horas Karina chegou com as bebidas e copos plásticos que ficou encarregada de comprar. Toda a recepção estava enfeitada com bexigas e uma faixa de “Feliz aniversário” para Camille. Enquanto Rebecca distraía a assistente, todas terminavam de arrumar os últimos detalhes da festa no mesmo instante que alguns convidados iam chegando. Algum tempo depois Elizabeth bateu na porta do escritório da sócia amiga, inventando uma desculpa qualquer para que as duas deixassem a sala. 

— Surpresa! 

Todos gritaram realmente surpreendendo Camille. Ela riu, emocionada e fez diversos agradecimentos. Essa não era a primeira festa surpresa que a View preparava para ela, mas mesmo assim ela sempre se surpreendia por não saber exatamente quando iam lhe fazer uma festa surpresa ou iam surpreendê-la com algum tipo de presente. Suas chefes nunca deixavam a data passar em branco, de ninguém. 

— Oi! – disse Karina com um pequeno sorriso, aproximando-se de Rebecca. 

Rebecca sorriu, extremamente feliz em vê-la. Passou o dia inteiro fugindo de Karina, mas a verdade era que cada segundo que ficou longe dela durante todo aquele dia, um buraco de saudade foi abrindo em seu peito e ela não havia percebido até aquele momento. Ia se questionar o que deveria estar acontecendo, mas desistiu. Já estava exausta de questionar tudo que sentia por Karina. Pelo menos naquele fim de tarde não pensaria naquilo. Usaria a festa para se distrair e se divertir como todas as pessoas presentes. 

Rebecca estava prestes a abrir a boca para dizer algo, mas Camille apareceu, puxando Karina pelo braço. 

— Eu quero que você conheça alguém. – disse Camille com um sorriso travesso. – Essa aqui é a Lorena. – Karina e Lorena trocaram um aperto de mão, juntamente com um sorriso. – Essa é a engenheira nova que eu te disse. – mandou uma piscadela para Lorena. – Me agradeça depois. 

— O que… – Karina acompanhou Camille se distanciar com o olhar, mas rapidamente voltou sua atenção para Lorena. – Quanto tempo ela estava planejando isso? 

— Acho que desde que te contrataram. Ela só estava esperando a oportunidade. 

— Vocês bebe, certo? – Lorena riu da pergunta, respondendo com um balançar de cabeça positivo. – Então vamos pegar uma bebida para você. 

— Eu tenho algumas ideias. – disse Elizabeth aproximando-se de Rebecca. 

— Você não vai planejar sua própria festa surpresa. – respondeu Rebecca, mas sem olhar para a amiga. Estava muito ocupada olhando para o outro lado da recepção, vendo todos os sorrisos, troca de olhares e toques que Karina e Lorena estavam trocando. Isso estava a incomodando mais do que no dia que Karina disse que tinha um encontro. – Festa surpresa só é surpresa se a aniversariante não sabe. 

— Tudo bem. – deu de ombros, não dando muito importância ao que a amiga estava dizendo. – Eu vou dar a lista com as ideias para o Leo. 

— Eu não vou aceitar nenhuma lista de ideias que o… Leo! – ela disse o nome do homem, mais alto do que o restante da frase, e esboçou um sorriso. – Leo. – repetiu, fazendo com que Elizabeth a olhasse de uma forma estranha. A ruiva achava que ela estava louca. 

— Oi! – Leo abraçou Elizabeth por traz, dando um beijo em sua nuca. – Vocês sabem mesmo como preparar uma festa surpresa. Nunca pensaram em trabalhar com eventos? Eu contrataria vocês. 

— Você é o nosso maior admirador, então… – Elizabeth virou-se, apoiando os dois braços ao redor do pescoço do noivo. – Você nos contrataria se trabalhássemos de qualquer coisa. – selou os seus lábios com o de Leo. – Oi. 

— O que você está fazendo aqui? – questionou Rebecca forçando um sorriso. Por qual motivo ela estava mais apreensiva com Leo e Samantha no mesmo ambiente do que a própria amiga? 

— Liz me avisou sobre a festa surpresa, então vim direto do aeroporto para cá. – abraçou Elizabeth de lado. – Não ia aguentar mais um dia inteiro sem vê-la. – Leo deu um beijo na bochecha de Liz. A ruiva sorriu, convencida por causa do que ouviu.  

Rebecca quis rir de nervoso, mas se conteve. Ela que não ia ficar criando clima onde, aparentemente, não existia. Já tinha o seu próprio clima para lidar. 

— Gente, onde vocês compraram essa vodca? Porque é uma das melhores que eu já… – Samantha não conseguiu concluir. Discretamente, como já estava acostumada a fazer, ela olhou Leo de cima abaixo. O homem branco, de olhos verdes, cabelos pretos bem cortado e uma barba rala, conseguia ficar cada dia mais bonito e charmoso, ainda mais quando usava aqueles ternos caros. Às vezes, só às vezes, entendia o motivo de Elizabeth não desistir de nenhum dos dois. Ambos era excelentes partidos. — Leo, oi! – Samantha forçou um sorriso. – Quanto tempo! 

— Infelizmente ou felizmente, não tenho mais nenhum conhecido se divorciando. – o homem respondeu descontraidamente. Samantha riu. – Eu vou pegar alguma coisa para beber. 

— Eu também. – disse Elizabeth, entrelaçando seu braço com o braço do noivo. Quando estava de costas, ela murmurou um “me desculpa” para Samantha. A loira só ergueu os ombros, esboçando um sorriso amarelo. O que poderia fazer? 

— Você… Você conhece o Leo? – Karina ficou tão perplexa com a interação dos dois que teve que pedir licença para Lorena e ir sanar todas as suas dúvidas. 

— Conheço. – respondeu como se não fosse grande coisa. – Ele me apresentou a uma amiga que precisava de um advogado de divórcio. Nós nos conhecemos através da Liz. Não é maravilhoso isso? Além de dormir com a noiva dele, ainda ganhei muito dinheiro naquele divórcio. 

— Claro que vocês se conheceram através da… – Karina não concluiu, somente balançou a cabeça em negativo, soltando um riso de nervoso. 

— Quanto menos você pensar, menos você vai enlouquecer. – Samantha ergueu o copo com vodca para a amiga e saiu, indo conversar com alguns convidados da festa surpresa. 

— Ela tem razão. – concordou Rebecca. Karina balançou a cabeça negativamente mais uma vez, rindo em seguida. Era melhor não pensar muito naquilo mesmo. – Karina… 

— Ei… – Lorena tocou no braço de Karina. Rebecca teve vontade de revirar os olhos, mas se conteve. – O que você gosta de dançar? Porque nós vamos animar mais ainda essa festa. – ela puxou Karina pela mão, impedindo que qualquer conversa que Rebecca pensou em iniciar acontecesse. 

Rebecca grunhiu, frustrada e tomou em um gole do primeiro copo de bebida que encontrou pela frente.  

E aquele foi o primeiro copo de muitos. 

Enquanto todos se divertiam na pista de dança improvisada, Rebecca virava copos e copos de bebida, mas sem tirar o olho da interação de Karina e Lorena. Cada toque que as duas trocavam com conversas no pé do ouvido, era um copo com qualquer bebida que ela virava sem nem ao menos se importar com o que estava bebendo ou o estrago que aquilo poderia causar mais tarde. Ela estava explodindo em ciúmes e não existia nada que pudesse fazer sobre aquilo a não ser beber e torcer para que o prédio caísse em cima da cabeça de Lorena.  

Rebecca queria ser mais como Samantha. A advogada parecia extremamente tranquila em ver Elizabeth e Leo juntos. As duas agiam como se fossem duas amigas somente. Samantha dançava com algumas amigas de Camille, enquanto Elizabeth dançava com Leo. Nenhuma das duas estavam no estado de se embebedar para mascarar o ciúmes igual Rebecca. Elizabeth por não ter necessidade. Samantha por estar conformada com a situação. 

— Atenção! – Rebecca bateu desengonçadamente com um talher na taça que tinha em mãos. Qualquer um ali diria que ela estava bêbada, não tinha nem como tentar esconder. – Eu gostaria de fazer um discurso. 

— Não. – Elizabeth puxou a amiga pelo braço, evitando que ela ganhasse mais atenção. – Você não vai fazer discurso nenhum. – disse enquanto levava Rebecca para longe da pequena festa surpresa. – Você está bêbada. – Liz riu. – Eu nunca vi você bêbada em uma festa da empresa. O que aconteceu? 

— Nada. – respondeu atropelando as letras. Estava tão bêbada que mal conseguia se fazer entendível. – Eu estou ótima! Nunca estive melhor. Se eu cometer um assassinato será que a Sam me defende? – fez um biquinho manhosa. – Estou louca para cometer um assassinato. 

— Quem você quer… – Elizabeth não precisou concluir a pergunta. Quando viu Karina trocando algumas palavras com Lorena, entendeu o motivo de toda a embriaguez da amiga. – Ah… – sorriu de uma forma travessa. – Eu sabia! 

— Sabia do que? Você… – passou o braço pelo ombro de Elizabeth, tentando se manter em pé. – Você não sabe de nada. Nada, nada, nada, nada. 

— Ei… Será que você pode ir fazer o discurso, cantar o parabéns? Eu a levo para casa. – Karina se ofereceu. Estava um pouco preocupada com o estado de Rebecca e, por mais que essa fosse sua primeira festa da firma, não acreditava que essa era a forma que Rebecca se comportava. Além do mais, a arquiteta tinha uma reputação. Mulheres de negócios bêbadas em festas sempre dava um jeito de estragar essa reputação. 

— Você tem certeza? Eu posso leva-la… 

— Não, você é a outra chefe que organizou essa festa, então… – ela passou o braço de Karina pelo seu ombro, segurando a loira, impedindo que ela desse qualquer passo em falso e caísse. – Eu te mando mensagem assim que deixa-la em casa. 

— Obrigada. – Elizabeth mandou um sorriso para Karina, a morena retribuiu o gesto com outro sorriso.  

Apesar de toda a situação, cada dia que passava tinha menos antipatia por Liz. Ela poderia não ser a melhor namorada para Samantha, mas por tudo que já tinha visto, ela era uma boa amiga para Rebecca, então isso contava. 

— Você é tão, mas tão bonita. – disse Rebecca passando o dedo pelo rosto de Karina. – A mulher mais bonita que eu já vi em toda a minha vida. 

— Obrigada. – respondeu Karina, apertando diversas vezes o botão do elevador. 

— Eu estou falando sério. – apertou a bochecha de Karina. – E essas suas covinhas? – afundou o dedo indicador na bochecha de Karina. – São umas malditas. Eu odeio suas covinhas. 

— Peço desculpas por qualquer transtorno que minhas covinhas tenham causado. – disse Karina em tom descontraído, arrastando Rebecca para dentro do elevador. 

— Essas malditas covinhas te deixam muito mais linda. – Rebecca tentou andar pelo elevador, mas Karina a impediu. – A mulher mais linda que já vi na vida. – disse encarando o rosto de Karina. A morena tinha um sorriso tímido nos lábios. Ela não estava constrangida com os elogios de Rebecca, ela estava envergonhada. – É uma merda ser noiva, sabia? 

— Não, eu não sei. Nunca fui noiva. Por que é uma merda ser noiva? 

— Na, na, na… – disse balançando a cabeça em negativo. – Acho melhor eu não te contar. Eu não posso te contar. Melhor não te contar. 

— Tudo bem. – Karina arrastou Rebecca para fora do elevador. Ela fez sinal para o segurança do prédio, pedindo que ele chamasse um táxi. – Então não me conte. 

— Tudo bem, vou contar! – disse Rebecca, como se não tivesse ouvido uma única palavra do que Karina acabara de dizer. – É uma merda ser noiva porque eu não posso… – colocou a mão no canto da boca, chegou bem perto do ouvido de Karina e continuou falando em um sussurro. – Eu não posso te beijar. 

Karina, que estava com a porta do táxi aberta pronta para colocar Rebecca dentro, congelou. Que história era aquela de beijá-la? Acreditava veemente que pessoas bêbadas falavam muitas coisas que não tinham coragem de dizer quando estão sóbrias. Bebida tirava o filtro, então as pessoas ficavam mais desinibidas. Ela podia ou não podia saber disso por experiência própria porque o seu terapeuta podia ou não podia tê-la embebedado em uma das sessões. 

História para outro capítulo. 

Em silêncio, Karina colocou Rebecca dentro do táxi e também entrou. Ela passou o endereço do prédio que Rebecca morava para o taxista  e os primeiros minutos de percurso elas fizeram em completo silêncio, pelo menos até Rebecca começar a ter uma crise de risos. 

— Eu disse que era melhor não te contar. – afirmou Rebecca entre risos. – Eu já disse o quanto você é bonita? Eu queria muito, muito, mas muito mesmo te beijar, mas… – mostrou o dedo anelar da mão direta. – Oh merda! Onde foi parar? – começou a procurar a aliança no banco do táxi, até que a viu em sua mão esquerda. – Ah… – mostrou a aliança em seu dedo. – Uma merda ser noiva. 

— Aham… – Karina limitou-se a dizer, ainda estava muito perplexa com certas revelações. 

Karina ouviu mais dezenas de vezes o quanto era bonita e o quanto Rebecca queria beijá-la até chegarem no prédio. Cada vez que a loira repetia aquilo, Karina lembrava das palavras que ouviu de Samantha mais cedo. Será mesmo que ela ainda tinha uma chance com a sua paixão de adolescência? Como não percebera o interesse de Rebecca nela antes? Isso se fosse interesse. Às vezes era somente uma atração, coisa de momento e, se fosse isso, jamais se sujeitaria aquilo.  Por mais que desejasse pelo menos uma única vez sentir o gosto dos lábios de Rebecca, nunca faria seu coração passar por uma decepção daquela. Ele já tinha aguentado coisas demais antes dela começar a fazer terapia. 

— Opa! Lá vamos nós… – disse Karina abrindo a porta do apartamento. Ela achou o interruptor de luz do lado da porta, assim que as luzes acenderam, uma cachorrinha branca com manchas marrom, da raça Shih Tzu, correu em direção a porta, latindo. – Está tudo bem. Eu só vim deixa-la em casa. 

— Pen! – Rebecca abriu um sorriso ao ver a cachorra, deu um passo para frente, mas quase torceu o pé com a pisada em falso que deu. – Essa é a Karina. Já te falei dela. Muitas vezes. 

— Tudo bem. – Karina olhou ao seu redor e viu a escada que dava para o andar de cima do apartamento logo depois da sala. O lugar era enorme. Somente a parte debaixo era o dobro do apartamento que dividia com Samantha. E, embora o prédio em si fosse luxuoso, a decoração do apartamento de Rebecca era simples, assim como ela. O apartamento passava a sensação de ser bem-vindo e Karina gostou daquilo. – Quarto. – ela disse arrastando Rebecca junto de si para as escadas. 

Karina parou no meio do caminho quando olhou rapidamente para trás e perto de uma das janelas, em cima de uma mesinha, encontrou uma maquete de uma casa fechada em vidro. Dezenas de lembranças vieram em sua mente, trazendo muita confusão para a cabeça de Karina. Por que Rebecca tinha a casa ali? Por mais que quisesse respostas, com Rebecca naquele estado, não iria conseguir descobrir absolutamente nada coerente. Portanto, Karina levou Rebecca até o andar de cima. Achou o quarto da loira com facilidade. Sorriu ao ver a decoração simples que também tinha no cômodo. Era exatamente o quarto que Rebecca falou anos atrás que teria quando morasse sozinha em sua própria casa. Ela carregou a loira até o banheiro anexado ao quarto. Sentou Rebecca em cima da tampa do vazo e ligou as torneiras da banheira. 

— O que… – Rebecca sorriu maliciosamente com Karina tirando o seu salto. – Você está pensando em se aproveitar de mim, Karina Prince? 

— No seu estado? – Karina balançou a cabeça em negativo, rindo. – Você não aguentaria. 

— Quer testar? – mordeu o lábio inferior, provocativa. Karina riu, terminando de tirar as roupas dela. – Eu vou me arrepender tanto disso amanhã. 

— Confesso que estou ansiosa para ver Rebecca Mitchell pós bebedeira. – sorriu de forma doce, fazendo com que o coração de Rebecca derretesse mais ainda. Ela odiou Karina por aquele sorriso. Por que ela não podia simplesmente beijar a morena e depois dizer que não se lembrava de absolutamente nada? Muitos faziam isso, então porque ela não podia fazer parte dessa estatística também? A resposta era simples: Se importava demais com Karina para fazer algo do tipo. No final das contas, não queria perder a morena. – Vamos lá. 

Karina ajudou Rebecca a se levantar. A loira estava totalmente nua. Em qualquer outro momento aquilo poderia ser grande coisa para Karina, mas não diante daquela situação. Ela não conseguia ver a loira a não ser como uma amiga que precisava de sua ajuda. Ela  colocou Rebecca dentro da banheira e, sem segundas intenções, começou a ensaboar o corpo da loira. Rebecca balbuciava palavras desconexas a cada toque da esponja em seu corpo. Karina ria. Se contassem para ela anos atrás que estaria naquela situação, com toda certeza chamaria a pessoa de louca. Rebecca era tão linda. Não exteriormente, a beleza exterior dela era uma fato e não havia necessidade dela ficar sem roupa para comprovar isso. Rebecca era linda interiormente. 8 anos poderia ter passado. Karina convivia a mais de um mês com ela e, mesmo assim, a garota de 16 anos por quem ela havia se apaixonado ainda vivia. Estava um pouco bêbada, dizendo coisas que a deixaria confusa durante toda a noite, mas ela ainda estava lá. O coração de Rebecca continuava no mesmo lugar. Como poderia não continuar apaixonada por alguém assim? As pessoas podem mudar de crença, de postura, de opinião, mas o coração, independente de quanto tempo passe, continua sendo o mesmo. 

Quando estava quase terminando o banho, foi impossível para Karina não cair na gargalhada. Rebecca dormia dentro da banheira. Tratou de tirar rapidamente todo o excesso de sabão do corpo da loira e, com um pouco de dificuldade, levantou-a da banheira. Rebecca deu uma leve despertada, sendo de grande ajuda para Karina leva-la até o quarto. A morena vestiu Rebecca somente com um roupão e a ajeitou na cama. Deixaria com que ela descansasse. 

Nem dois minutos se passaram e Rebecca já dormia pesadamente. Karina sorriu de forma apaixonada, cobrindo a loira. Ficou tentada em depositar um beijo em sua testa, mas após a noite de revelações que teve, era melhor evitar qualquer tipo de beijo, independente de sua vontade por Rebecca, mesmo caindo de bêbada, continuar parecendo um ser angelical. 

Karina, 10:33 pm 

Ela já está dormindo. 

Elizabeth, 10:33 pm 

Obrigada por cuidar dela 😊 

Karina sorriu com a resposta. Cuidaria de Rebecca sempre que ela necessitasse de seus cuidados. 

— Oi menina. – disse Karina a cachorra assim que chegou ao andar debaixo. – Acho que ela te dá comida assim que chega do trabalho, certo? – Pen latiu como se estivesse respondendo Karina. A morena revirou o armário da cozinha a procura da ração da pequena cachorra. – Aqui. – disse enchendo o pote com ração. Pen correu balançando o rabo até o pote de ração, devorando-o. – Você tem uma ótima dona. – admitiu, fazendo um carinho na cachorra. Pen estava tão entretida comendo que nem deu ousadia para Karina. – Ela quer me beijar. – relembrou, esboçando um sorriso. – E ela tem uma maquete da casa que desenhamos. – ela lembrou, levantando-se do chão e caminhando até a mesinha com a maquete. Pen continuou onde estava. Esperou muito por aquele jantar para deixa-lo por causa de um romance inacabado. – Ela ainda tem a maquete da casa que desenhamos. – repetiu, esboçando um singelo sorriso.  

Karina ficou somente olhando por alguns segundos os detalhes daquela maquete. A casa branca, com muito verde em volta, incluindo um pequeno jardim, era realmente idêntica ao desenho. Até as janelas com molduras pequenas de cor preta e a porta marrom clichê, que tem em todas as casas dos sonhos, responsável por dezenas de pequenas discussões, estavam ali. 

– Por que você tem uma maquete da casa que desenhamos, Rebecca? 

Por que alguém constrói uma maquete de uma casa que foi desenhada junto com sua grande paixão da adolescência Karina? 

Bruna Cezario

Aquela que dorme demais, come demais, fala demais, é fangirl demais, assiste séries demais, shippa demais, faz as pessoas sofrerem com suas histórias demais, farofa demais e tem dinheiro de menos. Prazer!

6 comentários em “Romântica Anônima: Capítulo 8 – Você é tão, mas tão bonita

  • Fevereiro 27, 2018 em 1:55 am
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    Acho tão lindo,quando a pessoa vem despreocupada só pra deixar aquela pequena mania de att a pagina mesmo sabendo que não seria dia para att e lá esta aquela belezura att 🤗👏🏻👏🏻
    Minha segunda ficou melhor!! 😊❤

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    • Fevereiro 27, 2018 em 2:50 am
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      Que capitulo maravilhoso!!!!
      Finalmente alguém teve coragem de se declarar, por mais que estivesse bebada, mas ainda assim foi… perfeito. que momento brasil… foi a gente que pediu 😍😍😍😍

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      • Fevereiro 27, 2018 em 7:20 pm
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        Como foi dito… As pessoas tem mais coragem de dizer as coisas quando estão bêbadas. Vamos ver se essa coragem permanece na manhã seguinte hahahahaha

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    • Fevereiro 27, 2018 em 7:19 pm
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      Eu fico com um sorrisão sempre que eu leio uma coisa dessas ❤ Tava devendo esse capítulo para vocês fazia é tempo. Vamos ver se essa semana consigo trazer mais uma surpresa.

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  • Fevereiro 27, 2018 em 3:25 am
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    Rebecca bêbada melhor pessoa, ela procurando a aliança na mão errada hahah 😂
    E que relacionamento mais louco esse da Sam com a Liz e o noivo 😲
    To curiosa demais pra saber como vai ser a reação da Rebecca qd descobrir que a R.A era a Karina (sei que podd levar um tempo ate chegar a essa parte, mas to tipo MUITO CURIOSA)
    Amo a parte do ‘pré – romance’ nas estorias, a expectativa é apaixonante kkkk

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    • Fevereiro 27, 2018 em 7:26 pm
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      Vamos embebedar Rebecca mais vezes para ver o que mais ela tem a falar hahahahaha

      Mais para frente vai ser aprofundado mais esse triângulo amoroso que não é bem um triângulo porque Leo não faz a menor ideia que está no meio disso. Deve ficar mais louco ainda 😂

      Vai demorar bastante ainda, mas no próximo capítulo elas vão começar sobre a tal maquete, isso deve dar um pouco de ideia de como Rebecca vai reagir quando descobrir ou pelo menos um pouco do que ela sentiu/sente por tudo ter acabado.

      Eu amo escrever esse pré também, acho mais interessante do que o romance findado em si e amo mais ainda ler que todo esse desenvolvimento agrada ❤

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